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sábado, 14 de abril de 2012








SEM CHAVES E ÀS ESCURAS





Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais.

Então saí para o patamar para deitar o lixo fora
e, atrás de mim, com uma corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes dos meus vizinhos
através das suas portas.
É passageiro, disse para mim;
no entanto também a morte poderia ser assim:
um patamar escuro,
uma porta fechada com a chave do lado de dentro,
o lixo na mão.





Por Fabián Casas
Tradução de Lp, Do trapézio sem rede

domingo, 25 de dezembro de 2011











MENDIGA VOZ



E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta
a cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.




Por Alejandra Pizarnik
Tradução de Alberto Augusto Miranda
Imagem de AAT

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010



INSTANTES






«Se eu pudesse viver novamente a minha vida,

na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser perfeito; relaxaria mais.

Seria mais tolo do que tenho sido; na verdade,

Poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiénico.

Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,

subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a lugares onde nunca fui,

tomaria mais sorvetes e menos lentilhas,

teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente

cada minuto de sua vida; claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabes, disso é feita a vida, só de momentos,

não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termómetro,

uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas;

se eu voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço

no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do Outono.

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres

e brincaria com mais crianças,

se tivesse outra vida pela frente.

Mas vejam, tenho 85 anos

e sei que estou morrendo...»






Atribuído a Jorge Luís Borges
Arte de J. Bosco

domingo, 21 de novembro de 2010



EXAME DE INGLÊS






Líamos Dylan Thomas para o teu exame de inglês,

mas não estava ali o teu exame, a severidade de uma aula,

a lição decisiva que era preciso temer.

Estava, sim, a colina dos fetos

com o seu sol tombando em rios de ouro palpável,

estava o sol sobre os declives

na sua sagrada fascinação de beijar

as crianças que acabavam de começar a andar.

Estavam as eiras de feno a partir das quais

segui o trilho das ervas altas

que me levou aos caminhos da minha infância.

Não havia ali nenhum mundo maciço,

antes uma substância núbil cobrindo o ar

na qual as minhas palavras se lançavam felizes

pelo seu som, pela sua cadência e cor.

Em voz alta Dylan Thomas para o teu exame de inglês,

juntos aprovámos esse regaço de luz verbal

comovida entre as folhas frescas dos fetos.






Por Roberto D. Malatesta
Tradução de Lp, Do Trapézio Sem Rede (http://arspoetica-lp.blogspot.com/)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010



poderia talvez esquecer algo que tenha escrito

e voltar a escreve-lo da mesma maneira.



poderia esquecer a vida que tenha vivido

e voltar a vivê-la da mesma maneira.



poderia esquecer a morte que morrerei amanhã

e voltar a morrê-la da mesma maneira.



mas há sempre um grão de pó da luz

que parte a engrenagem das repetições:

poderia esquecer algo que tenha amado

mas não voltar a amá-lo da mesma maneira.





Por Roberto Juarroz
Tradução de menino mau