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sexta-feira, 6 de abril de 2018

António Amaral Tavares


(para Carmen Silvia Presotto)



A matemática da morte traz
dias absurdos onde as horas
se afundam no grito rouco das ervas.

Talvez por isso esta escrita ferida
sobre ti que um dia viraste
as costas ao seu halo medonho.

Claramente era um sonho teu
reconstruir a sombra da tua casa para todos
um vislumbre delirante
mesmo que a cada dia
se deteriorasse o reboco das tuas paredes
assim dizia eu.

As casas são mistérios para os outros
e cometemos o erro de atribuir
palavras à própria ignorância.

E só agora compreendi
pela pedra da infinitude do teu silêncio
as tuas mãos louvadas
pelas manhãs limpas.

Cego
não vi que partiste os espelhos mais impuros
esse caminho fulgurante para o amor.

Eu sujo sem luz
e sem piedade.

domingo, 15 de julho de 2012







CHET BAKER




Amarga coincidência essa de te fotografarem
sentado no peitoril de uma janela tocando
trompete e o modo como morreste. A toada

limpa e morna que se ouvisse se tocavas para alguém
para a cidade ou apenas para a noite são perguntas
com tanto de inútil como de impossível de responder.

Permanece o forte tempero de ironia de que
o jazz é composto esse sorriso à dor uma forma
de unir tudo o que na vida é fuga.
Agora só essa toada de bicho nocturno confirma isso

a ironia a fotografia a forma como morreste e quem sabe
um engano que levasse o tempo de uma queda
de um corpo da janela ao chão da rua.





Por António Amaral Tavares

sábado, 4 de fevereiro de 2012






O MOVER DE UM LEOPARDO




O olhar é este. Escorre o mel
sobre a navalha do cansaço
e estão húmidas as acácias pela chuva breve.

Breve olhar quase sem sombras é este isto é de
como vem do lado das brisas frias da noite
de modo tão solitário como o nome do medo

e então tudo o que é gesto do seu existir cai
levemente sobre cada seu mover como se fosse
vontade única resgatar uma vida que sabe não voltará.

Só a morte tem tanto tempo pela frente.




Por António Amaral Tavares

domingo, 18 de julho de 2010



RETRATO DE UMA NOVA IORQUINA Nº 10


(Tod Papageorge. Quinta Avenida. 1970)





São quatro as mulheres



no desencontro dos olhares é esmagante

o embate em si mesmas



parecem escutar as areias secas de um deserto



lá atrás afastada

distinguindo-se pela distância a quarta

mulher encontra o seu rio



um homem



e despeja com um beijo

toda a água que guardou.





Por António Amaral Tavares
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domingo, 11 de julho de 2010



RETRATO DE UMA NOVA IORQUINA Nº 9


(Garry Winogrand. Lily St. Cyr. 1954)





Há um lado oculto

nos retratos de perfil



este olhar fecha-se sobre o ruído

a boca cheia de palavras



as sobrancelhas desenham

uma perfeição arrombada



e a testa alta curvada para trás

graciosa

lembra muros de vidro anteriores à cidade

declives para que a luz corresse



mais rápido que a sombra.





Por António Amaral Tavares
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domingo, 4 de julho de 2010





RETRATO DE UMA NOVA IORQUINA Nº 8


( Walker Evans. Retrato no metropolitano. 1938-41)





Na ausência pelo hábito

igual nos gestos de todos

os dias trouxe consigo a melhor roupa



a expressão é levantada

mas o olhar traduz em tristeza a passagem de uma nuvem



é um retrato do silêncio



na sua nobreza o espírito

que procura reconhece os lugares

onde deus se alimenta.





Por António Amaral Tavares
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domingo, 27 de junho de 2010



RETRATO DE UMA NOVA IORQUINA Nº 7


(Dorothea Lange. Herald Square, Nova Iorque. 1952)





A roupa é pobre



o cabelo segura-o com o gancho

com que todos os dias prende os sonhos



o olhar atravessa

a rua como se atravessasse um rio



esse olhar não se vê

mas encerra nele uma distância profunda.





Por António Amaral Tavares
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domingo, 20 de junho de 2010



RETRATO DE UMA NOVA IORQUINA Nº 6


(Helen Levitt. Nova Iorque. 1982)





São dois tempos que se encontram



ela debruça-se sobre a janela de um táxi

onde se senta mas não se vê o país

esquecido do motorista



a sua roupa

o chapéu o casaco a saia

conserva todos os anos desde que

há muito se perdeu da sua passagem



traz na mão um grande embrulho

atado em cordel

onde guarda todos os anos que não quis

contar para a frente.





Por António Amaral Tavares
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domingo, 13 de junho de 2010



RETRATO DE UMA NOVA IORQUINA Nº 5


(Cindy Sherman. Sem título, fotograma nº 21. 1978)





Vive por baixo da luz do pequeno chapéu que usa

não conhece bem a cidade

a verticalidade dos edifícios sobre o sangue

a sujidade



viaja de avião de um ponto para o outro

entre as vozes que a habitam.






Por António Amaral Tavares
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domingo, 6 de junho de 2010



RETRATO DE UMA NOVA IORQUINA Nº 4


(Paula Horn Kotis. Num bar da Village. Década de 1950)





O seu rosto esconde-se pelos

braços caídos no balcão

o tronco parece torcido como se

contornasse o buraco da noite



retrata-se a solidão

e de alguma maneira se lembra a quem olha

quantos milhões habitam a cidade



aqui a sombra procura a luz do seu significado

e sob o arranjo da idade nos cabelos



quer morrer só.





Por António Amaral Tavares
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domingo, 30 de maio de 2010



RETRATO DE UMA NOVA IORQUINA Nº 3


(Dan Weiner. Noite de Ano Novo, Times Square. 1951)





Da roupa sempre igual e áspera

de todos os dias

como se vestisse da pedra unicamente a poeira

o olhar encontrou o seu navio

(a boca esconde-se por trás de um cornetim festivo que sopra)



um pouco recuado

quase oculto na multidão

o vulto de um marinheiro veste

os passos de um anjo.





Por António Amaral Tavares
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domingo, 23 de maio de 2010



RETRATO DE UMA NOVA IORQUINA Nº 2


(Walker Evans. Rapariga em Fulton Street, Nova Iorque. 1929)





Parece actriz

ou preferir um lugar onde a verdade

encarne o significado das coisas



por detrás do frio

o olhar ainda reflecte vagamente as colinas e a forma

como as nuvens se transformavam

com o vento da tarde da terra onde cresceu



e furioso não o quer lembrar



a boca fechada conhece bem a cidade

e só fala no calor das casas.





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domingo, 16 de maio de 2010



RETRATO DE UMA NOVA IORQUINA Nº 1


(Louis Faurer. Sem título. 1948)





O casaco sintético parece ter estampada

a pele de um animal que ela não sabe

mas talvez não exista dando-lhe de todo

uma aparência de pássaro frágil



a mão rude as unhas pintadas

segura um cigarro que chupa

entre fumo e cinza



as feições são magras abandonadas

à geometria da cidade



parece olhar uma montra –

o cabelo claro

apanhado à frente e solto atrás

guarda todo o erro dos sonhos.





Por António Amaral Tavares
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domingo, 9 de maio de 2010



OS PASSOS


(Lisette Model. Times Square. 1940)






Nada se sabe dos passos em redor



ocupam espaços que defendem

os silêncios desta cidade.





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domingo, 2 de maio de 2010



AS PONTES DE NOVA IORQUE


(Berenice Abbott. Pike and Henry Streets, Lower East Side. 1936)





O olhar encontra de uma vez só

uma porção ínfima da cidade que se escolheu



o rosto rígido dos edifícios sobre a rua



na continuidade da vista e da rua

uma ponte surge envolta na neblina do dia

em que se chegou



e como uma sombra branca

lembra a ideia vaga de uma partida



é um cavalo sem dono a partida

não se morre duas vezes na mesma cidade.





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domingo, 25 de abril de 2010



AS ESCADAS DE INCÊNDIO

(Autor não identificado. Escadas de incêndio em ferro. Data desconhecida)




Há algo de indiscreto nesta fotografia



no brando sentar da tarde

um esgar de medo se descobre



é a interrupção de um muro



assim tão intestinal e exposto

neste rosto irremediável da cidade

encontrou-se ao que parece

a sua dimensão interior



aquela que mais fala aos seus habitantes

o belo que guarda em si



acontece muito nesta cidade de todos



começou no rosto a palavra

mas não foi morrer aí.





Por António Amaral Tavares
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domingo, 18 de abril de 2010



O HOMICÍDIO


( Weegee. Assassinato em Hell’s Kitchen. 1944)





É a reportagem de uma morte



um homem jaz no passeio que outrora

o viu caminhar



na construção vã do seu orgulho

a cidade reclama vítimas



é mais funda a solidão nesta morte pública



o rosto no chão esmaga-se

por não poder cair mais



a pistola caída é um ponto final no abandono.






Por António Amaral Tavares
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domingo, 11 de abril de 2010



O EDIFÍCIO


(Charles Sheeler. Secretariado das Nações Unidas. 1951)







É vertical e monolítico



de lado as fachadas levantam-se cegas

como um espírito crescente



e paralelo



no alçado frontal a igualdade rigorosa

das janelas alinha-se no mesmo plano



irmão no espaço da cidade

está muito longe do mundo



este edifício



todos o sabemos.





Por António Amaral Tavares
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domingo, 4 de abril de 2010



OS BAILARINOS


(Irving Penn. Companhia de Ballet, Nova Iorque. 1947)





Juntam-se solidões

neste retrato de conjunto



é uma cidade escondida

e lembram anjos longe dos olhares



os seus pés não tocam o solo

e os olhos não revelam

as riquezas raras que possuem



ocultam na rua o branco das asas



só os vê quem acredita.





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domingo, 28 de março de 2010



O EDIFÍCIO MAIS ALTO DO MUNDO


(Lewis W. Hine. Soldadores na construção do edifício Empire State. 1930)





O quadro é o da ambição



um pouco afastado o edifício Chrysler assiste vertical

à construção da sua derrota



a cidade pasma-se em toda a sua extensão



e a neblina que paira sobre ela

lembra a da terra na convulsão das suas origens.





Por António Amaral Tavares