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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Rui Pires Cabral







CONSERVE ESTE BILHETE ATÉ AO FINAL DA VIAGEM




Devo dizer que sempre preferi
os versos feridos pela prosa
da vida, os versos turvos
que tornam mais transparentes
os negros palcos do tempo, a dor
de sermos filhos das estações
e de andarmos por aí, hora após
hora, entre tudo o que declina
e piora. Em suma, os versos
que gritam: Temos as noites
contadas. E também
os que replicam:
Valha-nos isso.

sábado, 15 de março de 2014







CIDADE DOS DESAPARECIDOS





Muitas vezes não amei Lisboa,
não soube amá-la ao anoitecer
dos dias úteis, quando era gasta,
parada e suja, e nos autocarros
quase vazios viajava de luz acesa
a entranhada tristeza do mundo
que foi a minha primeira e mais
precoce intuição. Grande cidade
dos desaparecidos, eu não tive
tantas vezes a saúde de gostar
dos teus pequenos jardins
abandonados. Quando nos cafés
já iam desligando as máquinas
e do outro lado da linha ninguém
voltava jamais a responder
como eu queria, quantas vezes
não pude achar o sítio e o sossego
para esquecer e dormir? Mesmo assim,
eu não te fiz justiça, Lisboa, quando
me deixei de ti: eu não era exemplo,
eu sempre estranhei um pouco a cama
da vida.





Por Rui Pires Cabral


domingo, 2 de fevereiro de 2014









MEU AMIGO




Depois de tudo, no vazio
da manhã inabitável,

ajuda-me a negar
este remorso:

eu só queria uma canção
que não morresse

e a hipótese de um poema
que não fosse

o lugar onde me encontro
uma vez mais,

sem desculpa, sem remédio,
diante de mim mesmo.





Por Rui Pires Cabral

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014












STARDUST




Cidades, breves
atalhos da noite,
o desejo que eu trazia
de negar e perder
tudo: ruas e versos
a fio, amadas canções
dos mortos, a própria
razão de ser.



Por Rui Pires Cabral

sábado, 16 de fevereiro de 2013








A EDIÇÃO INGLESA
para a Mariana Pinto dos Santos




Na primavera de 1476
o jovem Leonardo da Vinci
escreveu no verso de uma carta
desesperada: If there is no love,
what then? Escreveu-o, bem
entendido, no seu vernáculo
nativo – eu é que só tenho
a edição inglesa.

De quantas coisas
nesta vida, meu Deus, só tenho
a edição inglesa – quer dizer,
a precária, aproximativa
tradução? E que fazer
com estas noites de Junho,
se o amor, justamente,
é uma delas?




Por Rui Pires Cabral

sábado, 16 de junho de 2012










PLANO DE EVASÃO




Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.



Por Rui Pires Cabral

domingo, 29 de agosto de 2010



"NÃO TENHAS CONFIANÇA NA TUA JUVENTUDE."


Para o Manuel de Freitas






Noites de tabaco com resina

de Marrocos, pequenos quartos



onde a música era enorme.

As ruas pulsavam, eram coisas



mortais, o pensamento um carrossel

de monstros vivos. E nós os únicos,



os mais sós, os mais relapsos

no caminho que descia do devaneio



à angústia. Esquecidos das horas

num qualquer degrau perdido,



o futuro era aterrador: it will end

in tears. E tudo o que sabíamos



estava errado, menos isso.






Por Rui Pires Cabral