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sexta-feira, 9 de março de 2012










O. F. (1967-2007)




 Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,
truques verbais, exercícios de lirismo magoado.
As palavras são só palavras, nem coisas maiores
nem mais altas, apenas pedras que lançamos
ao poço para ouvir como se agitam as águas.
Lá fora o vento e os telhados agrestes, o céu
da cidade ostensivamente idêntico ao dos
dias felizes. Empilhamos, melancólicos,
livros que já foram mais transparentes.
Conferimos as margens, a mancha gráfica,
os indícios de uma perfeição talvez inútil.

Mesmo olhada de frente, a ausência
continua a ser cruel, o silêncio uma
ignomínia. Descemos à rua, bebemos
café, fingimos seguir em frente. As
palavras são pedras que afinal ficaram
nos bolsos, guardadas para um inimigo
que se ri e só destapa o rosto medonho
quando está fora do nosso alcance.








Por José Mário Silva

domingo, 21 de agosto de 2011





















FORMIGA










"Pai, anda cá", diz a minha filha.

Pela parede branca sobe uma formiga,

minúscula, muito lenta, obstinada.

A minha filha encolhe o corpo

pequenino para olhar. Não sei se é

a primeira vez que vê uma formiga;

mas é, parece-me, a primeira vez

que se apercebe da enorme diferença

de escala que a separa do insecto.

A minha filha acompanha a subida

heróica da formiga pela parede

branca, vira-se para mim, sorri.

É nesse espaço subitamente tenso,

criado entre a alegria infantil da

descoberta e o esforço irracional

da formiga, que nasce o poema,

mesmo se eu já desisti dele para

limpar o ranho que a minha filha,

absorta, deixou chegar até à boca.










Por José Mário Silva

sábado, 5 de junho de 2010



EXPLICATIO





O gesto mais simples,

capaz de ordenar tudo,

foi o que não fizemos.





Por José Mário Silva
Música e interpretação de Bruce Springsteen