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quarta-feira, 24 de outubro de 2012








A ÁRVORE QUE NINGUÉM VISITA





Então eu fui. Uma tarde subi
Aquela colina íngreme e rochosa,
Parando para descansar e admirar uma flor silvestre
E a vista do lago
No vale lá em baixo.

Teria gostado de uma cabra por companhia.
Uma preta e branca, com um sino
Para ir à frente, pastar um pouco e romper
O silêncio quando este retoma sua ascensão
Até onde uma árvore escura e silenciosa está

Esperando todos estes anos que alguém
Se sente à sua sombra, em calma consigo mesmo.
Até o vento está sempre a inventar
Joguinhos para as suas folhas brincarem,
Sem pressa agora de perturbar a paz.








Por Charles Simic

terça-feira, 9 de agosto de 2011





















FEIRA


Para Hayden Carruth










Se não viste o cão de seis patas,

Não tem importância.

Nós vimos, e ele praticamente só ficava deitado a um canto.

Quanto às pernas extra




As pessoas habituavam-se rapidamente àquilo

E pensavam noutras coisas.

Como, que noite fria e escura

Para se andar na feira.




Depois o dono atirou um pau

E o cão foi apanhá-lo

Nas quatro patas, as outras duas a abanar atrás,

O que fez uma rapariga dar um guincho de riso.




Estava bêbeda tal como o homem

Que teimava em beijar-lhe o pescoço.

O cão apanhou o pau e olhou para nós.

E o espectáculo era aquilo.







Por Charles Simic
Tradução de António Ladeira
Arte de Ricardo Cruzeiro

terça-feira, 26 de outubro de 2010



MECÂNICA POPULAR






Os enormes problemas de engenharia

Que encontrarás ao tentar crucificar-te

Sem ajudantes, roldanas, engrenagens,

E outros dispositivos mecânicos inteligentes –



Numa sala pequena, clara e despida

Apenas uma cadeira de pernas frouxas

Para alcançar a altura do tecto –

Um só sapato para martelar os pregos,



Já p’ra não falar de estares nu para a ocasião –

De modo que cada músculo costal se exiba,

A tua mão esquerda já cravada,

Apenas a direita para limpar o suor



E ajudar-te a alcançar a beata

Do cinzeiro a transbordar,

Que não conseguirás acender –

E a noite chegando, a longa noite zumbindo.






Por Charles Simic
Tradução de João Luís Barreto Guimarães
Fotografia de Robert Parkeharrison

sexta-feira, 17 de setembro de 2010



DEZEMBRO





Neva

e mesmo assim os desamparados

continuam

a transportar cartazes em sanduíche -



um proclamando

o fim do mundo

o outro

os preços de um barbeiro local.





Por Charles Simic