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domingo, 26 de fevereiro de 2012








O PROBLEMA DE SER NORTE 





Era um verso com árvores à volta.
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que

um
raro
silêncio ainda

me interrompa?




Por Filipa Leal

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012











DEPOIS ESVAZIOU-SE COM CUIDADO





Não dormia sem o escuro absoluto.
Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.
No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.





Por Filipa Leal

sábado, 29 de maio de 2010



ODE LOUCA





Todos os homens têm o seu rio.

Lamentam-no sentados no interior das casas

de interior e como o poeta que escreve a lápis

apagam a memória com a sua água.

Os rios abandonam os homens que envelhecem

longe da infância, e eles choram

o reflexo absurdo na distância.

Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,

os poetas nas palavras repetidas

que buscam uma ode que lhes diga

a textura. Todos procuram o mesmo:

um lugar de água mais limpa

ou um espelho que não lhes negue

a hipótese do reflexo.

O rio sofre mais do que o homem,

o poeta,

porque dele se espera que nos devolva

a imagem de tudo, menos de si próprio.

Todos os rios têm o seu narciso,

mas poucos, muito poucos,

o simples reflexo das suas águas.





Por Filipa Leal
Fotografia de Robert Parkeharrison

terça-feira, 30 de março de 2010



SE AO MENOS A MORTE





Ela morria tantas vezes

em tiroteios à porta de casa

que já não sabia morrer para sempre

assim

de uma vez só.

Se ao menos se marcasse um dia

para a morte, uma hora certa

como no dentista

que apesar de tudo

nos faz esperar

onde apesar de tudo

não sabemos quando será a nossa vez.

Se ao menos a morte tivesse revistas

e gente na sala de espera

não estaríamos tão sós

tão vivos nessa ideia final

nesse desconforto.

Poríamos o nome na lista

quando estivéssemos prontos

sabendo que seria fácil desmarcar

marcar para outro dia

ou simplesmente

não comparecer.

Depois, ficaríamos com a dor,

com o terror

de passar sequer naquela rua

como ela à porta de casa.

Ela que morria tantas vezes

porque morria de medo de morrer.





Por Filipa Leal

quarta-feira, 17 de março de 2010



NOS DIAS TRISTES NÃO SE FALA DE AVES





Nos dias tristes não se fala de aves.

Liga-se aos amigos e eles não estão

e depois pede-se lume na rua

como quem pede um coração

novinho em folha.



Nos dias tristes é Inverno

e anda-se ao frio de cigarro na mão

a queimar o vento e diz-se

- bom dia!

às pessoas que passam

depois de já terem passado

e de não termos reparado nisso.



Nos dias tristes fala-se sozinho

e há sempre uma ave que pousa

no cimo das coisas

em vez de nos pousar no coração

e não fala connosco.





Por Filipa Leal