Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Bukowski. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Bukowski. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 20 de novembro de 2012








OS ESTRANGEIROS





podem não acreditar
mas há pessoas
que passam pela vida  quase
sem
conflitos ou
sofrimento.
vestem bem, comem
bem, dormem bem.
estão satisfeitos com
a  sua vida
familiar.
têm momentos de
tristeza
mas considerando tudo
não há perturbações
e muitas vezes sentem-se
muito bem.
e quando morrem
é uma morte
santa, enquanto dormem
em geral.

podem não acreditar
nisto
mas há pessoas
assim.

mas eu  não  sou uma
delas.
oh não, não sou uma
delas.
nem sequer estou
perto
de ser  uma
delas

mas elas estão
aqui

e eu
também.





Por Charles Bukowski
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho
fotografia de Annika Ruohonen

sexta-feira, 3 de agosto de 2012











PARIS





nunca
mesmo em tempos mais calmo
alguma vez
sonhei
andar de bicicleta por aquela
cidade
usando uma boina

e
Camus
sempre
me chateou.




Por Charles Bukowsky
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

terça-feira, 29 de maio de 2012









CARSON MCCULLERS




morreu de alcoolismo
embrulhada num cobertor
numa cadeira de convés
num navio
a vapor

todos os seus livros de
uma solidão aterrorizada

todos os seus livros sobre
a crueldade do amor sem amor

foram apenas o que dela
ficou

quando o veraneante que dava uma volta
descobriu o corpo

informou o capitão


foi rapidamente  expedida
no barco
para outro sítio

e tudo
continuou exactamente
como
ela escrevera



Por Charles Bukowsky
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

sábado, 3 de março de 2012





CONTAGEM DAS 8




da minha cama
observo
3 pássaros
num fio
de telefone.
um levanta voo
rapidamente.
depois
outro.
fica um,
 a seguir
ele também
abalou.
a minha máquina de escrever está
silenciosa
como um túmulo
e eu estou
reduzido
a observar
pássaros.
pensei apenas
em
dizer-to,
sacana.




Por Charles Bukowski
Tradução de Francisco Craveiro

segunda-feira, 29 de agosto de 2011


















APONTAMENTO SOBRE POESIA MODERNA











a poesia avança há muito tempo, embora devagar;

tu não és tão velho como Eu sou

e Eu consigo lembrar-me de ler

revistas onde no fim do poema

dizia:

Paris, 1928.

isso parecia fazer alguma

diferença, e assim, aqueles que podiam

(e alguns que não podiam)

foram para

PARIS

e escreveram.




Eu também sou suficientemente velho para lembrar

quando os poemas faziam referências aos deuses Gregos e

Romanos.

se tu não conhecesses os teus deuses não eras um

bom escritor.

e, se não conseguisses escrever um verso em

Espanhol, Francês ou

Italiano,

tu não eras definitivamente um bom

escritor.




há 5 ou 6 décadas atrás,

talvez 7,

alguns poetas começaram a usar

eu em vez de Eu

ou

& em vez de e.




muitos ainda usam eu

e muitos continuam a usar

&

pensando que é poeticamente efectivo e

actualizado.




e, a mais velha ideia ainda em voga é

que se não consegues entender um poema é

quase certo que é

um bom poema.




a poesia ainda avança devagar, penso eu,

e quando todos os mecânicos de automóveis

começarem a trazer livros de poesia para ler

durante o almoço

só aí saberemos de certeza que estamos a avançar

na direcção

certa.




&

disso

eu

tenho a certeza.










Por Charles Bukowski

segunda-feira, 25 de abril de 2011


CONFISSÃO





à espera da morte
como um gato
que saltará sobre a
cama

sinto terrivelmente por
minha esposa


ela verá este
corpo
duro e
branco


vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:


"Hank!"


Hank não
responderá.


não é minha morte o que
me preocupa, é minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.


quero
no entando
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado


que mesmo as discussões
inúteis
sempre foram
esplêndidas


e que as palavras
difíceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:


eu te
amo.





Por Charles Bukowski

domingo, 20 de fevereiro de 2011



PÁSSARO AZUL NO MEU CORAÇÃO






há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou muito durão,

e digo, fica aí dentro,

não vou deixar

ninguém te ver.

há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu derramei whisky em cima dele

e inalo fumaça de cigarros

e as putas e os empregados do bar

e os funcionários da mercearia

nunca saberão

que ele se encontra

lá dentro.

há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou muito durão,

e digo, fica aí escondido,

quer me arruinar?

quer foder o

meu trabalho?

quer arruinar

as minhas vendas de livros

na Europa?

há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou muito esperto,

e só o deixo sair à noite

às vezes

quando todos estão dormindo.

e digo, eu sei que você está aí,

por isso

não fique triste.

depois,

coloco-o de volta,

mas ele canta pouco lá dentro,

não o deixo morrer de todo

e dormimos juntos

assim

com o nosso

pacto secreto

e é bom o suficiente

para fazer um homem chorar,

mas eu não choro,



e você?






Por Charles Bukowski
Tradução por jeffvasques

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010



LENÇÓIS





esses lençóis que aí tem

disse a velha senhora

da secção de utensílios domésticos

são para cama de casal.

tem uma cama de casal ou uma

cama de solteiro?

bem, está a ver, respondi,

a minha cama é uma cama invulgar, é

uma cama tipo corpo e

meio.

descreva a sua cama, disse ela.

o quê?

descreva a sua

cama.

preferia não o fazer, disse.

bem, disse a velha senhora, quero que

saiba que os lençóis que aí tem são

para uma cama de casal, e se tem uma cama de

solteiro, é contra a lei

estatal.

o quê? perguntei. como

disse?

eu disse, que é contra a lei

estatal.

ou seja? perguntei.

ou seja, não pode devolver esses lençóis

depois de ter aberto a

embalagem.

está bem, respondi, dê-me um par de individuais.

tratou-me então com confortável

desdém. penso que a velha senhora teria estado nos

lençóis toda a sua

vida. penso que deviam colocar raparigas jovens

na secção dos lençóis.

apesar de tudo, lençóis não me fazem pensar de todo

em dormir.

mas em algo completamente

diferente. especialmente lençóis brancos acabados de

estrear.

deviam colocar velhas senhoras como ela na secção

de comida para cão, ou na de jardinagem e

quando ela me deu os individuais eu soube que ela soube que eu dormia

sozinho. tal como

ela.





Por Charles Bukowski
Tradução de menino mau