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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Leopoldo María Panero






MUTIS



Talvez fosse mais romântico quando
arranhava a pedra
e dizia por exemplo, cantando
da sombra às sombras,
assombrado pelo meu silêncio,
por exemplo: «devemos
lavrar o inverno
e existem sulcos, e homens na neve»
Hoje as aranhas fazem-me cálidos sinais dos
cantos do meu quarto, e a luz treme,
e começo a duvidar que seja certa
a imensa tragédia
da literatura.




quinta-feira, 6 de março de 2014






Ars Magna

para o Clemen, com um arrepio



O que é a magia, perguntas
num quarto escuro.
O que é o nada, perguntas,
ao saíres do quarto.
E o que é um homem a sair do nada
e a regressar sozinho ao quarto.











Por Leopoldo Maria panero

sexta-feira, 12 de julho de 2013







ISTO PRETENDIA SER UM POEMA DE AMOR





Puxas-lhe as asas
e o saco fecha-se.
Depois dás-lhe dois nós
em cima das cascas de laranja e restos de banana,
das sobras do jantar,
umas dúzias de piriscas,
mais uma planta já morta.
A seguir são doze andares e alguns quarenta passos
até ao contentor – onde já mal cabe um saco.
Ao deixá-lo ali acende-se-te um número na mente, 
setenta e seis. São poucos ainda 
os sacos que enchestes juntos,
comparados com os mais de mil 
que encheste com Laura;
São muitos, um montão, comparando
com os dez apenas
que levavas daquela cave londrina de Marge
para um minúsculo depósito no pátio.
Em La Habana todas as noites
Amarilis pendurava o lixo nos ramos das árvores
- para evitar a rataria; 
enchestes os dois vinte e tal sacos.
É feio, bem sabes, esse teu costume
de computar amores em sacos de lixo,
pode ser que te passe um dia destes.
Doze andares lá em cima há uma luz, na tua cozinha.
E no cesto um novo saco para enchermos amanhã.







Por Juan Bonilla

Tradução de Albino M.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013








 [Pela terceira vez...]




Pela terceira vez
saio à tua procura.

Procuro-te
nos sítios onde te encontrei até ontem:
nos bares do costume, nos terraços, dando um passeio de bicicleta.

Hoje é dia de festa,
chove pela primeira vez no verão.

Não encontro abrigo para a minha solidão.
Queria encontrar-te debaixo de todos os guarda-chuvas.
Queria abraçar-te debaixo das arcadas.

Tenho vertigens só de pensar que
estás em algum sítio onde não estou.







Por Jon Benito
Tradução de Lp, do trapézio sem rede

quinta-feira, 1 de novembro de 2012










VERGONHA




O número de filhos da puta
aumenta cada dia, mas pior
é o número ainda maior dos tontos.
Eu conto-me entre os segundos,
às vezes o meu pai pergunta-me
se vou fazer alguma coisa a respeito disso;
não costumo, porém, responder-lhe,
limito-me a olhar a tv
sentada em frente da sua cara.
Deveria dizer-lhe que tem razão,
que as pessoas me dirigem o olhar
como se a uma espécie rara de animal,
como se se sentissem confortáveis
no papel do delator.
Gostaria de fazer alguma coisa para mudar,
ser mais inteligente, fumar com elegância...
esse tipo de coisas que te tornam respeitável.
Mas, no fundo, nunca seria suficiente,
os pratos continuam a cair-me das mãos.





Por Cristina Morano
Tradução de Lp, do trapézio sem rede
Arte por Duy Huynh

sexta-feira, 26 de outubro de 2012








LITERATURA E REVOLUÇÃO

  



Quando o chefe da polícia Ángel Martínez enfia o cano
do seu revólver no ânus do prisioneiro nu
e a imagem se torna nojenta, patética e cheia de sangue,
que importância tem para o jovem torturado
se o poeta é um fingidor, como disse Pessoa?
Alguma vez G. K. Chesterton visitou La Salve?
Há alguém nas celas de Intxaurrondo que conheça
Hermann Broch?
Quando está, totalmente destruído, diante do juíz,
como poderá o jovem torturado explicar
o significado de correlativo objectivo?
Como poderia Molly Bloom compreender um nascer do sol
tricotado com agulhas na prisão de Carabanchel?
Quem é Michel Foucault para o homem que passa dez meses
a definhar numa cela?
Uma visita de cinco minutos? Uma descoberta lírica?
Será que os presos estudam a Bíblia Basca de Jean Duvoisin
para terem a certeza de que as vírgulas e os agás das suas
cartas proibidas estão correctos?
Haverá, para a literatura, um valor ético inerente
na rebelião, na revolução e na coragem? Ninguém o diz.
Alguma coisa se escreveu em revistas literárias como
a Voprosi Literaturi ou a Tel Quel sobre
as longas greves de fome dos presos bascos?
Como pode preocupar-se com o compromisso o rapaz
que foge, esquivando-se às balas da polícia, o seu coração
desnudo uma bandeira revolucionária?






Por Joseba Sarrionandia
Tradução de Luís Filipe Parrado

quarta-feira, 5 de setembro de 2012










VIAGEM A LISBOA





Fugindo em vão da cidade fechada,
acabámos perdidos na cidade perfeita.
O andar luminoso, o solo branco,
os quartos despojados e na penumbra,
os poucos mas doutos livros conseguidos,
acolheram serenos o cansaço.
Depois vieram dias de passeio e de calma
com tudo a passar tão lento como é costume
num lugar a compasso dum rio.
Carros eléctricos e avenidas, barcos e estabelecimentos
foram tratando do resto.
E já não éramos os mesmos
postos a pensar na ponte como
um suicida qualquer.
Ou os que vêem do porto naufrágios parecidos.
Nem os que entre nobres ruínas
se entregam ao discurso do fracasso e da morte.
Decrépito, no meio da porcaria, por baixo da ferrugem,
o que vimos foi o fogo de uma outra vida.
Ainda nos queima quando olhamos para trás
e evocamos as tardes sossegadas de Junho
em casa de Àngel, e aquele sol do poente
a afundar-se no Tejo, muito vermelho.
Voltamos amiúde ao lugar onde fomos,
se não felizes, pelo menos afortunados.
Um olhar viaja com a melancolia
e devolve-nos aquilo que temos por perdido.





Por Álvaro Valverde
Tradução de Albino M.
Arte de Maluda

sábado, 11 de agosto de 2012








TRAÇADOS URBANÍSTICOS





Tal como qualquer cidade
também nós escondemos
turvos itinerários, edifícios arruinados,
escuras vielas de rancor ou desejo,
arrabaldes de medo ou parques para o amor,
cantos em penumbra onde ocultar segredos,
praças que nunca visitamos
e aborrecidos museus onde expor lembranças
que não interessam a ninguém.
A nós também nos habitam cidadãos terríveis:
funcionários do tédio,
mensageiros de moto levando para muito longe
o pequeno embrulho – primoroso e com laço –
dos remorsos.
Viajantes que passam por nós
com as suas malas a caminho de outros corpos
e sobretudo
transeuntes alheios à nossa própria vontade,
incivis e teimosos;
têm nomes ridículos
tal como os sentimentos amor, rancor ou medo
e especulam – como vulgares comerciantes –
com o preço
por metro quadrado do nosso coração.





Por Silvia Ugidos
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães
Fotografia de William Gedney

sexta-feira, 10 de agosto de 2012









SOMBRA DE ANA





 Passa-me a mão no cabelo, Ana,
passa-me a mão.
Serei criança para teus conselhos, Ana,
ou ancião.
Olha a neve que me cobre, Ana
- a desilusão.
Viver pesa-me neste mundo, Ana,
são já mil anos.
A chama viva que me queima, Ana,
não me dá trégua.
E nada vejo porque sou luz, Ana,
e vivo sem corpo.
Passa-me a mão no cabelo, Ana,
passa-me a mão,
não digas nada, vá, dá-me conselhos,
que eu estou cansado.





Por Josep Palau
Tradução de Albino M.

terça-feira, 24 de julho de 2012










À MANEIRA DE SZYMBORSKA





Chegados a este ponto
talvez tudo devesse ser mais simples,
a palavra lua não deveria nomear nada mais
do que a lua,
e os rios deveriam seguir até ao seu destino
sem serem alterados
pelas metáforas.
Talvez a palavra solidão não devesse
significar outra coisa além da ausência
de acontecimentos
e a palavra silêncio pudesse servir só
para calar os ruídos.

Com a língua talvez tudo devesse ser
mais simples, sem voltas
nem requebros, deixando-nos
com duas ou três questões
para seguir em frente:
um porquê, algum não sei.
E, depois, fechar a porta
que, neste caso,
deveria significar unicamente
fechá-la.






Por Berta Piñan
Tradução Lp, Do trapézio sem rede (http://arspoetica-lp.blogspot.pt/)

domingo, 1 de julho de 2012










ECONOMIA DE MEIOS (MELHOR: DE MEDOS)




Às vezes toca o telefone
e entra em casa o carteiro, disfarçado de fax.


Não lhe dou atenção, mas algo me diz
no íntimo que uma noite virá Deus
cobrar o débito na hipoteca da minha vida
simulando que me traz a cerveja e as pizzas
ou o recibo não pago da empresa do gás.


Então fará frio, será tarde
e não haverá em toda a cidade um maldito
Banco de Horas aberto que me afiance.









Por Alberto Vega

Tradução de Albino M.

sábado, 19 de novembro de 2011








PROMESSAS AO TELEFONE





Impossível saber como limpar esses rios.
O desejo perde-se entre os automóveis;
o último fio de coragem colapsa no chão
com os sacos de compras, não é culpa de ninguém.
Longe vão os dias em que as pombas repousavam
nos ombros, e a simples carne tornou-se
agora uma estátua. Poeira e folhas caídas,
águas tenebrosas, janelas escurecidas por toda parte.
Eu detecto o cheiro que deixaste para trás.
Precisamos de trompetas aqui, por favor, trompetas.
Fico a olhar o céu à espera de nuvens
e a mais escura não pressagia chuva.
Do outro lado da janela de vidro
uma mulher chora enquanto fala ao telefone,
os sacos de compras abandonados a seus pés;
parece que a vida está prestes a acabar
mas continua implacável, coisa infeliz.
A chuva corrói montanhas; do mesmo modo,
uma simples lágrima corrói o corpo, corrói-o.

Haverá coisa mais dolorosa que promessas ao telefone?






Por Rikardo Arregi
Tradução do inglês por João Luís Barreto Guimarães

quinta-feira, 5 de maio de 2011



DIVERSOS 1






Eu sou daqui
desta raiz de nogueira
que fende
o mar
deste musgo
orientado ao inverno


desta névoa


sou daqui


sombra
dos dias
que andei
tão


daqui


lento veneno
na garganta
e mortal


os meus restos são esta casa
de espelhos
mudos
que me criam


os baús
guardam
a memória
da casa


anos
enterrados
no fundo


ruínas
que me tocam


os meus dedos
abrem os baús


para dentro




Por rafa villar
Tradução de egito gonçalves 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010



SÃO OS PÁSSAROS QUE LEVANTAM O DIA PARA O CEGO






São os pássaros que levantam o dia para o cego.

Ouve-se a luz pendurada das árvores

e uma transfusão de sangue acelerado que acumula nos tímpanos

os latidos roubados à noite.



Amanhece.



Tíbias gotas de azul salpicam de manhã

os párabrisas dos carros.

Alguém, equivocado,

abriu o guarda-chuva pensando que chove.






Por Federico Gallego Ripoll
Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede (http://arspoetica-lp.blogspot.com/)

sábado, 27 de novembro de 2010



QUINZE






Agora

que tenho quinze anos de novo

e a vida toda pela frente



Agora

que o tempo me respeita

e a luz desmaia quando te beijo



Agora

que eu menina

e tu conto



Agora

que te esqueço

se te vais



Agora

que tenho quinze

amor



Deixa-me esconder nos teus braços

só até passar a tormenta.






Por Paz Hernández Páramo
Tradução de Albino M. (http://ruadaspretas.blogspot.com/)

domingo, 10 de outubro de 2010



AS MOSCAS






Vós, familiares,

inevitáveis gulosas,

vós, moscas vulgares,

lembrais-me todas as coisas.

Oh, velhas moscas vorazes

como abelhas em Abril,

velhas moscas pertinazes

sobre a minha calva infantil!

Moscas do primeiro fastio

na sala familiar,

as claras tardes de estio

em que comecei a sonhar!

E na aborrecida escola,

ágeis moscas divertidas,

perseguidas

por amor de tudo que voa,

- que tudo é voar – sonoras

embatendo nas vidraças

nas tardes de Outono, lassas…

Moscas de todas as horas,

da infância e adolescência,

da minha juventude dourada;

de esta segunda inocência,

que dá o não crer em nada,

de sempre… Moscas vulgares,

que de tão familiares

não tereis digno cantor:

eu sei que tereis poisado

sobre o brinquedo encantado,

sobre o livro fechado,

sobre a carta de amor,

sobre os olhos absortos

dos mortos.

Inevitáveis gulosas,

que não labutais como abelhas,

nem brilhais como borboletas;

pequeninas, facetas,

vós, amigas velhas,

lembrais-me todas as coisas.






Por Antonio Machado
Tradução de José Lima

sábado, 10 de abril de 2010



PÁLPEBRA





Pedro Salinas

disse num poema

que não quer deixar de sentir

a dor da ausência

da mulher que ama

porque isso é tudo

o que dela fica:

a dor.

Não me recordo das suas palavras exactas.

Ele di-lo melhor que eu.

Eram outros tempos.

Salinas está morto.

A mulher que ele amava também.

Em breve o estaremos todos.

A vida é uma simples pálpebra.

Abre os olhos

e fecha-os.





Por Roger Wolfe
Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010



A ALVORADA



Para Pablo G. Bao





Aquele lugar inóspito

fantasmal

frio

onde nunca

tinhas um cigarro

e os táxis

iam sempre

na direcção oposta.





Por Karmelo Iribarren
Tradução de Lp (do trapézio, sem rede)
Fotografia de William Gedney

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

OUTRO LUGAR





Noutro lugar deixou-se ficar nua

e deu o seu corpo ao lobo mais faminto da cidade.



Noutro lugar abriu a casa ao inimigo

e disse-lhe toma tudo quanto queiras.



Noutro lugar dançou com tanta água

que se lhe humedeceram as entranhas

e apodreceu por dentro.



Noutro lugar veio tanta gente vê-la

que o aplauso se transformou em tempestade de Verão

e a cabeça estalou-lhe de tanta névoa e tantos caracóis

e tanto Agosto e tanto fogo.



Noutro lugar rendeu-se

deixou-se levar pelo instinto noutro lugar

e deitou-se para sobreviver aos seus pés

e lamber as feridas do caminho…

e viveu noutro lugar a vida de rastos.



Noutro lugar,

não neste.





Por Almudena Vidorreta Torres, trad. LP (do trapézio, sem rede)