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sábado, 16 de fevereiro de 2013








A DERROTA




Então a derrota é este sofá com todas 
estas almofadas acompanhando a curva
do meu corpo prostrado? Comprei o pacote
mais caro de canais não tenho calor nem
frio e brevemente ela não virá tocar-me
à campainha (o deserto é desimpedido
vê-se desde a varanda até longa distância).


Não dói assim tanto afinal e se excluir
a infelicidade que deveras sinto
ser feliz será qualquer coisa semelhante.




Por António Gregório

domingo, 30 de outubro de 2011











SUÍTE NÚMERO SEIS





É um grande incómodo não saber tocar
violoncelo que o pranto seria doutra
condição: ela gravíssima procurando
pela sala quieta de vez em vez sobre
o parapeito procurando procurando
na lida da luz entre as ramagens a nossa
sentença enquanto eu antecipado – a dor
em arco – ressumava contra as cordas o
adeus.

E a tristeza imensa ser-me-ia então como
tijolo de subir paredes ao invés
desta mais triste ainda – se nunca lhe achei
o préstimo – que por dentro vai corrompendo
corrompendo; podia dá-la já pensei
nisso: que talvez ma aceitasse o senhor
Rostropovitch.



Por António Gregório

quarta-feira, 16 de junho de 2010



OUTUBRO






Aos olhos recém-chegados de outro mês esta

luz matinal atemoriza. parece antes

a última da tarde ou de tão deslocada

a que acende a noite fantasma dos eclipses.



Ela beijando-me as pálpebras sorriu do

meu temor: coitadinho vê lá se o outono

te come; e sem o sacudir dos nossos ombros

onde ele de facto pousara e nos comia.






Por António Gregório

sábado, 24 de abril de 2010



A COMPAIXÃO





Algum tempo depois alguns amigos

abeiraram-se de mim abeirado

do poço de onde só o eco vinha

aos meus apelos: disseram-me é em

vão pousando ternamente as mãos nos

meus ombros nos meus braços ternamente

as mãos nas minhas mãos que era melhor

desistir: rareavam os retornos

das quedas àquela profundidade.



Já em casa tive ao telefone outros

amigos amigos que vivem no

outro lado do mundo perguntando

como te sentes? dizendo que a viram

quase hesitante – alguns juraram mesmo

que ela hesitou – abeirada do poço

mas o poço varava o mundo e não

havia perto possuidor de

corda bastante para o meu resgate.



Afectei acreditar e também

que sabendo de todas estas coisas

era deveras menos infeliz.





Por António Gregório
Quadro de Edvard Munch

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010



CLONIX





À derradeira cápsula dos analgésicos

contra as dores menstruais que me deixou do

tempo em que partilhávamos os dias e os

medicamentos temi: são de naturezas

diversas a dor de dentes ela e das duas

apenas é provável o retorno de uma.



Grassam-me pela boca raízes funestas

de molares há muito desaparecidos

e que é necessário extrair: o terror

da língua – já afectada gagueja em certas

palavras – olhando os vultos inchados como

cadáveres que voltaram à superfície.



O dentista faz desfilar as ferramentas

à beira dos meus olhos descrevendo-me os

procedimentos: tantas coisas de escavar

de estropiar mas fascinou-me sobretudo

uma pequena pinça que largaria o

meu monstruoso desamor numa tacinha:



plim.





Por António Gregório
Imagem: excerto de quadro de Joan miró

sábado, 23 de janeiro de 2010

AMERICAN SCIENTIST





Lemos que estava a expandir-se o universo e

imaginámos perplexos a quantidade

de espaço novo a dispor entre todos quando

bem contados nem somos muitos. Ela disse

com certeza calhar-nos-á algum e que era

um luxo quase imoral como tomar banho

de banheira cheia nestes meses de seca

prosseguirmos os dois à beira da fusão.



Numa carta electrónica de resposta à

minha o articulista garantiu que nada

se expande eternamente e no prazo de algumas

gerações estelares há-de o universo

encolher outra vez e que por isso o espaço

que nos aparta é só uma questão de tempo.





Por António Gregório