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sábado, 23 de julho de 2011



















SE PARTIRES, NÃO ME ABRACES










Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha com viagens na pele salgada das ondas.




Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –




o teu perfume preso á minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto

espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.









Por Maria do Rosário Pedreira

sábado, 25 de setembro de 2010







Não partas já. Fica até onde a noite se dobra

para o lado da cama e o silêncio recorta

as margens do tempo. É aí que os livros

começam devagar e as cores nos cegam

e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas



quando a manhã se ferir nos espelhos do quarto

em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras

rasgar as janelas como uma ave desabrida.

Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,

como a gastar os dedos na derradeira página.



E então, sim, parte, para que outra história se

invente mais tarde, quando os pássaros gritarem

à primeira lua e os gatos se deitarem sobre

o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.





Por Maria do Rosário Pedreira
Arte de Samuel van Hoogstraten

quarta-feira, 30 de junho de 2010







Na tua boca cantou subitamente uma voz.

E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,

o rio que outrora bordava o campo emudeceu

com as suas pedras lisas. Então foi possível



ouvir o vento soprar nas asas das borboletas

e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros

e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.



Sobre uma colina quente passou uma nuvem

e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte –

por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;



e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão

escorregou pala inclinação do sol e veio contar

as sombras do meu decote.



São assim as mais pequenas histórias do mundo.





Por Maria do Rosário Pedreira
Fotografia de Robert Parkeharrison

segunda-feira, 3 de maio de 2010



FADO





Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.

Estou assustada à espera que regresses: as ondas já

engoliram a praia mais pequena e entornaram algas

nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que

as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas

que perseguiram os pombos e os morderam.



A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno

à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes

para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda

que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo

de ervas com canela; e há compota de ameixas

e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu



estou assustada. A lua está apenas por metade,

a terra treme. E eu tremo com medo que não voltes.





Por Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 12 de março de 2010



Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.

Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis

que alagámos de beijos quando eram outras horas

nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse

de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa

ser apenas mais um poema – como esses que eu escrevia

assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu

tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa



que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,

trazem entre as penas a saudade de um verão carregado

de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas

brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores

que perfurem a noite – porque a morte deve ser clara

como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre

me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes

a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me



a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem

toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me

que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos

como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois

os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar

para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando

na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas

que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,

ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.





Por Maria do Rosário Pedreira
Imagem de Casablanca, de Michael Curtiz

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010



Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais

este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.

Fecha os olhos agora e sossega – o pior já passou

há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão

desvia os passos do medo. Dorme, meu amor –



a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste

e pode levantar-se como um pássaro assim que

adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra

não hão-de derrubar-me – eu já morri muitas vezes

e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos



agora e sossega – a porta está trancada; e os fantasmas

da casa que o jardim devorou andam perdidos

nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,



meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e

nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já

olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,

de guarda aos pesadelos – a noite é um poema

que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.





Por Maria do Rosário Pedreira
Quadro de Marc Chagall