Mostrar mensagens com a etiqueta António Gancho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Gancho. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 28 de abril de 2014






ARTÉRIA, TU TENS RAZÃO




A única coisa que eu aprendi meu Deus
a sofrer a desilusão duma passagem de rua
ficar com o lado esquerdo a ajudar a falar
mas a única coisa que eu aprendi

Que um bocado de vidro inundasse de luz uma artéria
eu era um bocado de vidro que não inundasse de luz
artéria nenhuma
era uma desilusão a olhar para mim
e dizer movimento de rua
é assim movimento de rua
aí está nós cá estamos nós somos tal e qual
uma desilusão em passagem.

Tinha era ainda mais que tudo isso
um inchaço dum vidro em bocado
espetado em cima de pedra.

Havia um estendal de desilusão a devorar-me
todo com os olhos
eu era uma continuação do meu ser.
Onde um simulacro estava a vantagem
de uma desilusão.
Eu não
eu cá.
Que um cá estamos considerasse ou não
eu não tinha nada com isso

Eu fum, eu...
Ah,
Havia é que era eu cá estamos nada disso
eu cá não eu nada eu não tinha eu não tenho
tu quê
nós consideramos.
Onde punha fum
tudo por dentro era duma urania
tudo por dentro era duma constipação palpável
pelo sentido da pedra e do bocado de vidro.
Não eu cá não vou.

Quem olha descontenta.




Por António Gancho

Imagem de “A Mosca” de David Cronenberg

quinta-feira, 1 de setembro de 2011
















ABERTURA










Eu abria o rádio

eu abria o aparelho

era uma flor branca que eu abria

de sopro

eu soprava e eu abria a flor

A flor tocava música com as várias mãos

das pétalas

A flor tocava uma simbolização dum tempo

caído podre de espera de cor branca

O tempo espera-se em pintar-se

de branco

para cegar uma cor

mas a minha flor abria-se de

pétalas

e as várias mãos escreviam um

piano por cima de teclas grãos vários

seguidos uns aos outros.

Era assim uma harmonia

entre flor

tempo a querer-se de cor branca em cegar

era assim umas teclas cantarem filhos de grãos

por dentro dos grãos mesmos

unidos que eram em dimensão de lado

era assim um cantar-me o tempo todo

não era assim um cantar-me o tempo todo

era assim um pairar-me

o tempo todo em Nijinsky

o tempo em um fazer-me ballet pelo quarto inteiro

quando eu tinha aberta a cabeça que imagino

da música

Abria a pétala favorita do harém

onde no centro um sultão da flor

no centro que era o amarelo da flor

abria a pétala favorita da flor

e então

e era então que me soava dentro da manhã

do quarto

uma música desfibrada de tempo serôdio

como se tudo me fosse em longe

como se a música levasse longe

o céu.











Por António Gancho

terça-feira, 22 de junho de 2010



CONSTELAÇÃO VEGA





E tinhas o brilho duma estrela gravado pelo peito

como se fosse uma tua tatuagem de luz

era um olho amarelo que te brilhava no peito

no sítio onde o esterno é metade

Isso era a sapiência do teu tórax todo feito luz

era precisamente a sapiência dos teus pulmões

a explorarem fogo por fora do peito

e tinhas o brilho da constelação de Vega

gravado pelo peito todo

feito por que mulher não sei e não sei em que praia

porque é na praia que as tatuagens se iluminam ainda mais

ao brilho do iodo que do Sol desce

e cobre as pestanas do peito que são os cabelos

Tinhas uma estrela de luz gravada no meio do esterno

reconheço-te a pousada da mesma o sítio onde ela se põe

e o teu peito era a gruta

Se imagino um presépio abre-se-te a cova da garganta

que da garganta te vai

até onde o dito começa

e onde o fluxo da luz da dita inundaria depois

a dimensão do teu presépio

a dimensão do teu presépio virado para o Norte

ao confronto da Estrela Polar

que de noite viria escrever pela sua própria mão

o nome dela por cima dos bicos da tua.

Fusão da fusão, cíproco do recíproco

a tua que de estrela seria depois polar

nos indicaria depois o caminho dos celtas

o caminho do Norte e da Inglaterra de Ricardo

e então uma cruzada nasceria na imaginação do teu peito

uma cruzada para pôr em bico de guerra

a glava do princípio do teu esterno.

Se imagino a recuperação do túmulo

nasce-te um milagre

no sítio da tábua do dito

há uma aparição no sítio da mesma tábua.

Lázaro vem nu

se traz a Bíblia na mão é o começo dos evangelhos

vê-se João no sítio do horizonte

onde o Sol põe cobre por cima da cabeça do apóstolo

nasce a Bíblia na mão do Sol

e então o astro ensina à galáxia

o sentido que o homem tem.

Tem um galo nas costas e não vê

Adão que não acorda ao sentido do corpo da cobra.





Por António Gancho
Música e interpretação de Joy Division

sábado, 13 de fevereiro de 2010



PRISÃO





Tu tinhas uma nascença que era uma prisão

uma certeza de estar concreto e unido

com a matéria da pedra

Que era uma tua sedimentação de vida

uma tua construção de movimentos a sair das grades

Era rico em Sol o teu peito de grades

concreto e unido sedimentavas dias de espera

duma letra que te abrisse os instintos para

falares de nada.

Era uma certeza de tu estares unido como uma raiz de mesa própria

uma certeza de estares virado para um

nascente de inconcretidade material

tinhas uma mão de peça de artilharia

de disparares para fora o conteúdo dos dias com raiz

de mesa própria

Eras um sol a nascer-te no sítio da grade

onde se punham ramos de quinta-feira de campo.

Tinhas uma natureza de estares sentado

sobre uma cadeira que era a tua

esperança de estares unido com a nascença do movimento.

Tinhas um cantarem-te os cabelos no dia de dentro

um ser-te uma mágica fusão de

olhar com dimensão de esperança fora.

Eras-te igual à matéria da tua animação de selva

íntima

igual ao cantar-te serôdio o tempo de pendular

na cabeça

Conhecias uma esperança de cortares os cabelos com uma

navalha de vento

mas era tua a inspiração de um modo interior de vida.

Criavas um espaço aberto na clareira de uma grade

que era um espaço celeste a cobrir de grego o cimento

Tu tinhas uma invenção de disparares saúde de dias

por fora duma mão.

Tinhas uma sensação absoluta de estares aberto com o espaço

duma grade

tinhas um ser-te grave o olhar para fora do dia

inaugurado de verde

Que se te abrisse a letra

era desejo de teres fonemas no nada de uma mão aberta

sem um rogar de branco.

O Sol aberto em sentido de alusão a uma palavra de ti

era nada de o poente estar no sentido inverso.





Por António Gancho
Vídeo excerto de Control de Anton Corbijn
Música de Joy Division