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sábado, 13 de outubro de 2012










PREOCUPAÇÕES NATURAIS




Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os nossos treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda dos temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.





Por José Miguel Silva

segunda-feira, 15 de agosto de 2011















NO PRONTO-A-VESTIR









Não precisava de outro par de calças

mas a luz, o suborno dos sorrisos, a ternura

de cetim obrigaram-me a entrar.

Depois, na pátria dos Lotófagos,

a festa carmesim, o vermelho-coração,

o gosto a paraíso nos decotes de veludo

– entre ganga e algodão dividi o meu pesar.




Tempos houve em que das torres das igrejas

se avistavam os limites da cidade (ou era

da verdade?). Mas foram, como sabes, encolhendo.

Pouco a pouco fomos vendo, impossíveis

de limpar, as nódoas nos tecidos mais amados,

o nastro dos afectos desfiado pelo vento.

Desbotaram os caminhos, alargaram os casacos

e a sombra dos sobreiros, quem a viu e quem a vê.




Nada disso, porém – garantiram-me na loja –

poderá acontecer com as minhas calças novas.








Por José Miguel Silva