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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012











COISAS DE PARTIR




Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti:
olhos semi-cerrados, em precauções de tempo,
a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.

Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:
tudo coisas de ti, mas coisas de partir...
E o meu alarme nasce: e se morreste aí,
no meio de chão sem texto que é ausente de ti?

E se já não respiras? Se eu não te vejo mais
por te querer empurrar, lírica de emoção?
E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?
E se tu não estiveres onde o poema está?

Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoção e juras.
E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.




Por Ana Luísa Amaral
Arte de Edward Hopper 

domingo, 3 de julho de 2011
















PASSOS DE VELUDO (título póstumo)


Do not go gently into that good night
Dylan Thomas







Não permitas que a noite se desabe,

habituada e negra. Antes confunde

as regras e as sombras que lhe obedecem,

cegas. Não descanses olhar sobre

o vazio, nem no silêncio seduzindo

em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,

ou tampas de barulho avesso à almofada.

Grita, blasfema, geme em timbre agudo,

mas não deixes a lua, com passos de veludo

entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.

Nem lhe ofereças um lar de cabeceira

e penumbra doente. Argumenta-a de frente

e à seda roçagante dos seus passos;

numa filosofia de algibeira,

resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga

a sua máscara ausente de suor. Não entres

docemente nessa noite. Não entres

tão depressa.







Por Ana Luísa Amaral