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sábado, 6 de julho de 2013

Manuel de Freitas











BETTER OFF WITHOUT A WIFE






Esquece o melhor que puderes.
Há drogas e cinemas (por
enquanto). Não vais ser tu a aprisionar
os gestos felizes ou sem rumo
de que ainda sou capaz.
Não é nada de pessoal, garanto-te.

Bebi sempre de mais, acordo
tarde e as crianças estão longe de ser
o meu animal doméstico preferido.
Detesto horários, famílias e obrigações.
Até a partilha dos lençóis,
quando não é o amor a rasgá-los.

Os dias, porém, depressa
nos obrigam ao esterco das rotinas,
ao desejo inútil de procurar
a morte noutros braços.

Mas não. Não vou mudar de marca
de cigarros nem de pasta
dentífrica. Acordo logo que puder,
já sabes. Telefono-te rouco,
eventualmente triste, a precisar
de alguma liberdade para poder provar,
sozinho, que a liberdade não existe
mas dá bastante jeito.

E no entanto, depois disto tudo,
é altamente provável que eu te queira
amar. Como não sei melhor, como sei.





Por Manuel De Freitas
Arte por Van Gogh


terça-feira, 23 de outubro de 2012







ODE À NOITE (INTEIRA)




Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
- ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
- como eu - insónia, pesadelo, golpe baixo).

Existem, claro, raparigas louras um tanto
heterodoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita - o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.

Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
- ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.

O resto, a vida, fica para outra vez.




Por Manuel de Freitas

sexta-feira, 20 de julho de 2012






SOLANGE F, 2011





Lupita está a morrer desde sempre,
como todos nós. Mas tivemos de o saber hoje,
pela tua voz, poucas horas depois de Amy Winehouse
ter sucumbido ao peso da última canção.

A amizade, por vezes, tem a nitidez de uma lâmina;
ajuda-nos a perceber a noite de que somos feitos,
inscreve na pele exausta um sorriso desarmado.




Por Manuel De Freitas

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011


















SUPERMERCADO

para a Ana Paula Inácio





Tenho 35 anos e sei finalmente o que
quero. Basta olhar para o cesto
de compras: bolachas Leibniz, papel
higiénico Renova, leite com chocolate
Agros e, claro, uma garrafa de Famous
Grouse e pelo menos seis latas de Super Bock.
Discos já tenho que cheguem, por muito
que me desminta, e não viverei o suficiente
para ler todos os livros que me ocuparam a casa.

É um bocadinho banal, eu sei, mas é a minha
prestação diária enquanto consumidor, o meu fado
simples, enxuto, quase isento de lágrimas & remorsos.
Acordo para almoçar no Doce Lindo (ou Doce Belo, ainda
não houve rotina que me fizesse decorar o nome),
passo pelo supermercado, onde desejo ou nem por isso
todas as ternas e voláteis isildas deste mundo perfeito
– e volto a subir devagar as escadas de madeira rombas.

Só muitas horas depois, quando as luzes
me garantem que o bairro inteiro dorme,
escrevo poemas como este, versos em que
inutilmente vos digo que sou um homem feliz,
un roseau pensant, o mais belo cadáver de Lisboa.




Por Manuel de Freitas

domingo, 23 de outubro de 2011









NIGHTHAWKS AT THE DINNER




Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa-me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase-silêncio desabrigado e informe.


Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo-nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual - um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.


Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Sò nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagess de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.


O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.
Daqui a algumas horas esperar-nos-á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há-de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer-lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
- do lado mais esquivo da morte.


Mas bastam-me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.




Por Manuel de Freitas

Arte de Edward Hopper

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

















MOTET POUR LES TRÉPASSÉS









Este poema seria teu, Inês,

se não fosse de ninguém.

Ao chegarmos de Lisboa,

depois da paragem ritual

no Café Lisbela — onde tudo

se compra e tudo se perde —,

vimos uma cadeira de rodas

à venda, uma motorizada

ao lado, uma igreja vazia

da qual certamente gostariam

Andrei Tarkovsky, Tonino

Guerra ou Ana Teresa Pereira.




A poucos metros dali, o meu pai

morria, tentava penosamente resistir

a uma hemorragia cerebral. Mas

isso, claro, ninguém precisa de saber.

Apenas tu, poema, que vieste de comboio

confirmar dia após dia que o Tejo

está onde sempre esteve: triste, azul, parado.










Por Manuel de Freitas

sexta-feira, 23 de setembro de 2011


















SEPTEMBER SONG









Ouve, pelo começo de Setembro,

o clamor e a melancolia

deste mar atravessando a tua vida,

as páginas de um livro por abrir.




Ouve como se vê,

sobre as falésias deste mês abrupto,

alguém que te celebra

muito depois das palavras.




É tão difícil escrever um poema

que não fale da morte.








por Manuel de Freitas

imagem retirada do blog Cântaro Cantar de Anna Ehre

domingo, 28 de agosto de 2011















SALVE REGINA


para a Inês









«Isto já não tem melhoras» – acabou

por nos dizer Zulmira, referindo-se

à sua perna atropelada, à vida,

ao filho que há três anos lhe mataram,

embora se chamasse Epifânio.




E ficou assim, completamente sozinha,

deusa rude e resignada que veio

dos campos servir vinhos e cervejas

a uma «freguesia» que foi, em tempos,

tão imensa como é agora a sua solidão.




Uma quase mansa solidão, se virmos bem,

uma tristeza sem lágrimas, uma sabedoria

que se volta a confundir com o azul forte das paredes,

com o seu nome último e inquebrantável,

a «passar o tempo» entre os muros deste reino.




Tem agora a mesma idade que Maria,

abre só para ti uma garrafa de ginja

e assiste calmamente ao fim do mundo.







Por Manuel de Freitas

sábado, 25 de junho de 2011











PRAÇA DAS FLORES N.º 5




Tarde chuvosa de Verão a redimir
o luminoso e opressivo cansaço de Lisboa.
Abrigo-me numa taberna agora sombria
devido ao cinzento súbito do céu.

Aqui o tempo é uma ferida menor, vejo-o
pelas tardes sempre iguais destes homens
a jogar dominó, a zaragatear por vezes
acerca de importantes questões,
metafísicas inerentes a este jogo.

Que calma, esta do vencido
pagando cervejas aos vencedores,
o vinho tépido servido por alguém
que sem pressas nem angústias
envelhece por detrás do balcão.

É uma calma suave e perturbante, talvez
como a chuva lá fora, e encanta-me
esta singeleza profunda, a sedução de
exauridos olhares que a vinho sobrevivem.

Dir-se-ia ter nos meus ombros
toda a tristeza do mundo, ainda que
o mundo pouco valha ao pé desta taberna
na tarde molhada da cidade. E contudo
sinto-me estranho como em qualquer lugar,
espião não da casa do amor mas na da
morte quotidianamente vivida.

A melancolia pode às vezes ser isto,
um modo de sobreviver ao vazio, o comovido
jeito de pôr a mão sobre o mármore da mesa
e pedir outro martini, fresco
se faz favor.



Por Manuel de Freitas
Arte de Carlos Botelho

quinta-feira, 25 de novembro de 2010



ZULMIRA, AO AMANHECER






No urinol público lia-se UTILIZAÇÃO GRATUITA.

Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas

há neste mundozinho de horror?).

Mas o que desta manhã eu mais agradeço, Zulmira,

é a tua sopa, essa que tantas vezes

me salvou a vida, entre centenas de super bocks.



Não me inquietam os chulos, os assassinos

ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,

de uma má-raça inegável. Prefiro perder

com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes

ou do preço do azeite. Não tenho tempo

para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas.



Sei apenas que as poucas pessoas que amei

estavam por detrás de um balcão

onde o álcool ardia, muito devagar.

Os meus pobres anjos.

Também por isso gostava de te obrigar a esta taberna,

exílio cantante de todas as minhas antigas manhãs.



Por esta mãe desolada, pelo rumor sombrio

do vinho que nunca azedou nos meus lábios,

por certas inábeis palavras que sobre os barris

faleceram e te pertenciam somente.



Mas «até logo, Zulmira», bem sabes que do amor

ou do futebol nada poderei jamais dizer

ou sentir. Entre os teus braços largos deponho

em silêncio aquela negra noite do meu mal.

Por uma sopa encorpada, sobre destroços

imperecíveis, bocados de morte partidos.






Por Manuel de Freitas

domingo, 31 de outubro de 2010



BECHEROVKA






Norueguesa, alta, de um moreno

duvidoso que sorria muito.

Pedia-me insistentemente para não estar

triste como deveras estava.

E pagou-me, creio, o último copo,

antes de me perguntar “o que fazia”.



Escrever, sobre a morte, não é

exactamente uma profissão.

Mas foi a resposta que lhe dei,

enquanto um guardanapo qualquer

abreviava, só para ela, a minha “obra”.



Nunca saberei se percebeu a letra,

se comprou os livros, se chegou

a ouvir o que em péssimo francês

lhe tentei dizer nessa noite, a mais perdida.



Os versos são quase sempre isto: um modo

inaceitável de dizer que não tocámos o corpo

que esteve, por uma vez, tão próximo

de nós – e que nem um nome breve nos deixou.






Por Manuel de Freitas

sábado, 18 de setembro de 2010


PRESSA DE VIVER


( para o Zé, que nunca lerá este poema)






Negro , trinta e dois anos,

dealer. Pensava que a guerra

no Kosovo tinha por motivo único

a resistência à conversão em euros

- e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura

razão. Noutra noite, vi-me obrigado

a explicar-lhe o melhor que pude

o que era o FMI – que ele decerto

interpretou como um partido de ‘tugas

vagamente hermético. De facto, é outra

a sua economia: contos de xamon, pastilhas,

piropos de esquina, os dois ou três filhos

de que apenas bêbedo se lembra.



Mas não é bem disso que eu hoje

queria falar. Passámos a noite

lado a lado, no mesmo balcão.

Demorei algum tempo a cumprimentá-lo

- “tá-se?”. Pediu logo grandes, imensas

desculpas por não me ter visto.

Que era “pressa de viver”, garantiu-me,

aquilo que nos torna tão cegos

às evidências, ao rosto desse próximo

que só por bíblico acaso amamos

- quando o ódio, mais discreto,

dá nome e sentido às ruas.



Fingi acreditar, procurei não

desmentir o seu olhar verde

vindo de outro qualquer planeta.

Seria difícil explicar-lhe àquela hora

a compulsiva demora de morrer

que me faz sair de casa e procurar,

entre ninguém, a pior das companhias: eu.



Acabou por levar para a rua

uma imperial de plástico, lembrado

talvez dos possíveis clientes

a quem ajudará a esquecer um emprego,

o desamor, o calor sinistro deste Verão.

Na verdade, pouco mais haveria

a dizer sobre este corpo brando que

há vários anos se encosta às minhas noites.

Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos

- e protege-se, o melhor que pode,

da rusga sem objecto a que chamamos vida.






Por Manuel de Freitas
Música e interpretação de Velvet Underground

terça-feira, 7 de setembro de 2010


1988, CHET BAKER





Prometeu que tocaria My

Funny Valentine como nunca

o fizera. E foi, também na voz,

verdade (a verdade é sempre

uma coisa muito triste;

faltavam-lhe duas semanas para morrer).



Comprei o disco quase vinte anos

depois, e só por difícil acaso

o fiz naquela cidade, com a

mesma ou nenhuma vontade de morrer,

agora que volta a dizer "stay

little valentine" e a chuva torna

as bicicletas uma metáfora evitável,

contrária à ferrugem do que sinto.



Sim, é isso: ninguém nos espera

- e nem todos sabemos voar, sofrer,

cantar assim o desconforto.

Nada deveria ser tão triste,

até porque nada deveria ser.



Mas não me roubem, por favor, esta canção.





Por Manuel de Freitas
Interpretação musical de Chet Baker

terça-feira, 15 de junho de 2010



JERSEY GIRL

(com o Visconde, no Mezcal)





O amor costuma responder

por acordes simples

- um estertor de pássaro caído.

Depois, na minha vida, ficou

só uma cicatriz discreta - e um ou

outro pesadelo com a tua marca

de electrodomésticos preferida.

Coisas de que nem fica bem falar.



Mas ao quarto whisky, entre

rostos que não conheço,

sinto-me feliz. E percebo,

arduamente, que nunca precisei de ti.



Quem se mataria por tão pouco?





Por Manuel de Freitas
Música e interpreteção de Tom Waits

segunda-feira, 17 de maio de 2010



1952-2001





Sabes, Miguel? Tu não foste um morto

rentável, desses sobre quem muitos

depois escrevem prantos rimados

e apressados encómios. Não tiveste amigos

desses. Ainda bem. Faltou-te em obra

(escrita e publicada) o que ao fim da noite

te sobrava de vida – coisa tão pouco afim

de carpideiros que ignoram com devoção

a morte de que não morrem.



Não faz mal. Eu lembro-me:

dos copos quase adolescentes que trazias

nos bolsos à saída de bares na moda

ou daquele “poema” que gostarias de ter escrito

num computador portátil, só porque

um poeta – sim, o Fernando – te quis honrar

em vida o nome. O Zé estava lá, sorria,

e concordará talvez que esses gestos sem futuro

têm mais poesia do que tantas e prefaciadas

obras reunidas que fazem das livrarias

bordéis de pouca alma, hipóteses de terror.



Gente que escreve bem, admito,

merceeiros do sublime que ocasionalmente

te apertaram a mão nos engalanados

salões da cultura. Boa gente…

Eu, mais de fora, pouco tenho a dizer.

Eram antes roulottes, discotecas tristes,

o sorriso de álcool com que a manhã tomba

sobre nós e se despede para sempre.



O teu carro era veloz, tornava pequena

e sórdida a vinte e quatro de Julho.

demasiado veloz, o teu carro, a notícia

sem rasura que chegou de noite

ao silêncio dos corações disponíveis.



Não faz mal. São coisas que acontecem

a “esses gajos da noite”. Pois, sabemos muito

bem: a morte, essa certeza improvável.

Bebemos, claro, e fingimos que o nome

dos mortos se apaga na euforia

baça com que os dias se sucedem.

Também temos, por enquanto, uma razão

precária e urgente para fingirmos e ficarmos.

O que é muito humano – e um pouco desprezível.



Só nunca saberei o que me querias dizer

sobre Blanchot, l’entretien (in)fini. Não esperei

que regressasses do carro, com o livro anotado,

e o último copo parece-me agora

uma despedida incompleta, um rasto de cinza

que tinge de mágoa o balcão a que me encosto.



Deus, Miguel, é esse estafermo iletrado

a quem nunca dedicaste um verso. Fizeste bem.





Por Manuel de Freitas

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010



LARGO DO PENEIREIRO



[para a Inês]





Tudo se perde, claro. Mas lembrarei

seguramente os olhos vermelhos

de um gato de Alfama e todos os poemas

que não escrevi contra mim próprio,

naquele pátio aberto a ciladas e dissipações.



Vinho tinto, charros, paixões escarnecidas

num diálogo de guitarras desatentas.

Tu fazias vinte e quatro anos, é certo,

e dizias com maior razão que aqueles olhos na noite

pertenciam a uma gata. Perdida, achada luz,



quando se percebe o desabrigo, a difícil

pertença a esta espécie de gente,

comunidade de loucos deserdados a que

o empregado, de bigode, chamou

«o pessoal da bebedeira». Porque isto

que não passa, sabemo-lo bem, é a vida



ou a morte, uma perda que dura

e que não se apaga assim, sob um cerco

de navalhas ou de inúteis, vigorosos

sentimentos. Por exemplo o amor,

essa estranha mistura de angústia, desejo

e novamente angústia. O não apenas sexo

de adormecer em braços reais

que afastem para sempre o mundo.



Mas acabo por subir cambaleante as escadas

à hora em que o vizinho de baixo

se prepara para ser uma pessoa altamente

honrada, no talho de baixo

que lhe dá sentido aos dias.



E não é dor, nem prazer, nem

ressentimento o que um corpo

sente, às seis da manhã, prostrado

na lama involuntária destes versos.

Antes um vazio imperfeito, uma

ferida sem lugar que nenhuns lábios,

sequer os teus, saberiam calar.



Fizeste, já disse, vinte e quatro anos.

Não esperes grande coisa da felicidade.





Por Manuel de Freitas
Fotografia de Robert Parkeharrison