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sábado, 30 de outubro de 2010





Quando eu era criança os velhos escolhiam

dias amarelos para morrer. Trazia

os pés descalços sobre muitos caminhos

como se não ouvisse a minha mãe

a chamar-me para dentro.

O céu pesava avermelhadamente sobre

a minha cabeça como o linho sobre os mortos.

Depois houve muitos invernos.

Intempéries de silêncio debaixo das arcadas

anunciaram o fim do mundo.



As paredes de casa eram permeáveis à luz.

A minha mãe tinha a densidade interior

de uma mesa e braços extensíveis:

archotes para fora ou bosques de bétulas.



A minha mãe pousava na superfície

do outono como um anjo ferido.

Quando eu era criança a tijoleira da cozinha

representava constelações e eu esperava

pacientemente o dia da ira do Senhor.



Quando eu era criança anoitecia

sobre a verdade intrínseca de haver ruas

pequenas e horizontes pequenos no fundo

das ruas. Os velhos sentavam-se na soleira

das portas nas noites de verão e as raparigas

sangravam demoradamente o calor

para dentro dos pulmões e cresciam-lhes

os seios, e fechavam-se em casa. Quando eu

era criança a minha mãe pousava na superfície

do outono como um anjo ferido.







Por José Rui Teixeira
Fotografia de Karena Goldfinch