domingo, 26 de dezembro de 2010



OS NUS DE BONNARD






A sua mulher. Durante quarenta anos ele pintou-a.

Uma e outra vez. O nu da última pintura

igual à jovem nudez da primeira. A sua mulher.



Tal como se recordava dela enquanto jovem. Como se ela o fosse.

A sua mulher no banho. Na sua cómoda

em frente ao espelho. Nua.



A sua mulher com as mãos debaixo dos seios,

olhando o jardim.

O sol concedendo cor e calor.



Todas as coisas vivas a florescer ali.

Ela jovem e trémula e tão desejável.

Quando ela morreu, ele pintou por mais algum tempo.



Algumas paisagens. Depois morreu.

E puseram-no junto dela.

A sua jovem mulher.






Por Raymond Carver
Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede, http://arspoetica-lp.blogspot.com/
Arte de Pierre Bonnard

1 comentário:

  1. António, o poema é lindo, uma paisagem de amor!!!

    Beijos e bom domingo.

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