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terça-feira, 21 de agosto de 2012











O ANJO




Perdeu-se de seu bando numa revoada vespertina. Então, perambulou ocioso por campos, revivendo carcaças, desviando enchentes dos vilarejos, curando a peste do gado e a febre da lavoura, até chegar à cidade. Entretanto, só as crianças ainda sem batismo o viam. E ele, em dialeto de bicho de pelúcia, lhes falava de coisas que ainda não tinham nome. Passou a habitar empoleirado no ombro de uma menina cega. Quando ninguém estava olhando, o anjo interrompia sua cegueira, e a menininha, disfarçadamente deslumbrada, podia ver até através das pessoas.






Por Wilson Nanini
Arte de Duy Huynh

domingo, 8 de abril de 2012







da rapina






telemarketing
moça se soubesses
que me masturbo enquanto te tolero

#

experimental
pássaros e borboletas já são clichês
é tempo de acasalar
águas-vivas libélulas e ornitorrincos

#

vidas – sedentas – fossilizadas
fósseis – nostálgicos – retrógrados
retrocessos – permanentes – progressivos

#

meu ânus virgem/minha fé promíscua

#

eu deveria te comover mas
meu diabo ainda é um ovo de anjo encruado
esta lua é um antiácido
e este conhaque falsificado

#

último espécime
lobo-guará no radiador
ararinha-azul no para-brisa
meu mustang meia cinco

#

a solidão é um inferno particular
o inferno é uma solidão compartilhada

#

as chuvas que as nuvens prenhes prometem
e abortam longe da sede (da gente)

#

ainda hei de inventar
um relógio anti-horário

#

uma febre tão intensa que acenda uma lâmpada

#

poema mudo
desde que os silêncios sejam bem metrificados

#

despaisagens
os copos de plástico na praia
o leite azedando na pia
a mosca encravada no resto de café na xícara
as mãos macias do obstetra abortífero

#

barroco
teus olhos me televisionam o mar
meu olhar te lamparina
na seminoite
o odor morno de penumbra despida

#

puro como um cântico depois do gozo
alegre como um gozo depois de outro
pleno como cantar e gozar a um só tempo

#

neurótico como um boi depois da castração
pianinho como um cão depois da surra










Por Wilson Torres Nanini

domingo, 4 de dezembro de 2011
















ENTRE A BRISA E O REDEMUNHO





Ninguém nunca soube sua idade, mas quando os primeiros habitantes chegaram aqui, aqui ela já estava.
Fugia do asilo sempre, sempre.
Vizinha da gente, ela entrava de assalto em nossa casa – achasse a porta destrancada.
Ninava, perene, uma boneca de pano. Especula-se que era um simulacro de sua filhinha falecida de infância.
Sua roupa de chita multiflorida lhe dava um aspecto de personagem de presépio maluco, de folia de reis extraviada do ofício.
A gente comentava que, invés de alma, ela tinha ventania: às vezes, uma ciranda alegre; outras, um circo demoníaco.
Balbuciava-nos declarações de amor incondicional. E como ríamos porque não entendíamos seu idioma de alarido, machucada profunda, grunhia-nos impropérios ininteligíveis. Depois, se ria, banguelamente.
Certas ocasiões, batia à porta, mesmo encontrando-a aberta. Trazia no cenho uma doçura aureolar de quem visita uma viúva recente. Acomodava sua cabecinha no peito da gente e nos supra-olhava sorrindo, afetuosíssima. E, então, chorava, mansinha. Um chorinho garoado, quase relento. Talvez, por seu interno deserto vasto, seus rios intransponíveis.
Após ir-se embora, ou ser reconduzida ao asilo, borboletas multicores saiam de debaixo dos móveis, como se tivessem se gestando lá há séculos. E objetos perdidos, procurados pela casa há semanas, eram imediatamente encontrados nos lugares mais óbvios.






Por Wilson Torres Nanini

segunda-feira, 8 de agosto de 2011
















O ESPÓLIO DA INFÂNCIA











de meu avô já morto, restam,

no meu rosto, alinhavadas pausas

(cicatrizes bem aferidas

pelas facas da sina)

me ensaiava a goela para a

hora da aguardente benta

o âmago para o tempo

azedo de testar meu

poder de adocicamento

e se ria, entre cânticos de rezas

: “só os silêncios me engasgam”









Por Wilson Nanini

Ler mais poesia sua em http://wilsonnanini.blogspot.com/ (abismos ao relento)

sábado, 5 de março de 2011



PRECES DE UM POETA EM FASE DE BERÇÁRIO






que onde houver fronteira,

eu tenha muita asa!

que carolina consiga encontrar

sua sombrinha cor-de-rosa

perdida pela casa!



pois, antes, em mim havia

um acúmulo de silêncios,

uma demora profunda

do punhal no peito,

uma dor-dor como a de um

caminhão de crianças

caindo na ribanceira,



mas hoje nada temo:

nem um trem de ferro dentro da insônia

nem um avião dentro da turbulência



embora eu não me veja como

um deus lembrado

das coisas ainda não-inventadas,



vou sendo um poeta impublicável:

à beira de ser tudo,

consigo ser só

quase



– embora, por vezes, feliz

como o primeiro cego

a ouvir gramofone






Por Wilson Nanini
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domingo, 28 de novembro de 2010



Ontem, descobri um dos crimes mais assombrosos. Há um método rude para que o sabiá cante mais: furam-lhe os olhos. Aí, na triste e escura solidão de sua vida, o pássaro lapida e rumina sua partitura inata, a aditiva, e passa a cantar o tempo todo, mais e mais bonito.

Abaixo, eis o depoimento de uma avezinha pungida.





JAZZ LARANJEIRO






tudo belo aos olhos de

doce-de-flor-de-laranjeira



n` desjejum não m`alenta

geléia de borboletas



: me álacre era o céu-sol uma

distância de vôo percorrível



ora perambulo em passos-saltos

cúbicos: me tumula me berça

demolição de algazarra de

ciranda incinerada



me queimam me põem

estrepe arame nos olhos



ah há

quem me unte os olhos com bento cuspe?



por via escuríssima meu canto

sai labiríntico rude mas mais belo



: o céu-sol me

foi desaceso

– não me destila o sentir noite ou dia –



canto-peço-rezo

para alguém me devolvê-lo






Por Wilson Nanini
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