segunda-feira, 25 de abril de 2011


CONFISSÃO





à espera da morte
como um gato
que saltará sobre a
cama

sinto terrivelmente por
minha esposa


ela verá este
corpo
duro e
branco


vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:


"Hank!"


Hank não
responderá.


não é minha morte o que
me preocupa, é minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.


quero
no entando
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado


que mesmo as discussões
inúteis
sempre foram
esplêndidas


e que as palavras
difíceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:


eu te
amo.





Por Charles Bukowski

domingo, 27 de março de 2011


POEMA







Incrédulo do meu ser

como um nómada preso ao seu caminho

desloco-me em espiral

pelas farpas do tempo

“torrente repleta de vida”

de onde parto esquecido

e regresso desenganado e invisível…

…a porta da memória profunda

com a sua escadaria imponente,

parasitada por imagens gravadas na pedra gelada,

impedem-me de tocá-la…

e no vácuo formas geométricas aberrantes

observam-me sem pudor até as entranhas

tentando compreender

o sentido flagelado

do fogo que lá não arde.







Por Pedro Simões Eira

CONFISSÃO






Sintonizado em barulhos

reconheço o prego

ao ser pregado

o parafuso

ao ser enroscado

a água

ao ser fervida

o dia

ao ser mudado

para a tarde

noite

dos regressos




ser fechado

confesso o crime

de escutar a vida

por todos os lados.









Por Pedro Du Bois
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sábado, 5 de março de 2011



PRECES DE UM POETA EM FASE DE BERÇÁRIO






que onde houver fronteira,

eu tenha muita asa!

que carolina consiga encontrar

sua sombrinha cor-de-rosa

perdida pela casa!



pois, antes, em mim havia

um acúmulo de silêncios,

uma demora profunda

do punhal no peito,

uma dor-dor como a de um

caminhão de crianças

caindo na ribanceira,



mas hoje nada temo:

nem um trem de ferro dentro da insônia

nem um avião dentro da turbulência



embora eu não me veja como

um deus lembrado

das coisas ainda não-inventadas,



vou sendo um poeta impublicável:

à beira de ser tudo,

consigo ser só

quase



– embora, por vezes, feliz

como o primeiro cego

a ouvir gramofone






Por Wilson Nanini
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sábado, 26 de fevereiro de 2011



CLAMOR SANITÁRIO






tem caco da minha carcaça por toda cidade

o monturo dos meus membros se amontoa nas ruas do bairro

o chorume desce fétido ladeira abaixo cabelos sangue lágrimas soluços náusea

os lixeiros já avisaram ao prefeito que não há caminhões suficientes

evito sair de casa pra não me deixar por aí

-recolher-me nos meus domínios já é por demais constrangedor-

o que já deixei pelas ruas me excede em centenas de mim

-ao que parece, para o caso, não há como estabelecer limite-

portanto, tenha piedade e desabite de mim



muito agradecida






Por Eugênia Fraietta
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Fotografia de Alyssa Monks

domingo, 20 de fevereiro de 2011



PÁSSARO AZUL NO MEU CORAÇÃO






há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou muito durão,

e digo, fica aí dentro,

não vou deixar

ninguém te ver.

há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu derramei whisky em cima dele

e inalo fumaça de cigarros

e as putas e os empregados do bar

e os funcionários da mercearia

nunca saberão

que ele se encontra

lá dentro.

há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou muito durão,

e digo, fica aí escondido,

quer me arruinar?

quer foder o

meu trabalho?

quer arruinar

as minhas vendas de livros

na Europa?

há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou muito esperto,

e só o deixo sair à noite

às vezes

quando todos estão dormindo.

e digo, eu sei que você está aí,

por isso

não fique triste.

depois,

coloco-o de volta,

mas ele canta pouco lá dentro,

não o deixo morrer de todo

e dormimos juntos

assim

com o nosso

pacto secreto

e é bom o suficiente

para fazer um homem chorar,

mas eu não choro,



e você?






Por Charles Bukowski
Tradução por jeffvasques

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ouvir Strange Fruit, por Billie Holiday aqui



LIÇÃO






Foi em 1963 ou 4, no Verão,

o meu pai guiava a família

de Forte Hood para a Carolina do Norte no nosso Buick de 56.

Tínhamos ouvido falar dos ataques do Klan, e sabíamos



que o Mississippi se tinha tornado mais perigoso do que o habitual.

A escuridão descia inclinando-se das árvores como faz o musgo

e, nessa noite, quando a luz caiu sobre as janelas,

o meu pai encostou à berma para dormirmos.



Barulhos

que habitualmente não me deixavam adormecer, com medo de monstros,

mantiveram também o meu pai acordado nessa noite

e eu permaneci em silêncio dando conta de que ele estava alerta,

aprendendo que ele poderia não ser capaz de nos proteger



de tudo e de todas as criaturas;

nem talvez da fúria subitamente ruidosa

de todo o meu corpo em relação a esta viagem do Texas

para fixarmos residência antes de ele partir



para um lugar sem lugar no mundo

a que ele chamava Vietname. Um rapaz precisa de um pai

junto de si, eu não parava de pensar, fitando o ruído

que vinha das trevas.






Por Forrest Hamer
Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede (http://arspoetica-lp.blogspot.com/)
Música de Billie Holiday
Imagem de J. Michael Skaggs

sábado, 12 de fevereiro de 2011



O POETA É UM ASSUNTO ALÍ NO INVISÍVEL






Esse homem é invisível, a sua matéria de calhandra é invisível,

anda no invisível com passos que produzem ruído nas ruas invisíveis,

come coisas invisíveis, respira o invisível, paga com moedas invisíveis.

O poeta é um assunto ali no invisível, cruza rios invisíveis,

deita-se com mulheres invisíveis, fala com palavras invisíveis.

Está em Dublin e é invisível, vai pelo céu em aviões invisíveis,

no seu coração a melancolia é invisível, pensa em coisas invisíveis,

lê Kavanagh que escrevia livros invisíveis,

por exemplo isto é invisível: My soul is an old horse

offered for sale in twenty fairs*.

A sua fúria é invisível, a sua tempestade também é invisível,

trabalha numa fábrica invisível, gasta os cotovelos em hospedarias invisíveis,

Teillier era invisível, Parra é quase invisível, ninguém viu Rojas.

Os operários brindam no fim do dia com canecas invisíveis de cerveja,

os solitários instalam-se em hotéis invisíveis, falam ao telefone

com raparigas invisíveis, esperam em esquinas invisíveis por outros invisíveis.

No verão a chuva é invisível, abrem então um guarda-chuva invisível,

partem para regiões invisíveis para lerem poemas invisíveis,

encontram-se num parque com alguém invisível, amam o invisível.

O poeta é um assunto ali no invisível, até este poema é invisível,

um espelho é invisível, a cidade em que vivo é invisível,

o imprescindível e o insignificante, isso é o invisível.






Por Alexandra Domínguez
Tradução de Lp, Do trapézio sem rede (http://arspoetica-lp.blogspot.com/)

sábado, 29 de janeiro de 2011



RECEITA DE POETAS






Ingredientes


2 conflitos de gerações

4 esperanças perdidas

3 litros de sangue fervido

5 sonhos eróticos

2 canções dos Beatles



Modo de preparar


dissolva os sonhos eróticos

nos dois litros de sangue fervido

e deixe

gelar seu coração

leve a mistura ao fogo

adicionando dois conflitos

de gerações às esperanças

perdidas

corte tudo em pedacinhos

e repita com as canções dos

beatles o mesmo processo usado

com os sonhos eróticos mas desta

vez deixe ferver um pouco mais e

mexa até dissolver

parte do sangue pode ser

substituído por suco de

groselha mas os resultados

não serão os mesmos



sirva o poema simples

ou com ilusões.






Por Nicolas Behr


LUA EM POESIA






Pouso constante de raio de sol

somos

suas miragens…



Trilhadas passagens

suores e lágrimas

águas metálicas

asas a perfilar o rosto da noite…



Ventres brancos

livres tempos

que nos sopram

e seremos Godivas



- Lua e Poesia –

pátrias nuas em busca de galáxias.






Por Carmen Silvia Presotto
Ler mais poesia sua e de outros em http://vidraguas.com.br/wordpress/
Imagem de AAT

terça-feira, 18 de janeiro de 2011



CRESCER






A antevisão do inferno

conforma a figura ensinada

enquanto criança: ter sido

criança antes

da história

adulterada



o menino ativa idéias

descomunais ao corpo

ingente, purgado

em vitaminas inexistentes



o inferno desdobrado

em passos: passado

recoberto em eras.

Floresta desbastada.






Por Pedro Du Bois
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011



CONTO






Existem minas

ao norte de uma grande cidade

onde os mineiros

não vêem a luz

há pelo menos 25 anos.

Dizem que têm

olhos fosforescentes

como peixes de regiões abissais.

Dizem que nascem da terra

e se proliferam por bipartição.

Dizem que têm pulmões modificados

e que nunca choram

porque dói muito.

Mas são homens,

ainda homens,

os mineiros do Norte.






Por Micheliny Verunschk

sábado, 8 de janeiro de 2011



OS RIOS ATÓNITOS


(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)






Há palavras a dormir sobre o seu largo

assombro

Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo

é como se houvesse pronunciado os próprios rios



Ou seja, as águas

pesadas de lama, os peixes todos e os perigos

inumeráveis

O musgo das margens, o escuro

mistério em movimento.



Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre

Lento

em tua boca.



Dizes Quanza

e o ar se preenche de perfumes perplexos.



E dizes Congo

e onde o dizes há grandes aves

e súbitos sons redondos e convexos.



E dizes Quanza, ou dizes Congo

e sempre que o dizes acorda em torno

um turbilhão de águas:

a vida, em seu inteiro e infinito assombro.






Por José Eduardo Agualusa


O PARTO DE UMA PEDRA






O parto de uma pedra

é realmente um espectáculo

para uma vida inteira.



E há ainda o sol

e a sua vergonhosa incompatibilidade

com a lua.



Mas hoje estou triste como se fosse poeta

e é à sombra do vento que me acolho

puxando para os ombros

a nudez da paisagem.



Vêm os violinos

de muito longe

ouvir a neve.






Por Artur do Cruzeiro Seixas

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011



EVA






Mulher, nada te nega

Maré, águas inversas

Vento, pôquer de velas



Mulher, és o que entregas

Porto, rastro na pedra

Onda, de verde vértebra



Mulher, alguém de terra

Teia, que não releva

Mito, feito de areia



Mulher, olhar que gela

Verbo, antes da queda

Maçã, mesa do êxtase



Mulher, rosto a prêmio

Fuga, cruza de afago

Rasgo, pluma de rosa



Mulher, nada te inverte

Muda, hora do verso

Sina, falta que fala



Mulher, depois do barro

Eva, de lado a lado

Bote, que faz escravo






Por Nei Duclós
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