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sábado, 8 de janeiro de 2011



OS RIOS ATÓNITOS


(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)






Há palavras a dormir sobre o seu largo

assombro

Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo

é como se houvesse pronunciado os próprios rios



Ou seja, as águas

pesadas de lama, os peixes todos e os perigos

inumeráveis

O musgo das margens, o escuro

mistério em movimento.



Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre

Lento

em tua boca.



Dizes Quanza

e o ar se preenche de perfumes perplexos.



E dizes Congo

e onde o dizes há grandes aves

e súbitos sons redondos e convexos.



E dizes Quanza, ou dizes Congo

e sempre que o dizes acorda em torno

um turbilhão de águas:

a vida, em seu inteiro e infinito assombro.






Por José Eduardo Agualusa

quarta-feira, 20 de outubro de 2010



O HOMEM QUE VINHA AO ENTARDECER


(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)






Falava com devagar, ajeitando as

palavras. Falava com cuidado,

houvesse lume entre as palavras.



Chegava ao entardecer, os sapatos

cheios de terra vermelha e do perfume

dos matos.



Cumpria rigorosamente os rituais.



Batia primeiro as palmas (junto

ao peito)

Depois falava.

Dos bois, das lavras, das coisas

simples do seu dia-a-dia. E todavia

era tal o mistério das tardes quando

assim falava

que doía.






Por José Eduardo Agualusa