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terça-feira, 1 de junho de 2010



MANIFESTO





Sim ao prazer sem custo.

Acatar, beber, dividir o bom

que venha feito o sol, gratuito



Quem sabe se o dom, o sem-razão

e o sem-motivos possam mais

do que exigimos. Nem se duvide



do que é capaz a coincidência

entre coisas. Nesse mundo

em que génios são servos de si mesmos,



pratique-se o descanso, para

que o fogo nunca esteja frio

e o coração passeie seus cavalos.





Por Eucanaã Ferraz

segunda-feira, 8 de março de 2010



O DRAGÃO





Semana que vem,

chega-te pelo correio a lua:

puro papelão,

que aos teus dedos

transmutará em louça.



Não fosse a gripe

que me assolou esses dias,

não fosse a preguiça,

os livros e o sono,

eu te mataria um dragão.



Na entrada da tua vila,

deixaria o bicho,

pesado como uma hecatombe

(um hematoma na boca do estômago,

as asas imensas de bomba

imersas numa poça de sangue verde).



Ora, não te assustes,

sei que te acostumei com presentes mais delicados.



Mas não seria preciso guardá-lo:

telefonarias para o Departamento de Limpeza Urbana

avisando que um louco que te ama

deixou um sonho morto

na porta da tua casa.





Por Eucanaã Ferraz

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A poesia de Eucanaã Ferraz



CARÍCIA





Demore-se no carinho,

de modo que no rosto do outro

vá a mão como se não fora

voltar. Repita,



demorando-se mais,

de modo que a mão descanse

naquele rosto, como se,

e se esqueça de que.



Repita, demore-se no carinho

como se a mão desse adeus,

agarrada ao rosto que se vai.

Outra vez: repita,



demorando-se mais

e mais, como se a mão bebesse

daquele rosto para, saciada, dormir

ali mesmo, ao pé da fonte.





Por Eucanaã Ferraz
Quadro de Gustav Klimt

domingo, 14 de fevereiro de 2010



O DOIDO





Diziam, verdade ou não, que fora rico e são

e que a despeito dos bens que possuira



acabara endividado, falido e torto. Talvez

por isso, embora miserável, a cabeça



reta, o andar

de quem governa e pisa terra extensa e sua



em perambular sob o sol absoluto,

absorvido sabe-se lá por que delírios.



Absorvido por sabe-se lá por que delírios,

insultava o vento e o vazio numa agitação



de cabelos e palavras e era comum

vê-lo penteando com seus dedos



encardidos a água das praias,

como se província sua,



como sua líquida mulher ou filha.

Viveu assim, entre feridas e piolhos,



até que desceu a noite

e uma pedra veio buscá-lo





Por Eucanaã Ferraz
Quadro de Salvador Dali

sábado, 6 de fevereiro de 2010




Estrela do Pastor,

ouve esta guitarra:



se meu amor me ama,

a porta bata,

vento fino,

flor na estampa do lençol

se abra

abrupta.



Estrela polar,

ouvido de lata:



se meu amor pensa em mim,

ruído de asas e

o limo da hora

escorra das calhas,

alguém assobie,

abelhas.



Asterisco à toa,

acrobata:



se meu amor não me ama,

os barcos retornem já,

a lua se parte

ao meio,

cai uma banda na rua,

a outra, no fundo do mar.



Estrela cadente,

mate-me.





Por Eucanaã Ferraz
Quadro de Marc Chagall

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O poeta insiste:

brune, lava, escoda.



Mas já não sonha

o perfeito.



Verruma

porque o canto é isso mesmo.



Isso:

toda palavra é defeito.





Por Eucanaã Ferraz