sábado, 8 de janeiro de 2011



OS RIOS ATÓNITOS


(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)






Há palavras a dormir sobre o seu largo

assombro

Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo

é como se houvesse pronunciado os próprios rios



Ou seja, as águas

pesadas de lama, os peixes todos e os perigos

inumeráveis

O musgo das margens, o escuro

mistério em movimento.



Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre

Lento

em tua boca.



Dizes Quanza

e o ar se preenche de perfumes perplexos.



E dizes Congo

e onde o dizes há grandes aves

e súbitos sons redondos e convexos.



E dizes Quanza, ou dizes Congo

e sempre que o dizes acorda em torno

um turbilhão de águas:

a vida, em seu inteiro e infinito assombro.






Por José Eduardo Agualusa

1 comentário:

  1. "Um rio tal qual a poesia... a vida, em seu inteiro e infinito assombro..."

    Beijos.

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