sábado, 29 de janeiro de 2011



RECEITA DE POETAS






Ingredientes


2 conflitos de gerações

4 esperanças perdidas

3 litros de sangue fervido

5 sonhos eróticos

2 canções dos Beatles



Modo de preparar


dissolva os sonhos eróticos

nos dois litros de sangue fervido

e deixe

gelar seu coração

leve a mistura ao fogo

adicionando dois conflitos

de gerações às esperanças

perdidas

corte tudo em pedacinhos

e repita com as canções dos

beatles o mesmo processo usado

com os sonhos eróticos mas desta

vez deixe ferver um pouco mais e

mexa até dissolver

parte do sangue pode ser

substituído por suco de

groselha mas os resultados

não serão os mesmos



sirva o poema simples

ou com ilusões.






Por Nicolas Behr


LUA EM POESIA






Pouso constante de raio de sol

somos

suas miragens…



Trilhadas passagens

suores e lágrimas

águas metálicas

asas a perfilar o rosto da noite…



Ventres brancos

livres tempos

que nos sopram

e seremos Godivas



- Lua e Poesia –

pátrias nuas em busca de galáxias.






Por Carmen Silvia Presotto
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Imagem de AAT

terça-feira, 18 de janeiro de 2011



CRESCER






A antevisão do inferno

conforma a figura ensinada

enquanto criança: ter sido

criança antes

da história

adulterada



o menino ativa idéias

descomunais ao corpo

ingente, purgado

em vitaminas inexistentes



o inferno desdobrado

em passos: passado

recoberto em eras.

Floresta desbastada.






Por Pedro Du Bois
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011



CONTO






Existem minas

ao norte de uma grande cidade

onde os mineiros

não vêem a luz

há pelo menos 25 anos.

Dizem que têm

olhos fosforescentes

como peixes de regiões abissais.

Dizem que nascem da terra

e se proliferam por bipartição.

Dizem que têm pulmões modificados

e que nunca choram

porque dói muito.

Mas são homens,

ainda homens,

os mineiros do Norte.






Por Micheliny Verunschk

sábado, 8 de janeiro de 2011



OS RIOS ATÓNITOS


(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)






Há palavras a dormir sobre o seu largo

assombro

Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo

é como se houvesse pronunciado os próprios rios



Ou seja, as águas

pesadas de lama, os peixes todos e os perigos

inumeráveis

O musgo das margens, o escuro

mistério em movimento.



Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre

Lento

em tua boca.



Dizes Quanza

e o ar se preenche de perfumes perplexos.



E dizes Congo

e onde o dizes há grandes aves

e súbitos sons redondos e convexos.



E dizes Quanza, ou dizes Congo

e sempre que o dizes acorda em torno

um turbilhão de águas:

a vida, em seu inteiro e infinito assombro.






Por José Eduardo Agualusa


O PARTO DE UMA PEDRA






O parto de uma pedra

é realmente um espectáculo

para uma vida inteira.



E há ainda o sol

e a sua vergonhosa incompatibilidade

com a lua.



Mas hoje estou triste como se fosse poeta

e é à sombra do vento que me acolho

puxando para os ombros

a nudez da paisagem.



Vêm os violinos

de muito longe

ouvir a neve.






Por Artur do Cruzeiro Seixas

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011



EVA






Mulher, nada te nega

Maré, águas inversas

Vento, pôquer de velas



Mulher, és o que entregas

Porto, rastro na pedra

Onda, de verde vértebra



Mulher, alguém de terra

Teia, que não releva

Mito, feito de areia



Mulher, olhar que gela

Verbo, antes da queda

Maçã, mesa do êxtase



Mulher, rosto a prêmio

Fuga, cruza de afago

Rasgo, pluma de rosa



Mulher, nada te inverte

Muda, hora do verso

Sina, falta que fala



Mulher, depois do barro

Eva, de lado a lado

Bote, que faz escravo






Por Nei Duclós
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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011



PELO MENOS






Quero levantar-me cedo uma manhã mais,

antes do nascer do sol. Antes mesmo dos pássaros.

Quero atirar água fria à minha cara

e estar à minha mesa de trabalho

quando o céu clarear e o fumo

começar a sair das chaminés

das outras casas.

Quero ver as ondas a quebrarem-se

nesta praia rochosa, não ouvi-las apenas

a bater, como fiz toda a noite durante o meu sono.

Quero ver de novo os navios

que passam pelo estreito vindos de todos

os países marítimos do mundo -

os cargueiros velhos e sujos movendo-se vagarosamente

e os novos e rápidos navios de carga

pintados, sob o sol, de todas as cores

que cortam a água à medida que avançam.

Quero manter-me de olhos bem abertos por eles.

E pelos pequenos barcos que manobram

na água entre os navios

e o porto, junto ao farol.

Quero vê-los a receberem um homem que sai do navio

e a pôr outro lá em cima, a bordo.

Quero passar o dia a ver isto a acontecer

e tirar as minhas próprias conclusões.

Detesto parecer ganancioso - e já tenho tanto

pelo qual devo ficar agradecido.

Mas quero levantar-me cedo mais uma manhã, pelo menos.

E ir para o meu lugar com algum café, e esperar.

Esperar, apenas, para ver o que irá acontecer.






Por Raymond Carver
Tradução de Lp, Do trapézio sem rede (http://arspoetica-lp.blogspot.com/)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011



PODE-SE VIVER MUITO BEM...






Pode-se viver muito bem

sem nada mais do que estes privilégios quotidianos:

uma carta na caixa do correio, o barulho de uma vaga,

o azul sobre a planície, as palavras de um poema.

O universo reduzido a poucos vínculos

ao trajecto habitual

da sua própria morte.



Pode-se muito bem não ser mais

do que uma aventura de átomos e de questões insignificantes.







Por Hélène Dorion
Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede (http://arspoetica-lp.blogspot.com/)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010



LIÇÃO DE TRAVESSIA






Sempre que vejo um rio

parece que do outro lado está a Argentina



As balsas carregadas da infância

sumiram do meu olhar

Mas a ponte permaneceu

como eterna promessa

de que todas as margens podem ser pisadas



O mundo não tem lado certo

pois há uma ponte sólida

por cima de todas as águas






Por Nei Duclós

domingo, 26 de dezembro de 2010



OS NUS DE BONNARD






A sua mulher. Durante quarenta anos ele pintou-a.

Uma e outra vez. O nu da última pintura

igual à jovem nudez da primeira. A sua mulher.



Tal como se recordava dela enquanto jovem. Como se ela o fosse.

A sua mulher no banho. Na sua cómoda

em frente ao espelho. Nua.



A sua mulher com as mãos debaixo dos seios,

olhando o jardim.

O sol concedendo cor e calor.



Todas as coisas vivas a florescer ali.

Ela jovem e trémula e tão desejável.

Quando ela morreu, ele pintou por mais algum tempo.



Algumas paisagens. Depois morreu.

E puseram-no junto dela.

A sua jovem mulher.






Por Raymond Carver
Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede, http://arspoetica-lp.blogspot.com/
Arte de Pierre Bonnard

sábado, 25 de dezembro de 2010



MORTE AO MEIO-DIA






No meu país não acontece nada

à terra vai-se pela estrada em frente

Novembro é quanta cor o céu consente

às casas com que o frio abre a praça



Dezembro vibra vidros brande as folhas

a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal

que o mais zeloso varredor municipal

Mas que fazer de toda esta cor azul



que cobre os campos neste meu país do sul?

A gente é previdente cala-se e mais nada

A boca é pra comer e pra trazer fechada

o único caminho é direito ao sol



No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente



E juntam-se na casa portuguesa

a saudade e o transístor sob o céu azul

A indústria prospera e fazem-se ao abrigo

da velha lei mental pastilhas de mentol



Morre-se a ocidente como o sol à tarde

Cai a sirene sob o sol a pino

Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde

Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?



Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe,

atenta a gravidade do momento



O meu país é o que o mar não quer

é o pescador cuspido à praia à luz

pois a areia cresceu e a gente em vão requer

curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia



A minha terra é uma grande estrada

que põe a pedra entre o homem e a mulher

O homem vende a vida e verga sob a enxada

O meu país é o que o mar não quer







Por Ruy Belo

terça-feira, 21 de dezembro de 2010



METADE






Que a força do medo que eu tenho,

não me impeça de ver o que anseio.



Que a morte de tudo o que acredito

não me tape os ouvidos e a boca.



Porque metade de mim é o que eu grito,

mas a outra metade é silêncio...



Que a música que eu ouço ao longe,

seja linda, ainda que triste...



Que a mulher que eu amo

seja para sempre amada

mesmo que distante.



Porque a metade de mim é partida,

mas a outra metade é saudade.



Que as palavras que eu falo

não sejam ouvidas como prece

e nem repetidas com fervor,

apenas respeitadas,

como a única coisa que resta

a um homem inundado de sentimentos.



Porque metade de mim é o que ouço,

mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora

se transforme na calma e na paz

que eu mereço.



E que essa tensão

que me corrói por dentro

seja um dia recompensada.



Porque metade de mim

é a lembrança do que fui,

a outra metade eu não sei.



mais do que uma simples alegria

para me fazer aquietar o espírito.



E que o teu silêncio

me fale cada vez mais.



Porque metade de mim

é abrigo, mas a outra metade é cansaço.



Que a arte nos aponte uma resposta,

mesmo que ela não saiba.



E que ninguém a tente complicar

porque é preciso simplicidade

para fazê-la florescer.



Porque metade de mim é platéia

e a outra metade é canção.



E que a minha loucura seja perdoada.



Porque metade de mim é amor,

e a outra...

também.






Por Ferreira Gullar

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010



CÁRCERE PRIVADO






vivo em cárcere privado

por livre e espontânea vontade

ao meu amor muito obrigado

por me livrar da liberdade






Por Chacal
Arte por Salvador Dalí

domingo, 12 de dezembro de 2010



LUARES






Ao longe,

com nossa teia,

tomaremos os remos

e feito postigos destes suspiros

desabitaremos pessoa do nada



fonte de gentes

sujeitos

pontes

e passagens



andarilhos Spartacus



Em letras,

das garrafas jogadas ao tempo,

seremos os cartões postais…






Por Carmen Sílvia Presotto
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Arte de Steve Hanks