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sábado, 12 de fevereiro de 2011



O POETA É UM ASSUNTO ALÍ NO INVISÍVEL






Esse homem é invisível, a sua matéria de calhandra é invisível,

anda no invisível com passos que produzem ruído nas ruas invisíveis,

come coisas invisíveis, respira o invisível, paga com moedas invisíveis.

O poeta é um assunto ali no invisível, cruza rios invisíveis,

deita-se com mulheres invisíveis, fala com palavras invisíveis.

Está em Dublin e é invisível, vai pelo céu em aviões invisíveis,

no seu coração a melancolia é invisível, pensa em coisas invisíveis,

lê Kavanagh que escrevia livros invisíveis,

por exemplo isto é invisível: My soul is an old horse

offered for sale in twenty fairs*.

A sua fúria é invisível, a sua tempestade também é invisível,

trabalha numa fábrica invisível, gasta os cotovelos em hospedarias invisíveis,

Teillier era invisível, Parra é quase invisível, ninguém viu Rojas.

Os operários brindam no fim do dia com canecas invisíveis de cerveja,

os solitários instalam-se em hotéis invisíveis, falam ao telefone

com raparigas invisíveis, esperam em esquinas invisíveis por outros invisíveis.

No verão a chuva é invisível, abrem então um guarda-chuva invisível,

partem para regiões invisíveis para lerem poemas invisíveis,

encontram-se num parque com alguém invisível, amam o invisível.

O poeta é um assunto ali no invisível, até este poema é invisível,

um espelho é invisível, a cidade em que vivo é invisível,

o imprescindível e o insignificante, isso é o invisível.






Por Alexandra Domínguez
Tradução de Lp, Do trapézio sem rede (http://arspoetica-lp.blogspot.com/)