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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Luís Filipe Parrado



ESCREVER DEPOIS DE UM DIA DE TRABALHO ÁRDUO



Já não há maçãs
nem laranjas na fruteira

e o cesto do pão
está irremediavelmente vazio.

Ainda assim
escrevo,

ainda assim,
depois de um dia de trabalho árduo.

Depois de um dia de trabalho árduo
os poemas são de pele e osso

e parecem-se estranhamente
com listas de compras,

pão, laranjas,
maçãs,

coisas escritas à mão,
coisas de que precisamos para viver,

coisas em que pensamos só
quando nos fazem falta.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014









O VASO




Vi como retiraste do vaso a terra,
e da terra as raízes da planta desconhecida.
Depois, com a tesoura de ferro,
cortaste o caule no ponto
certo. Em seguida, renovaste
a terra no vaso.
enterraste nela de novo a planta
que ressurgiu, surdamente,
na manhã de primavera
que sempre finda.
Agora, desvia um pouco o olhar,
repara em mim agora: vês as raízes,
o caule dobrado, a flor, o nome?
Por que não me cortas os braços, as mãos,
os pés, o tronco, e espalhas tudo
aos bocados pela terra?
Só preciso de um pouco de água:
em todos os lugares crescerei para ti.





Por Luís Filipe Parrado

Arte de Matisse

sexta-feira, 5 de outubro de 2012










TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR




Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.




Por Luís Filipe Parrado

sexta-feira, 22 de junho de 2012










Nem mais uma palavra sobre a beleza,
chega de palavras sobre a beleza, a visão nocturna
dos teus olhos não importa verdadeiramente
a ninguém. Melhor será observar a brusquidão
das aves (andorinhas, cartaxos, pardais vulgares...)
que, sem defesa, sobrevoam, ao entardecer,
os olivais que restam junto aos blocos 
de apartamentos que alcanço da tua janela.
Vou deixar de lado todas as imagens que conheço,
usar apenas palavras lentas e rasteiras.
Provavelmente, terei de descobrir uma língua
nova, mais humilde, para falar destas aves,
do modo como guinam na luz desguarnecida,
como pousam nos ramos das oliveiras,
ou nos telhados, à nossa frente
- com a traição do mundo em suspenso -
ou nos cabos eléctricos estendidos ao longo de ruas
por onde raramente passa alguém.
É sobre isto, sobre esta estranha veemência
que vou escrever, sobre o que verdadeiramente
importa. Só preciso de me defender de palavras turvas.





Por Luís Filipe Parrado

sábado, 28 de abril de 2012













TUDO O QUE O MEU PAI ME DISSE QUANDO, AOS 15 ANOS,
DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA COMEÇAR A ESCREVER POESIA




"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
essas mãos."





Luís Filipe Parrado

sexta-feira, 10 de junho de 2011
















COM UNHAS E DENTES










Estar vivo

é abrir uma gaveta

na cozinha,

tirar uma faca de cabo preto,

descascar uma laranja.

Viver é outra coisa:

deixas a gaveta fechada

e arrancas tudo

com unhas e dentes,

o sabor amargo da casca,

de tão doce,

não o esqueces.









Por Luís Filipe Parrado