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terça-feira, 22 de julho de 2014

Ferreira Gullar





TRADUZIR-SE





Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?



sábado, 29 de outubro de 2011








SUBVERSIVA





A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta 
nova
em frente ao Palácio da Alvorada. 

E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça 

E promete incendiar o país



Por Ferreira Gullar

terça-feira, 21 de dezembro de 2010



METADE






Que a força do medo que eu tenho,

não me impeça de ver o que anseio.



Que a morte de tudo o que acredito

não me tape os ouvidos e a boca.



Porque metade de mim é o que eu grito,

mas a outra metade é silêncio...



Que a música que eu ouço ao longe,

seja linda, ainda que triste...



Que a mulher que eu amo

seja para sempre amada

mesmo que distante.



Porque a metade de mim é partida,

mas a outra metade é saudade.



Que as palavras que eu falo

não sejam ouvidas como prece

e nem repetidas com fervor,

apenas respeitadas,

como a única coisa que resta

a um homem inundado de sentimentos.



Porque metade de mim é o que ouço,

mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora

se transforme na calma e na paz

que eu mereço.



E que essa tensão

que me corrói por dentro

seja um dia recompensada.



Porque metade de mim

é a lembrança do que fui,

a outra metade eu não sei.



mais do que uma simples alegria

para me fazer aquietar o espírito.



E que o teu silêncio

me fale cada vez mais.



Porque metade de mim

é abrigo, mas a outra metade é cansaço.



Que a arte nos aponte uma resposta,

mesmo que ela não saiba.



E que ninguém a tente complicar

porque é preciso simplicidade

para fazê-la florescer.



Porque metade de mim é platéia

e a outra metade é canção.



E que a minha loucura seja perdoada.



Porque metade de mim é amor,

e a outra...

também.






Por Ferreira Gullar

sábado, 13 de novembro de 2010



CANTIGA PARA NÃO MORRER






Quando você for se embora,

moça branca como a neve,

me leve.



Se acaso você não possa

me carregar pela mão,

menina branca de neve,

me leve no coração.



Se no coração não possa

por acaso me levar,

moça de sonho e de neve,

me leve no seu lembrar.



E se aí também não possa

por tanta coisa que leve

já viva em seu pensamento,

menina branca de neve,

me leve no esquecimento.






Por Ferreira Gullar
Fotografia de Mary Carson

sexta-feira, 20 de agosto de 2010



MORTE DE CLARICE LISPECTOR






Enquanto te enterravam no cemitério judeu

do Caju

(e o clarão do teu olhar soterrado

resistindo ainda)

o táxi corria comigo à borda da lagoa

na direcção de Botafogo

as pedras e as nuvens e as árvores

no vento

mostravam alegremente

que não dependem de nós






Por Ferreira Gullar
Arte por Van Gogh