quinta-feira, 29 de dezembro de 2011


















SUPERMERCADO

para a Ana Paula Inácio





Tenho 35 anos e sei finalmente o que
quero. Basta olhar para o cesto
de compras: bolachas Leibniz, papel
higiénico Renova, leite com chocolate
Agros e, claro, uma garrafa de Famous
Grouse e pelo menos seis latas de Super Bock.
Discos já tenho que cheguem, por muito
que me desminta, e não viverei o suficiente
para ler todos os livros que me ocuparam a casa.

É um bocadinho banal, eu sei, mas é a minha
prestação diária enquanto consumidor, o meu fado
simples, enxuto, quase isento de lágrimas & remorsos.
Acordo para almoçar no Doce Lindo (ou Doce Belo, ainda
não houve rotina que me fizesse decorar o nome),
passo pelo supermercado, onde desejo ou nem por isso
todas as ternas e voláteis isildas deste mundo perfeito
– e volto a subir devagar as escadas de madeira rombas.

Só muitas horas depois, quando as luzes
me garantem que o bairro inteiro dorme,
escrevo poemas como este, versos em que
inutilmente vos digo que sou um homem feliz,
un roseau pensant, o mais belo cadáver de Lisboa.




Por Manuel de Freitas

domingo, 25 de dezembro de 2011











MENDIGA VOZ



E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta
a cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.




Por Alejandra Pizarnik
Tradução de Alberto Augusto Miranda
Imagem de AAT

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011












A DOMADORA DE CROCODILOS







Todos os dias
meto a cabeça
na boca
do crocodilo

O meu feito é feito
de paciência

Já meti
a cabeça
no forno
estava farta
dos crocodilos
e dos amantes

Não tenho tido amantes
tenho tido crocodilos

Com os crocodilos
ganho o pão
e as rosas

Morrer é um truque
como tudo o mais

Dobrada
entre os crocodilos
dobrados
arrisco a pele

A pele é a alma









Por Adília Lopes












O VAGAR FOI DESCENDO SOBRE AS CASAS





Tinham a luz retida no outeiro
e a tarde de Março a sustentá-las,
envoltas no esplendor do seu sossego.
Em baixo, o rio quase parava.
Era o mar a subir, mas muito lento.
Como se houvesse pelo azul das águas
um defluxo recíproco movendo
luzes poentes e paletas gastas,
onde já se destaca a de ouro velho.
E, depois, o vagar ainda baixa,
enquanto um arrepio arrisca certo
uma ríspida ruga, apenas clara
porque a secunda o céu azul. O resto
deve-se às sombras que se alongam, graças
ao contraluz desfigurando o outeiro.








Por Fernando Echevarría

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011











QUADRILHA




João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.




Por Carlos Drummond de Andrade










4.

dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
conhece o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos




Por Al Berto

domingo, 4 de dezembro de 2011
















ENTRE A BRISA E O REDEMUNHO





Ninguém nunca soube sua idade, mas quando os primeiros habitantes chegaram aqui, aqui ela já estava.
Fugia do asilo sempre, sempre.
Vizinha da gente, ela entrava de assalto em nossa casa – achasse a porta destrancada.
Ninava, perene, uma boneca de pano. Especula-se que era um simulacro de sua filhinha falecida de infância.
Sua roupa de chita multiflorida lhe dava um aspecto de personagem de presépio maluco, de folia de reis extraviada do ofício.
A gente comentava que, invés de alma, ela tinha ventania: às vezes, uma ciranda alegre; outras, um circo demoníaco.
Balbuciava-nos declarações de amor incondicional. E como ríamos porque não entendíamos seu idioma de alarido, machucada profunda, grunhia-nos impropérios ininteligíveis. Depois, se ria, banguelamente.
Certas ocasiões, batia à porta, mesmo encontrando-a aberta. Trazia no cenho uma doçura aureolar de quem visita uma viúva recente. Acomodava sua cabecinha no peito da gente e nos supra-olhava sorrindo, afetuosíssima. E, então, chorava, mansinha. Um chorinho garoado, quase relento. Talvez, por seu interno deserto vasto, seus rios intransponíveis.
Após ir-se embora, ou ser reconduzida ao asilo, borboletas multicores saiam de debaixo dos móveis, como se tivessem se gestando lá há séculos. E objetos perdidos, procurados pela casa há semanas, eram imediatamente encontrados nos lugares mais óbvios.






Por Wilson Torres Nanini












Tantos são os que correm atrás da riqueza sem descanso.
Toda a noite fazem contas, durante o dia galopam.
Passam a vida num frenesim constante, cheio de fadigas.
Não sabem que sobre o tecto das suas casas o céu é azul.





Por Tai Fu Ku (século XIII)
Tradução a partir do espanhol de Lp, Do trapézio sem rede










INSTRUÇÕES PARA UMA CRIADA DE MESA




Não levantes os copos e os pratos
da mesa. Não esfregues
a nódoa da toalha. É bom sabê-lo:
antes de mim houve aqui gente.

Compro sapatos que andaram nos pés de outro.
(O meu amigo tem as suas próprias ideias.)
O meu amor é a mulher de outro homem.
A minha noite é tomada pelos sonhos.
As gotas de chuva são pintadas na minha janela,
nas margens do meus livros há anotações de outros.
No projecto da casa em que quero viver
o arquitecto desenhou estranhos junto à porta de entrada.
Na minha cama há uma almofada
com o espaço vazio de uma cabeça que já se foi.





Por Yehuda Amichai
Tradução a partir do inglês de Lp, Do trapézio, sem rede
Arte de Samuel van Hoogstraten

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011












PÁSSARO




Tenho um pássaro empoleirado no ombro,
um pássaro-gémeo, um pássaro que nasceu comigo.
Cresceu tanto, ficou tão pesado,
cada passo que dou é uma tortura.

Um peso morto, um peso morto, um peso morto sobre mim.
Devia deitá-lo ao chão - é tenaz,
as suas garras cravam-se no meu ombro
como as raízes de um carvalho.

A um palmo do meu ouvido: o som
do seu horrível coração de pássaro a palpitar.
Se um dia levantar voo
cairei logo por terra.





Por Ágnes Nemes Nagy
Tradução a partir do inglês de Lp, Do trapézio, sem rede
Arte de Robert ParkeHarrison

sábado, 19 de novembro de 2011














CONVERSA AO MEIO-FIO




A rua?
Não que fosse estreita
As mulheres é que conversavam largo
Coro que os homens não desperdiçavam

As janelas?
Possuíam a altura dos olhos
O parapeito, a extensão do vento

O passeio?
Tinha a medida dos pés
O que excedia não era medo

A avenida?
Não que seja larga
Os autos é que encolheram os rios

Os edifícios?
São mudos,
homens e mulheres




Por Anna Ehre
Fotografia de Sthel Braga







PROMESSAS AO TELEFONE





Impossível saber como limpar esses rios.
O desejo perde-se entre os automóveis;
o último fio de coragem colapsa no chão
com os sacos de compras, não é culpa de ninguém.
Longe vão os dias em que as pombas repousavam
nos ombros, e a simples carne tornou-se
agora uma estátua. Poeira e folhas caídas,
águas tenebrosas, janelas escurecidas por toda parte.
Eu detecto o cheiro que deixaste para trás.
Precisamos de trompetas aqui, por favor, trompetas.
Fico a olhar o céu à espera de nuvens
e a mais escura não pressagia chuva.
Do outro lado da janela de vidro
uma mulher chora enquanto fala ao telefone,
os sacos de compras abandonados a seus pés;
parece que a vida está prestes a acabar
mas continua implacável, coisa infeliz.
A chuva corrói montanhas; do mesmo modo,
uma simples lágrima corrói o corpo, corrói-o.

Haverá coisa mais dolorosa que promessas ao telefone?






Por Rikardo Arregi
Tradução do inglês por João Luís Barreto Guimarães

domingo, 13 de novembro de 2011







FIM




Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.





Por Mário de Sá-Carneiro








UM ADEUS PORTUGUÊS





Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao modo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não pcdias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal.

                    *
Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 
por ti.




Por Alexandre O'Neill

terça-feira, 1 de novembro de 2011










EM CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO





Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.


Doce peso,
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.


Cada célula tem uma vida.
Há aqui bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a populaça possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar noutra colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
uma cobradora na portagem,
uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
uma pintando da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na Tailândia deitada na esteira,
uma limpando o rabo ao seu bebé,
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer.


Doce peso
em celebração da mulher que sou
deixa-me levar uma echarpe de três metros,
deixa-me tocar o tambor pelas que têm dezanove anos,
deixa-me levar taças para oferecer
(se é isso o que me toca).
deixa-me estudar o tecido cardiovascular,
deixa-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixa-me chupar o pecíolo das flores
(se é isso o que me toca).
Deixa-me imitar certas figuras tribais
(se é isso o que me toca).
Pois o corpo preciso disso,
que me deixes cantar
para a ceia,
para o beijo,
para a correcta
afirmação. 




Por Anne Sexton

Tradução de Jorge Sousa Braga

Arte de Gustave Courbet

domingo, 30 de outubro de 2011











SUÍTE NÚMERO SEIS





É um grande incómodo não saber tocar
violoncelo que o pranto seria doutra
condição: ela gravíssima procurando
pela sala quieta de vez em vez sobre
o parapeito procurando procurando
na lida da luz entre as ramagens a nossa
sentença enquanto eu antecipado – a dor
em arco – ressumava contra as cordas o
adeus.

E a tristeza imensa ser-me-ia então como
tijolo de subir paredes ao invés
desta mais triste ainda – se nunca lhe achei
o préstimo – que por dentro vai corrompendo
corrompendo; podia dá-la já pensei
nisso: que talvez ma aceitasse o senhor
Rostropovitch.



Por António Gregório










MORTE EM VENEZA




De muitas coisas se pode morrer
em Veneza
De velhice de susto
de peste

ou de beleza




Por Jorge Sousa Braga

sábado, 29 de outubro de 2011








SUBVERSIVA





A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta 
nova
em frente ao Palácio da Alvorada. 

E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça 

E promete incendiar o país



Por Ferreira Gullar

domingo, 23 de outubro de 2011









NIGHTHAWKS AT THE DINNER




Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa-me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase-silêncio desabrigado e informe.


Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo-nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual - um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.


Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Sò nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagess de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.


O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.
Daqui a algumas horas esperar-nos-á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há-de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer-lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
- do lado mais esquivo da morte.


Mas bastam-me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.




Por Manuel de Freitas

Arte de Edward Hopper