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domingo, 23 de outubro de 2011











(POEMA 13)




Eu fui marcando com cruzes de fogo
o atlas branco do teu corpo.
A boca era uma aranha que corria a esconder-se.
Em ti, atrás de ti, temerosa, sedenta.


Histórias para contar-te à beira do crepúsculo
boneca triste e meiga, para que não estivesses triste.
Um cisne, uma árvore, algo longínquo e alegre.
O tempo da vindima, o tempo maduro e frutífero.


Eu que vivi num porto que era de onde te amava.
A solidão percorrida de sonho e de silêncio.
Encurralado entre o mar e a tristeza.
Calado, delirante, entre dois gondoleiros imóveis.


Entre os lábios e a voz, algo vai já morrendo.
Algo com asas de pássaro, algo de angústia e de olvido.
Da mesma forma que as redes não retêm a água.
Boneca minha, quase nem ficam gotas tremendo.
Mesmo assim algo canta entre estas palavras fugazes.
Algo canta, algo sobe até à minha ávida boca.
Oh poder celebrar-te com todas as palavras de alegria.
Cantar, arder, fugir, como um campanário nas mãos de um louco.
Triste ternura minha, mudas-te em quê de repente ?
Quando eu cheguei ao vértice mais atrevido e frio
fecha-se o meu coração como uma flor nocturna.





Por Pablo Neruda
Tradução de F. A. Pacheco

sábado, 12 de fevereiro de 2011



O POETA É UM ASSUNTO ALÍ NO INVISÍVEL






Esse homem é invisível, a sua matéria de calhandra é invisível,

anda no invisível com passos que produzem ruído nas ruas invisíveis,

come coisas invisíveis, respira o invisível, paga com moedas invisíveis.

O poeta é um assunto ali no invisível, cruza rios invisíveis,

deita-se com mulheres invisíveis, fala com palavras invisíveis.

Está em Dublin e é invisível, vai pelo céu em aviões invisíveis,

no seu coração a melancolia é invisível, pensa em coisas invisíveis,

lê Kavanagh que escrevia livros invisíveis,

por exemplo isto é invisível: My soul is an old horse

offered for sale in twenty fairs*.

A sua fúria é invisível, a sua tempestade também é invisível,

trabalha numa fábrica invisível, gasta os cotovelos em hospedarias invisíveis,

Teillier era invisível, Parra é quase invisível, ninguém viu Rojas.

Os operários brindam no fim do dia com canecas invisíveis de cerveja,

os solitários instalam-se em hotéis invisíveis, falam ao telefone

com raparigas invisíveis, esperam em esquinas invisíveis por outros invisíveis.

No verão a chuva é invisível, abrem então um guarda-chuva invisível,

partem para regiões invisíveis para lerem poemas invisíveis,

encontram-se num parque com alguém invisível, amam o invisível.

O poeta é um assunto ali no invisível, até este poema é invisível,

um espelho é invisível, a cidade em que vivo é invisível,

o imprescindível e o insignificante, isso é o invisível.






Por Alexandra Domínguez
Tradução de Lp, Do trapézio sem rede (http://arspoetica-lp.blogspot.com/)

sábado, 20 de março de 2010



RETRATO DE FAMÍLIA IRAQUIANA





O pai de turbante

e denso bigode negro

com os braços cruzados

À esquerda a sua esposa

com a túnica bordada

e o véu branco

Ahmad e Zainab

os dois filhos pequenos

de mãos dadas

Os avós sentados

em cadeirões de verga

Todos a sorrir

numa fotografia meio chamuscada

encontrada entre os escombros

da sua casa

depois do bombardeamento





Por Óscar Hahn
Tradução de Lp, Do trapézio sem rede


NUMA ESTAÇÃO DE METRO





Desventurados os que avistaram

uma rapariga no Metro



e se apaixonaram de repente

e a seguiram enlouquecidos



e a perderam para sempre entre a multidão



Porque serão condenados

a vaguear sem rumo pelas estações



e a chorar com as canções de amor

que os músicos ambulantes cantam nos túneis



E se calhar o amor não é mais do que isso:



uma mulher ou um homem que sai de uma carruagem

numa qualquer estação de Metro



e resplandece por uns segundos

e desaparece na noite sem nome





Por Óscar Hahn
Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede