terça-feira, 9 de agosto de 2011





















FEIRA


Para Hayden Carruth










Se não viste o cão de seis patas,

Não tem importância.

Nós vimos, e ele praticamente só ficava deitado a um canto.

Quanto às pernas extra




As pessoas habituavam-se rapidamente àquilo

E pensavam noutras coisas.

Como, que noite fria e escura

Para se andar na feira.




Depois o dono atirou um pau

E o cão foi apanhá-lo

Nas quatro patas, as outras duas a abanar atrás,

O que fez uma rapariga dar um guincho de riso.




Estava bêbeda tal como o homem

Que teimava em beijar-lhe o pescoço.

O cão apanhou o pau e olhou para nós.

E o espectáculo era aquilo.







Por Charles Simic
Tradução de António Ladeira
Arte de Ricardo Cruzeiro

segunda-feira, 8 de agosto de 2011
















O ESPÓLIO DA INFÂNCIA











de meu avô já morto, restam,

no meu rosto, alinhavadas pausas

(cicatrizes bem aferidas

pelas facas da sina)

me ensaiava a goela para a

hora da aguardente benta

o âmago para o tempo

azedo de testar meu

poder de adocicamento

e se ria, entre cânticos de rezas

: “só os silêncios me engasgam”









Por Wilson Nanini

Ler mais poesia sua em http://wilsonnanini.blogspot.com/ (abismos ao relento)

domingo, 7 de agosto de 2011

















pariso

novayorquizo

moscoviteio

sem sair do bar




só não levanto e vou embora

porque tem países

que eu nem chego a madagascar









Por Paulo Leminski

sábado, 6 de agosto de 2011
















METEOROLÓGICA









Deus não me deu

um namorado

deu-me

o martírio branco

de não o ter




Vi namorados

possíveis

foram bois

foram porcos

e eu palácios

e pérolas




Não me queres

nunca me quiseste

(porquê, meu Deus?)




A vida

é livro

e o livro

não é livre




Choro

chove

mas isto é

Verlaine




Ou:um dia

tão bonito

e eu

não fornico







Por Adília Lopes




















A verdadeira mão que o poeta estende

não tem dedos:

é um gesto que se perde

no próprio acto de dar-se




O poeta desaparece

na verdade da sua ausência

dissolve-se no biombo da escrita




O poema é

a única

a verdadeira mão que o poeta estende




E quando o poema é bom

não te aperta a mão:

aperta-te a garganta










Por Ana Hatherly





















VARIAÇÃO SOBRE UM TEMA ANTIGO










Vem de tão longe que tenho piedade

dos seus cães: abro a porta, aceito

a festa dos animais.

Aproximou as mãos do fogo

e encontrou a flauta, levou-a

à boca: então o silêncio brilhou

acariciado.










Por Eugénio de Andrade

sexta-feira, 29 de julho de 2011




UM CONTO EM TERRACOTA










Rita acordou cedo

e encontrou o sol ainda a caminho.

Com a autoridade que tem os sábios

e aqueles que decifram as luas,

falou-lhe com a voz de sereno e baobás:

- Hoje, não.

Eu quero chuva sobre

argila do sonho que eu estou moldando.

Ele a obedeceu e voltou-se para o oriente

assim como fazem aqueles

quando ouvem a voz de quem amam.

Os meteorologistas

não entenderam a súbita mudança do tempo.

A chuva riu-se do termo ”à esclarecer”.

O sol tomou o tempo para descansar.

No dia seguinte,

teria um sonho imenso para cozer.










Por Anna Ehre

quinta-feira, 28 de julho de 2011



 













NO POÇO




O meu pai cingiu a corda,

um nó em torno da minha cintura,

e baixou-me para o interior

das trevas. Pude provar o sabor




do meu medo. Primeiro do escuro,

depois da terra, depois da podridão.

Oscilei e bati com a cabeça

e nesse instante cheguei




a outro medo: o do sangue,

que me fez cerrar ferreamente a boca.

À força de mãos, o meu pai

fez-me passar por tudo isto:




depois a água. Depois o pêlo encharcado,

que abracei contra o peito.

Gritei. E o meu pai puxou a corda

molhada. Desequilibrei-me, apertei




o cão desaparecido do meu vizinho

contra mim. Segurei a sua morte

e ascendi até ao meu pai.

Depois luz. Depois mãos. Depois a respiração.







Por Andrew Hudgins

Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede

sábado, 23 de julho de 2011



















SE PARTIRES, NÃO ME ABRACES










Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha com viagens na pele salgada das ondas.




Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –




o teu perfume preso á minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto

espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.









Por Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 18 de julho de 2011














BOUQUET







As cores que comovem o louva-a-deus

estavam ausentes

quando ele abdicou da luz que é mover-se.




Restou-lhe o gris ancorado no pátio

em tarde inerte

até que vieste anunciando

canteiros e aquários de riccias.




Respirou convicto

dançando para a chuva

e mesmo as trevas não duvidaram.




As flores do sol

O céu germinando

raios.








Por Anna Ehre

sábado, 16 de julho de 2011
















A LUA NO CINEMA







A lua foi ao cinema,

passava um filme engraçado,

a história de uma estrela

que não tinha namorado.




Não tinha porque era apenas

uma estrela bem pequena,

dessas que, quando apagam,

ninguém vai dizer, que pena!




Era uma estrela sozinha,

ninguém olhava pra ela,

e toda a luz que ela tinha

cabia numa janela.




A lua ficou tão triste

com aquela história de amor

que até hoje a lua insiste:

— Amanheça, por favor!








Por Paulo Leminski
















AUTO-RETRATO NUM AVIÃO

em classe económica







Dobrado como um embrião,

esmagado num assento estreito,

tento recordar

o aroma do feno recém-cortado

quando em Agosto as carroças de madeira

descem dos prados de montanha,

baloiçando pelas estradas de terra

e o condutor grita

como os homens sempre gritam quando entram em pânico

- gritaram dessa forma na Ilíada

e nunca mais se silenciaram desde então,

nem durante as Cruzadas,

nem mais tarde, muito mais tarde, próximo de nós,

quando ninguém os escutou.




Estou cansado, penso naquilo o que

não pode ser pensado - no silêncio que reina

nas florestas quando as aves dormem,

sobre o final próximo do verão.

Mantenho a cabeça entre as mãos

como se a protegesse da aniquilação.

Visto de fora, sem dúvida que

pareço imóvel, quase morto,

resignado, merecendo simpatia.

Mas não é assim - sou livre,

talvez mesmo feliz.

Sim, seguro a pesada cabeça

em minhas mãos,

mas dentro nasce um poema.








Por Adam Zagajewski

terça-feira, 12 de julho de 2011





















TU, LEITOR










Pergunto-me como te vais sentir

quando descobrires

que fui eu que escrevi isto em vez de ti,




que fui eu que me levantei cedo

para me sentar na cozinha

e mencionar com uma caneta




as janelas ensopadas pela chuva,

o papel de parede com heras,

o peixe-dourado circulando no aquário.




Vá lá, dá a volta,

morde o lábio e arranca a página,

mas, escuta - era só uma questão de tempo




até que um de nós casualmente

reparasse nas velas apagadas

no relógio murmurando na parede.




Para além disso, nada ocorreu nessa manhã –

uma canção na rádio,

um carro assobiando na estrada lá fora –




e eu simplesmente pensando

no saleiro e no pimenteiro

colocados lado a lado num mantel individual.




Perguntei-me se se haviam feito amigos

depois de todos estes anos

ou se ainda eram estranhos um para o outro




como tu e eu

que conseguimos ser conhecidos e desconhecidos

um para o outro ao mesmo tempo –




eu a esta mesa com uma fruteira de pêras,

tu encostado algures na entrada de uma casa

junto a umas hortênsias azuis lendo isto.










Por Billy Collins

domingo, 3 de julho de 2011
















POEMA








Quando pela primeira vez olhei uma pintura verdadeira

dei alguns passos atrás instintivamente

sobre os calcanhares

procurando o local exacto de

onde pudesse explorar sua profundidade.




Foi diferente com as pessoas:

Construi-as,

amei-as, mas não cheguei a amá-las plenamente.

Nenhuma chegou tão alto quanto o tecto azul.

Como numa casa inacabada, parecia haver uma folha de plástico por cima delas,

por vez do telhado

no princípio do outono chuvoso da minha compreensão.







Por Luljeta Lleshanaku















PASSOS DE VELUDO (título póstumo)


Do not go gently into that good night
Dylan Thomas







Não permitas que a noite se desabe,

habituada e negra. Antes confunde

as regras e as sombras que lhe obedecem,

cegas. Não descanses olhar sobre

o vazio, nem no silêncio seduzindo

em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,

ou tampas de barulho avesso à almofada.

Grita, blasfema, geme em timbre agudo,

mas não deixes a lua, com passos de veludo

entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.

Nem lhe ofereças um lar de cabeceira

e penumbra doente. Argumenta-a de frente

e à seda roçagante dos seus passos;

numa filosofia de algibeira,

resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga

a sua máscara ausente de suor. Não entres

docemente nessa noite. Não entres

tão depressa.







Por Ana Luísa Amaral