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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Anna Ehre











BOLETIM SUPERLATIVO SOBRE O ESTADO DE CHICO APÓS HELENA





inspira cuidados, ainda que se declare feliz
exames mostram risos largos, medindo semanas
além de uma infestação generalizada de sol  

(como pensar se não for à sombra da dúvida?)

após cair de quatro e chamar girassol de bem-me-quer,
tem a certeza de um raio e nenhum sinal de noite

(como lembrar finais submerso em futuros?)

corre risco de vida em status de alacridade
por negligência ao aviso: “cuidado: profundidade ignorada”

amor é abissal oceano
impossível para os que se afogam em baldes 




arte por Kumi Yamashita 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

ÁRVORE DA ESPERANÇA, MANTENHA-SE FIRME!




Este não é um poema sobre trigo

Este não é um poema sobre um útero transpassado
não é um poema sobre fraturas
nem sobre a dor que desenha cores impossíveis

Este não é um poema sobre Frida Kahlo
Este não é um poema até o enterrarmos
até cada um dos nãos, sementes mortas, germinar um pássaro

Este é um poema sobre pão




Por Anna Ehre

Arte por Edmundo Simas

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014














SELFIE



diariamente
pessoas sentam-se em uma bacia sanitária
(outras não têm mais do que o chão)
onde despejam dejetos de um corpo precário
resíduos do que foi no dia anterior a sálvia, a carne, a pimenta 

o que antes era aroma sobre uma mesa
agora desprende odores da acidez azeda e fétida
que serão levados pela água de colônia e hidratante
(enquanto outros não reconhecem sabão)

falta água
falta privada
mas sobram, em aparelhos móveis,
máquinas fotográficas
que registram os lábios vermelhos da garota
e os dentes brancos do presidente
testemunhando um ditado antigo:
a ausência nos olhos dos outros não arde

o que falta não fede, nem cheira
no rosto que se repete, repete, repete, repete,
como cada gota desperdiçada de uma torneira




Por Anna Ehre
Mais poesia sua em http://cantarocantar.tumblr.com/


terça-feira, 6 de novembro de 2012








A SAGA




O doutor disse:
viver é negócio muito perigoso,
a gente morre para provar que viveu.

Ela respirou com os pés no meio-fio
e as mãos contra o sol
cega de ruas e muros.
Era humana
sólida e precária.

Ele, incorpóreo e eterno,
regurgitou o temor dizendo:
perigoso é não viveres
antes que a morte
te deixe encantada.

Ele, o tempo.



Por Anna Ehre

domingo, 17 de junho de 2012








A LA CARTE




I
Para seduzir a carne
Jesuína tomava ervas, folhas, azeites
e conversava com a chama como se fosse gente
Quando no inicio da tarde
todos à mesa respiravam a ponta dos dedos
ela salpicava amor pelos olhos
O tempero

II
Para se desfazer dos cortes
entre esperas e descaminhos,
Cecília jejuava relógios alimentando-se de certezas
Havia outro sabor depois da faca
A sobremesa



Por Anna  Ehre
Mais poesia sua em http://cantarocantar.tumblr.com/
Arte de Ticiano

quarta-feira, 11 de abril de 2012








CRIME E CASTIGO




No cristal de vidro sobre a mesa da sala
havia, há muitas gerações, uma rosa amarela
e um lírio branco.
Quando a filha mais nova indagou à mãe por que era assim,
a ouviu dizer: “Sua avó me ensinou”
A menina então perguntou a avó que lhe disse:
“Mamãe me ensinou desse jeito”
Ao ouvi-la recorrer à mesma questão, a bisavó lhe respondeu
com um ar impertinente: ”O que nos ensinam, aprendemos”
Não foi necessário conhecer a tataravó.
A menina entendeu o motivo e pensou resoluta:
“Minha filha aprenderá
                    que o quintal tem outros tons e é bonito”       
Ela voltou à sala
           e pôs duas rosas vermelhas no cristal de vidro.
No canto do quarto, uma cadeira.
Há muitas gerações, uma menina calada.










Por Anna  Ehre

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012












31/12



Ano que vem teremos dores de cabeça,
enxaquecas intensas ao fim do dia.
O trânsito sujará nossas bocas
e uma gripe nos acompanhará por uma semana.
Uma topada encontrará nossos pés
e um grito irá disparar nossos lábios. Algumas vezes.
Ficaremos indignados com o congresso e as esquinas
que despejam bossais e um demente alto-falante.
Nossa equipe não será campeã,
nem viajaremos a ilha de Patmos.
No cinema haverá adolescentes que não lêem dicionários.
No banco, filas sem respeito à ordem e à gentileza.
Trovejará no feriado e acordaremos com sono.
Ano que vem nem tudo dará certo,
nem todos os afetos serão correspondidos.
A raiva tingirá nossos rostos por um momento e,
no outro, as decepções cairão sobre os pés.
Ano que vem nem tudo será novidade.
Exceto o antigo costume de no último dia
escrevermos a palavra feliz 
e desejarmos, felizmente, tudo (de) novo.





Por Anna Ehre
Fotografia de Dan Weiner

sábado, 19 de novembro de 2011














CONVERSA AO MEIO-FIO




A rua?
Não que fosse estreita
As mulheres é que conversavam largo
Coro que os homens não desperdiçavam

As janelas?
Possuíam a altura dos olhos
O parapeito, a extensão do vento

O passeio?
Tinha a medida dos pés
O que excedia não era medo

A avenida?
Não que seja larga
Os autos é que encolheram os rios

Os edifícios?
São mudos,
homens e mulheres




Por Anna Ehre
Fotografia de Sthel Braga

sexta-feira, 21 de outubro de 2011













NOTAS PARA UM RODAPÉ





Ao mencionar sonho,
todos responderam
usando caligrafia elevada e margens imensas.
Veio, então, o poeta
usando a altura dos pés e a letra dos lábios:
O poeta é uma espécie de louco
diferente de outros
que rezam e acordam cedo
para que os sonhos saiam do papel.
O poeta despede o tempo
e, no altar da mesa, acende palavras
para inscrever sonhos em eucaliptos.
O poeta é inteiro em seu desatino
a ponto de não dormir
para acordar um livro.






Por Anna Ehre
Arte por Robert & Shana ParkeHarrison

segunda-feira, 5 de setembro de 2011



















DESAGRAVO

para Andrei









Por que o sol e esse azul desesperado?

Por que os olhos acesos?

Por que a música amplificada?

Por que esse passo de dança em tom de carrossel?

Por que os fogos de artifício?

Por que o bolo e a festa?

Por que o braço aberto a um passo do vôo?

Por que os pássaros em cada esquina?

Por que as esquinas cheias de horizonte?

Por que essa alegria sem portas?

Por quê?

Não sabem?

Rosângela está morta.









Por Anna Ehre
imagem de AAT

sexta-feira, 29 de julho de 2011




UM CONTO EM TERRACOTA










Rita acordou cedo

e encontrou o sol ainda a caminho.

Com a autoridade que tem os sábios

e aqueles que decifram as luas,

falou-lhe com a voz de sereno e baobás:

- Hoje, não.

Eu quero chuva sobre

argila do sonho que eu estou moldando.

Ele a obedeceu e voltou-se para o oriente

assim como fazem aqueles

quando ouvem a voz de quem amam.

Os meteorologistas

não entenderam a súbita mudança do tempo.

A chuva riu-se do termo ”à esclarecer”.

O sol tomou o tempo para descansar.

No dia seguinte,

teria um sonho imenso para cozer.










Por Anna Ehre

segunda-feira, 18 de julho de 2011














BOUQUET







As cores que comovem o louva-a-deus

estavam ausentes

quando ele abdicou da luz que é mover-se.




Restou-lhe o gris ancorado no pátio

em tarde inerte

até que vieste anunciando

canteiros e aquários de riccias.




Respirou convicto

dançando para a chuva

e mesmo as trevas não duvidaram.




As flores do sol

O céu germinando

raios.








Por Anna Ehre