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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

















HOMENS QUE TRABALHAM SOB A LÂMPADA…








Homens que trabalham sob a lâmpada

Da morte

Que escavam nessa luz para ver quem ilumina

A fonte dos seus dias




Homens muito dobrados pelo pensamento

Que vêm devagar como quem corre

As persianas

Para ver no escuro a primeira nascente




Homens que escavam dia após dia o pensamento

Que trabalham na sombra da copa cerebral

Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas

Homens todos brancos que abrem a cabeça

À procura dessa pedra definida




Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento

Livre. Que vêm devagar abrir

Um lugar onde amanheça.

Homens que se sentam para ver uma manhã

Que escavam um lugar

Para a saída.










Por Daniel Faria

sábado, 1 de maio de 2010



Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos

Porque tinha uma mulher no pensamento

Sei que os lavava como se os contasse



Sei que os enxugava com a luz da mulher

Com os seus olhos muito claros voltados para o centro

Do amor, na operação poderosa

Do amor



Sei que cortava os cabelos para procurá-la

Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados



Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava

O cabelo no seu sangue



Na água corrente



Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir

E a mulher cantava para o homem respirar





Por Daniel Faria
Quadro de Marc Chagall


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos – digo,

As mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados

Ao peso dos pássaros que se abrigam.



É à janela dos filhos que as mulheres respiram

Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas

Transformam-se em escadas



Muitas mulheres transformam-se em paisagens

Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram

Nos ramos – no pescoço das mães – ainda que as árvores irradiem

Cheias de rebentos



As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente. Transformam-se em pomares.

Elas arrumam a casa

Elas põem a mesa

Ao redor do coração.





Por Daniel Faria
Quadro de Marc Chagall

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010



Ando um pouco acima do chão

Nesse lugar onde costumam ser atingidos

Os pássaros

Um pouco acima dos pássaros

No lugar onde costumam inclinar-se

Para o voo



Tenho medo do peso morto

Porque é um ninho desfeito



Estou ligeiramente acima do que morre

Nessa encosta onde a palavra é como pão

Um pouco na palma da mão que divide

E não separo como o silêncio em meio do que escrevo



Ando ligeiro acima do que digo

E verto o sangue para dentro das palavras

Ando um pouco acima da transfusão do poema



Ando humildemente nos arredores do verbo

Passageiro num degrau invisível sobre a terra

Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores

No meio dos incêndios

Estou um pouco no interior do que arde

Apagando-me devagar e tendo sede

Porque ando acima da força a saciar quem vive

E esmago o coração para o que desce sobre mim



E bebe






Por Daniel Faria
Video de David Fonseca

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Homens que são como lugares mal situados

Homens que são como casas saqueadas

Que são como sítios fora dos mapas

Como pedras fora do chão

Como crianças órfãs

Homens agitados sem bússola onde repousem



Homens que são como fronteiras invadidas

Que são como caminhos barricados

Homens que querem passar pelos atalhos sufocados

Homens sulfatados por todos os destinos

Desempregados das suas vidas



Homens que são como a negação das estratégias

Que são como os esconderijos dos contrabandistas

Homens encarcerados abrindo-se com facas



Homens que são como danos irreparáveis

Homens que são sobreviventes vivos

Homens que são sítios desviados

Do lugar





Por Daniel Faria