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quinta-feira, 25 de outubro de 2012








ERAM DE LONGE





Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e ardor nos olhos fatigados. 





Por Eugénio de Andrade
Arte de Thomas Moran

sábado, 6 de agosto de 2011






















VARIAÇÃO SOBRE UM TEMA ANTIGO










Vem de tão longe que tenho piedade

dos seus cães: abro a porta, aceito

a festa dos animais.

Aproximou as mãos do fogo

e encontrou a flauta, levou-a

à boca: então o silêncio brilhou

acariciado.










Por Eugénio de Andrade

segunda-feira, 29 de novembro de 2010



POEMA À MÃE






No mais fundo de ti,

eu sei que traí, mãe!



Tudo porque já não sou

o retrato adormecido

no fundo dos teus olhos!



Tudo porque tu ignoras

que há leitos onde o frio não se demora

e noites rumorosas de águas matinais!



Por isso, às vezes, as palavras que te digo

são duras, mãe,

e o nosso amor é infeliz.



Tudo porque perdi as rosas brancas

que apertava junto ao coração

no retrato da moldura!



Se soubesses como ainda amo as rosas,

talvez não enchesses as horas de pesadelos...



Mas tu esqueceste muita coisa!

Esqueceste que as minhas pernas cresceram,

que todo o meu corpo cresceu,

e até o meu coração

ficou enorme, mãe!



Olha - queres ouvir-me? -,

às vezes ainda sou o menino

que adormeceu nos teus olhos;



ainda aperto contra o coração

rosas tão brancas

como as que tens na moldura;



ainda oiço a tua voz:

"Era uma vez uma princesa

no meio de um laranjal..."



Mas - tu sabes! - a noite é enorme

e todo o meu corpo cresceu...



Eu saí da moldura,

dei às aves os meus olhos a beber.



Não me esqueci de nada, mãe.

Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo-te as rosas...



Boa noite. Eu vou com as aves!






Por Eugénio de Andrade
Arte de Diego Rivera

terça-feira, 10 de agosto de 2010



XXV





Raivosos, atiraram-se contra a sombra

dumas acácias que por ali havia,

o corpo dorido de tanto desejar.

Olharam em redor, ninguém os vira,



A terra era de areia, a sombra dura,

também a carne endurecera

e secara a boca, só os olhos

tinham ainda alguma água fresca.



Os dedos cegos foram os primeiros

a rasgar, ferir, e logo os dentes

morderam, nem sequer

ao sexo deram tempo de penetrar.



Eram muito jovens; a terra não,

a terra estava exausta,

o coração mordido pelas vespas,

só queria morrer.





Por Eugénio de Andrade
Fotografia por Kindian

domingo, 25 de julho de 2010



XXX





Queima-te a memória da noite anterior

à fala, queima-te o sal

da boca que primeiro te mordeu

antes de te beijar.



Não tens espaço para morrer

com a manhã, não tens senão um buraco

onde esconder as lágrimas,

um ramo seco para enxotar as moscas.



O ofício da alma é desaprender.

Os animais são a maravilha,

sem memória de terem sido irmãos

da estrela matutina.



Talvez já apagada ou em ruína.





Por Eugénio de Andrade
Trabalho fotográfico sobre foto de Maonda

quarta-feira, 9 de junho de 2010



ACERCA DE GATOS





Contigo chegam os gatos: à frente

o mais antigo, eu tinha

dez anos ou nem isso,

um pequeno tigre que nunca se habituou

às areias do caixote, mas foi quem

primeiro me tomou o coração de assalto.

Veio depois, já em Coimbra, uma gata

que não parava em casa: fornicava

e paria no pinhal, não lhe tive

afeição que durasse, nem ela a merecia,

de tão puta. Só muitos anos

depois entrou em casa, para ser

senhor dela, o pequeno persa

azul. A beleza vira-nos a alma

do avesso e vai-se embora.

Por isso, quem me lambe a ferida

aberta que me deixou a sua morte

é agora uma gatita rafeira e negra

com três ou quatro borradelas de cal

na barriga. É ao sol dos seus olhos

que talvez aqueça as mãos, e partilhe

a leitura do Público ao domingo.





Por Eugénio de Andrade
Arte Vieira da Silva