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sábado, 5 de janeiro de 2013










VERMEER




Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração,
dia após dia, não verter o leite
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece
o fim do mundo.





Por Wisława Szymborska

Tradução de Teresa Swiatkiewicz
Arte de Vermeer

sábado, 7 de abril de 2012










O TERRORISTA ...OLHA




A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São neste momento treze e dezasseis.
Alguns conseguem ainda entrar,
alguns sair.

O terrorista passou já para o outro lado da rua.
A esta distância ficará livre de perigo
e, quanto a vista, é como no cinema:

Uma mulher de casaco amarelo… entra.
Um homem de óculos escuros… sai.
Rapazes de jeans… conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,
mais um tipo alto que entra.

Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma moça de fita verde nos cabelos.
Só que o autocarro oculta-a.

Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Se foi bastante estúpida para entrar ou não,
isso se saberá pelas notícias.

Treze e dezanove.
Parece que ninguém entra.
Há porém um careca gordo que sai.
Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,
faltam treze segundos para as treze e vinte,
e ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.

São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, é agora.
A bomba… explode.





Por Wislawa Szymborska
Tradução de Júlio Sousa Gomes
Arte variação sobre quadro de Edvard Munch

quarta-feira, 7 de julho de 2010



O FIM E O INÍCIO





Depois de toda guerra

alguém precisa fazer a limpeza.

Já que uma ordem como essa

não vai se fazer sozinha.



Alguém precisa tirar

o entulho das ruas

para que as carroças possam passar

com os corpos.



Alguém precisa atolar-se

na lama e nas cinzas,

nas molas dos sofás,

nos cacos de vidro,

nos trapos ensangüentados.



Alguém precisa arrastar o poste

para levantar a parede,

alguém precisa envidraçar a janela,

pôr as portas no lugar.



Fotogênico isso não é,

e leva anos.

Todas as câmeras já saíram

para outra guerra.



Precisamos das pontes

e das estações de trem de volta.

Mangas de camisas ficarão gastas

de tanto serem arregaçadas.



Alguém de vassoura na mão

ainda lembra como foi.

Alguém escuta e concorda

assentindo com a cabeça ilesa.

Mas haverá outros por perto

que acharão tudo isso

um pouco chato.



De vez em quando alguém ainda

tem que desenterrar evidências enferrujadas

debaixo de um arbusto

e arrastá-las até o lixo.



Aqueles que sabiam

o que foi tudo isso,

têm que ceder lugar àqueles

que sabem pouco.

E menos que pouco.

E finalmente aos que não sabem nada.



Na grama, que cobriu

as causas e as conseqüências,

alguém precisa deitar

com um matinho entre os dentes

e o olhar perdido nas nuvens.





Por Wislawa Szymborska
Tradução de Tiago Halewicz

segunda-feira, 5 de julho de 2010



FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO





Atiraram-se dos andares em chamas.

Um, dois, ainda alguns,

mais acima, mais abaixo.



A fotografia deteve-os na vida

e agora preserva-os

sobre a terra rumo à terra.



Cada um ainda na íntegra,

com rosto individual

e sangue bem guardado.



Ainda há tempo

para os cabelos esvoaçarem

e do bolso caírem

chaves e alguns trocos.



Ainda estão ao alcance do ar,

no âmbito dos lugares

que acabaram de se abrir.



Só duas coisas posso por eles fazer:

descrever este voo

e não acrescentar a última frase.





Por Wislawa Szymborska
Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves

quarta-feira, 30 de junho de 2010



PHOTOGRAPH FROM SEPTEMBER 11





They jumped from the burning floors –

one, two, a few more,

higher, lower.



The photograph halted them in life,

and now keeps them

above the earth toward the earth.



Each is still complete,

with a particular face

and blood well-hidden.



There’s enough time

for hair to come loose

for keys and coins

to fall from pockets.



They’re still within the air’s reach,

in the compass of places

that have just now opened.



I can do only two things for them –

describe this flight

and not add a last line.





Por Wislawa Szymborska
Tradução para o inglês de Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh
Arte Edvard Munch