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segunda-feira, 2 de julho de 2012










UM HOMEM




de repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda



Por António José Forte

sábado, 15 de outubro de 2011














Retrato do artista em cão jovem




Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos

aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra




Por António José Forte
Arte de Francis Bacon

quarta-feira, 28 de setembro de 2011










DESOBEDIÊNCIA CIVIL







se a preguiça encantadora dos homens

deve acabar a sua obra e a sua língua de fogo

unir os dias e as noites do desejo

então saudemos as grandes afirmações:

«a poesia deve ser feita por todos» e

«a poesia é feita contra todos»




os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta

fiquem os amantes obscuros e o único os raros

todos os nus

porque a língua portuguesa não é a minha pátria

a minha pátria não se escreve com as letras da palavra pátria




Vêde

sobre a coroa de silêncio do vulcão adormecido

uma ave a sua plumagem de cores trémulas

e as asas que escrevem letra a letra o nome definitivo do homem

e no entanto multidões de gnomos

cada qual com o seu estandarte

esperam à entrada dos cemitérios

para saudar o fogo-fátuo




eu passo de bicicleta à velocidade do amor

atravesso a terra de ninguém com um dia de chuva na cabeça

para oferecer aos revoltados







Por António José Forte
arte por Aldina

sábado, 12 de junho de 2010


POEMA






Alguma coisa onde tu parada

fosses depois das lágrimas uma ilha

e eu chegasse para dizer-te adeus

de repente na curva duma estrada



alguma coisa onde a tua mão

escrevesse cartas para chover

e eu partisse a fumar

e o fumo fosse para se ler



alguma coisa onde tu ao norte

beijasses nos olhos os navios

e eu rasgasse o teu retrato

para vê-lo passar na direcção dos rios



alguma coisa onde tu corresses

numa rua com portas para o mar

e eu morresse

para ouvir-te sonhar






Por António José Forte
Música de Bob Dylan
Interpretação de Them