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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Anna Ehre











BOLETIM SUPERLATIVO SOBRE O ESTADO DE CHICO APÓS HELENA





inspira cuidados, ainda que se declare feliz
exames mostram risos largos, medindo semanas
além de uma infestação generalizada de sol  

(como pensar se não for à sombra da dúvida?)

após cair de quatro e chamar girassol de bem-me-quer,
tem a certeza de um raio e nenhum sinal de noite

(como lembrar finais submerso em futuros?)

corre risco de vida em status de alacridade
por negligência ao aviso: “cuidado: profundidade ignorada”

amor é abissal oceano
impossível para os que se afogam em baldes 




arte por Kumi Yamashita 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Ferreira Gullar





TRADUZIR-SE





Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?



quarta-feira, 16 de julho de 2014

Paulo Leminski






um poema
que não se entende
é digno de nota

a dignidade suprema
de um navio
perdendo a rota



Arte de Turner

http://meianoitetododia.blogspot.pt/

quinta-feira, 22 de maio de 2014

ÁRVORE DA ESPERANÇA, MANTENHA-SE FIRME!




Este não é um poema sobre trigo

Este não é um poema sobre um útero transpassado
não é um poema sobre fraturas
nem sobre a dor que desenha cores impossíveis

Este não é um poema sobre Frida Kahlo
Este não é um poema até o enterrarmos
até cada um dos nãos, sementes mortas, germinar um pássaro

Este é um poema sobre pão




Por Anna Ehre

Arte por Edmundo Simas

quarta-feira, 2 de abril de 2014







[Morro do que há no mundo]





Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.


por Cecília Meireles

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014














SELFIE



diariamente
pessoas sentam-se em uma bacia sanitária
(outras não têm mais do que o chão)
onde despejam dejetos de um corpo precário
resíduos do que foi no dia anterior a sálvia, a carne, a pimenta 

o que antes era aroma sobre uma mesa
agora desprende odores da acidez azeda e fétida
que serão levados pela água de colônia e hidratante
(enquanto outros não reconhecem sabão)

falta água
falta privada
mas sobram, em aparelhos móveis,
máquinas fotográficas
que registram os lábios vermelhos da garota
e os dentes brancos do presidente
testemunhando um ditado antigo:
a ausência nos olhos dos outros não arde

o que falta não fede, nem cheira
no rosto que se repete, repete, repete, repete,
como cada gota desperdiçada de uma torneira




Por Anna Ehre
Mais poesia sua em http://cantarocantar.tumblr.com/


sábado, 25 de janeiro de 2014








SIDARTA





Um cavalo
branco
pode ser
o silêncio
absoluto,
se assim quer o deus
que brinca
entre os cascos.

Toda estrela
que brilha e pulsa
nasce
de dentro de uma árvore.





Por Micheliny Verunschk

Fotografia de Amar Dev

segunda-feira, 15 de julho de 2013







GOPALA




O céu sobre o mar
cintila
azul
sobre
azul: onda dança nuvem que passa.

Na pena de um pavão
uma gota
de orvalho
contém o universo inteiro.




Por  Micheliny Verunschk

Fotografia de Erik Reis

sexta-feira, 12 de julho de 2013










pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando





Por Paulo Leminski

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013










CHAPEUZINHO VERMELHO





O lobo é o cheiro
(da noite)
O lobo é o passo
(do gato)
O lobo são os olhos
(do touro)
É a lua,
O uivo da faca.

O lobo é a dor
(do relógio)
O lobo é o caminho
(mais curto)
O lobo é a cesta de doces
O lobo é o talho
É o susto.

O lobo é o pelo
(do lobo)
O lobo é a pele
(macia)
O lobo é a língua
(pingando)
É o baile e a máscara:

O lobo é menina.




Por Micheliny Verunschk

quarta-feira, 7 de novembro de 2012








UM BOM POEMA




um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto



Por Paulo Leminski

terça-feira, 6 de novembro de 2012








A SAGA




O doutor disse:
viver é negócio muito perigoso,
a gente morre para provar que viveu.

Ela respirou com os pés no meio-fio
e as mãos contra o sol
cega de ruas e muros.
Era humana
sólida e precária.

Ele, incorpóreo e eterno,
regurgitou o temor dizendo:
perigoso é não viveres
antes que a morte
te deixe encantada.

Ele, o tempo.



Por Anna Ehre

sábado, 27 de outubro de 2012










Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.





Por Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 21 de agosto de 2012











O ANJO




Perdeu-se de seu bando numa revoada vespertina. Então, perambulou ocioso por campos, revivendo carcaças, desviando enchentes dos vilarejos, curando a peste do gado e a febre da lavoura, até chegar à cidade. Entretanto, só as crianças ainda sem batismo o viam. E ele, em dialeto de bicho de pelúcia, lhes falava de coisas que ainda não tinham nome. Passou a habitar empoleirado no ombro de uma menina cega. Quando ninguém estava olhando, o anjo interrompia sua cegueira, e a menininha, disfarçadamente deslumbrada, podia ver até através das pessoas.






Por Wilson Nanini
Arte de Duy Huynh

domingo, 5 de agosto de 2012









TRÓIA




 Toda saudade
repousa nas palavras,
tem cheiro de pinho
e ossos muito brancos.
Toda saudade:
velas arreadas
dos mastros dos batéis,
última visão da chama apagando,
canção de helenas nuas
perdida nos lábios de Ílion.
Em tudo,
o teu nome de pedra,
Saudade,
cadela morta.




Por Micheliny Verunschk

domingo, 29 de julho de 2012










ESPIRAL





A noite é um morcego manso
sobrevoando uma cidade quase adormecida,
tomando cada rua, cada casa,

como um cheiro adocicado de fruta
quase apodrecida que penetrasse uma casa,
ganhasse cada quarto, cada sala,

como cheiro morno de coisa morta
ainda há pouco se espalhando
por uma cidade quase entorpecida,

como uma noite que descesse sobre casas
mortas, como uma peste,
como se nunca houvesse havido dia.

A noite é um morcego morto.






Por Paulo Henriques Britto
Fotografia de Maria Avelino

domingo, 17 de junho de 2012








A LA CARTE




I
Para seduzir a carne
Jesuína tomava ervas, folhas, azeites
e conversava com a chama como se fosse gente
Quando no inicio da tarde
todos à mesa respiravam a ponta dos dedos
ela salpicava amor pelos olhos
O tempero

II
Para se desfazer dos cortes
entre esperas e descaminhos,
Cecília jejuava relógios alimentando-se de certezas
Havia outro sabor depois da faca
A sobremesa



Por Anna  Ehre
Mais poesia sua em http://cantarocantar.tumblr.com/
Arte de Ticiano

sábado, 28 de abril de 2012










QUANDO EU TIVER SETENTA ANOS






quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.





Por Paulo Leminski

quarta-feira, 25 de abril de 2012












mijo
(um poema urgente)





1.

uma mulher não deve mijar
deve fazer xixi

2.

uma mulher faz xixi
não mija
mas em banheiros públicos
a mulher acaba que mija

3.

uma mulher faz xixi
porque é mais sexy
mas quando é incontinente
a questão se torna irrelevante

4.

conheço uma mulher
que mijava
mas dizia por aí
que fazia xixi

5.

mijei no balde
foi libertador
mijei no balde
dentro do elevador
mijei com vontade
sim senhor
hoje
sou outra mulher

6.

xixi, mijo, urina: como queira chamar
se tiver nojo e a água acabar
se quiser viver vai ter que tomar
mijo. se quiser pode dizer
xixi ou guaraná

mas continua sendo mijo

7.

nisso tudo eu pensava
a caminho do banheiro
após ter lido uma frase
do marcelo rubens paiva
será que ele mija, o marcelo?
com certeza deve mijar
mirando as estrelas, será?
fazendo desenhos no ar?

(quem se importa?
eu não me importo)


8.

outra questão a se especular
quando acontece dormindo
é xixi ou mijo?
dependerá do fluxo?
da quantidade?
qual o critério?
outra coisa que direi
como aviso ou comentário:
mija-se desperto ou dormindo
peidar só se pode acordado





Por Angélica Freitas