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sábado, 25 de janeiro de 2014








SIDARTA





Um cavalo
branco
pode ser
o silêncio
absoluto,
se assim quer o deus
que brinca
entre os cascos.

Toda estrela
que brilha e pulsa
nasce
de dentro de uma árvore.





Por Micheliny Verunschk

Fotografia de Amar Dev

segunda-feira, 15 de julho de 2013







GOPALA




O céu sobre o mar
cintila
azul
sobre
azul: onda dança nuvem que passa.

Na pena de um pavão
uma gota
de orvalho
contém o universo inteiro.




Por  Micheliny Verunschk

Fotografia de Erik Reis

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013










CHAPEUZINHO VERMELHO





O lobo é o cheiro
(da noite)
O lobo é o passo
(do gato)
O lobo são os olhos
(do touro)
É a lua,
O uivo da faca.

O lobo é a dor
(do relógio)
O lobo é o caminho
(mais curto)
O lobo é a cesta de doces
O lobo é o talho
É o susto.

O lobo é o pelo
(do lobo)
O lobo é a pele
(macia)
O lobo é a língua
(pingando)
É o baile e a máscara:

O lobo é menina.




Por Micheliny Verunschk

domingo, 5 de agosto de 2012









TRÓIA




 Toda saudade
repousa nas palavras,
tem cheiro de pinho
e ossos muito brancos.
Toda saudade:
velas arreadas
dos mastros dos batéis,
última visão da chama apagando,
canção de helenas nuas
perdida nos lábios de Ílion.
Em tudo,
o teu nome de pedra,
Saudade,
cadela morta.




Por Micheliny Verunschk

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012










O QUE DIZEM OS GIRASSÓIS SOBRE A MORTE




Eles vestiram
suas roupas sujas
e saíram de casa.
E suas mãos
se desmanchando
em linhas de sangue
borraram a lã dos cordeiros
e as amendoeiras.
Nossas tias lamentavam a lua,
o tapete que teciam,
a voz de esmeralda
da menina caída no poço.
Eles não sabiam,
mas estávamos lá.
Bebemos em silêncio
o sêmen ainda quente do morto.




Por Micheliny Verunschk

Arte de Van Gogh

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011



CONTO






Existem minas

ao norte de uma grande cidade

onde os mineiros

não vêem a luz

há pelo menos 25 anos.

Dizem que têm

olhos fosforescentes

como peixes de regiões abissais.

Dizem que nascem da terra

e se proliferam por bipartição.

Dizem que têm pulmões modificados

e que nunca choram

porque dói muito.

Mas são homens,

ainda homens,

os mineiros do Norte.






Por Micheliny Verunschk

quarta-feira, 1 de setembro de 2010



CONTO






Existem minas

ao norte de uma grande cidade

onde os mineiros

não vêem a luz

há pelo menos 25 anos.

Dizem que têm

olhos fosforescentes

como peixes das regiões abissais.

Dizem que nascem da terra

e se proliferam por bipartição.

Dizem que têm pulmões modificados

e que nunca choram

porque dói muito.

Mas são homens,

ainda homens,

os mineiros do Norte.






Por Micheliny Verunschk

terça-feira, 6 de julho de 2010


HISTÓRIA





Desenterrar os mortos

e chupar seus ossos,

sugar seu mosto

de terra e sangue seco,

seu gosto secreto

de anos infindáveis,

seus arcos,

costelas,

arquitetura.

(…)

Se infeccionar com os mortos,

Triturar seus artelhos

De esponja ressequida,

Pintar de Negro e noite

Os dentes e a saliva

E abandonar o sonho

Viva,

Muito viva.





Por Micheliny Verunschk
Música e interpretação de Tim Buckley

quarta-feira, 7 de abril de 2010



A PRESENÇA DOLOROSA DO DESERTO





Teu nome é meu deserto

e posso senti-lo

incrustado

no meu próprio território

como uma pérola

ou um gesto no vazio

como o amargo azul

e tudo quanto há de ilusório.

Teu nome é meu deserto

e ele é tão vasto

seus dentes tão agudos

seus sóis raivosos

e suas letras

(setas de ouro e prata

nos meus lábios)

são o meu terço

de mistérios dolorosos.





Por Micheliny Verunschk

sábado, 23 de janeiro de 2010

O LIVRO





Havia de encontrar

alguma antiga ferida

e nela, supurando ainda,

teu rosto:

outonos e infernos

esquecidos

entre páginas amareladas

e a dor,

essa inútil traça.





Por Micheliny Verunschk