sexta-feira, 29 de julho de 2011




UM CONTO EM TERRACOTA










Rita acordou cedo

e encontrou o sol ainda a caminho.

Com a autoridade que tem os sábios

e aqueles que decifram as luas,

falou-lhe com a voz de sereno e baobás:

- Hoje, não.

Eu quero chuva sobre

argila do sonho que eu estou moldando.

Ele a obedeceu e voltou-se para o oriente

assim como fazem aqueles

quando ouvem a voz de quem amam.

Os meteorologistas

não entenderam a súbita mudança do tempo.

A chuva riu-se do termo ”à esclarecer”.

O sol tomou o tempo para descansar.

No dia seguinte,

teria um sonho imenso para cozer.










Por Anna Ehre

quinta-feira, 28 de julho de 2011



 













NO POÇO




O meu pai cingiu a corda,

um nó em torno da minha cintura,

e baixou-me para o interior

das trevas. Pude provar o sabor




do meu medo. Primeiro do escuro,

depois da terra, depois da podridão.

Oscilei e bati com a cabeça

e nesse instante cheguei




a outro medo: o do sangue,

que me fez cerrar ferreamente a boca.

À força de mãos, o meu pai

fez-me passar por tudo isto:




depois a água. Depois o pêlo encharcado,

que abracei contra o peito.

Gritei. E o meu pai puxou a corda

molhada. Desequilibrei-me, apertei




o cão desaparecido do meu vizinho

contra mim. Segurei a sua morte

e ascendi até ao meu pai.

Depois luz. Depois mãos. Depois a respiração.







Por Andrew Hudgins

Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede

sábado, 23 de julho de 2011



















SE PARTIRES, NÃO ME ABRACES










Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha com viagens na pele salgada das ondas.




Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –




o teu perfume preso á minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto

espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.









Por Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 18 de julho de 2011














BOUQUET







As cores que comovem o louva-a-deus

estavam ausentes

quando ele abdicou da luz que é mover-se.




Restou-lhe o gris ancorado no pátio

em tarde inerte

até que vieste anunciando

canteiros e aquários de riccias.




Respirou convicto

dançando para a chuva

e mesmo as trevas não duvidaram.




As flores do sol

O céu germinando

raios.








Por Anna Ehre

sábado, 16 de julho de 2011
















A LUA NO CINEMA







A lua foi ao cinema,

passava um filme engraçado,

a história de uma estrela

que não tinha namorado.




Não tinha porque era apenas

uma estrela bem pequena,

dessas que, quando apagam,

ninguém vai dizer, que pena!




Era uma estrela sozinha,

ninguém olhava pra ela,

e toda a luz que ela tinha

cabia numa janela.




A lua ficou tão triste

com aquela história de amor

que até hoje a lua insiste:

— Amanheça, por favor!








Por Paulo Leminski
















AUTO-RETRATO NUM AVIÃO

em classe económica







Dobrado como um embrião,

esmagado num assento estreito,

tento recordar

o aroma do feno recém-cortado

quando em Agosto as carroças de madeira

descem dos prados de montanha,

baloiçando pelas estradas de terra

e o condutor grita

como os homens sempre gritam quando entram em pânico

- gritaram dessa forma na Ilíada

e nunca mais se silenciaram desde então,

nem durante as Cruzadas,

nem mais tarde, muito mais tarde, próximo de nós,

quando ninguém os escutou.




Estou cansado, penso naquilo o que

não pode ser pensado - no silêncio que reina

nas florestas quando as aves dormem,

sobre o final próximo do verão.

Mantenho a cabeça entre as mãos

como se a protegesse da aniquilação.

Visto de fora, sem dúvida que

pareço imóvel, quase morto,

resignado, merecendo simpatia.

Mas não é assim - sou livre,

talvez mesmo feliz.

Sim, seguro a pesada cabeça

em minhas mãos,

mas dentro nasce um poema.








Por Adam Zagajewski

terça-feira, 12 de julho de 2011





















TU, LEITOR










Pergunto-me como te vais sentir

quando descobrires

que fui eu que escrevi isto em vez de ti,




que fui eu que me levantei cedo

para me sentar na cozinha

e mencionar com uma caneta




as janelas ensopadas pela chuva,

o papel de parede com heras,

o peixe-dourado circulando no aquário.




Vá lá, dá a volta,

morde o lábio e arranca a página,

mas, escuta - era só uma questão de tempo




até que um de nós casualmente

reparasse nas velas apagadas

no relógio murmurando na parede.




Para além disso, nada ocorreu nessa manhã –

uma canção na rádio,

um carro assobiando na estrada lá fora –




e eu simplesmente pensando

no saleiro e no pimenteiro

colocados lado a lado num mantel individual.




Perguntei-me se se haviam feito amigos

depois de todos estes anos

ou se ainda eram estranhos um para o outro




como tu e eu

que conseguimos ser conhecidos e desconhecidos

um para o outro ao mesmo tempo –




eu a esta mesa com uma fruteira de pêras,

tu encostado algures na entrada de uma casa

junto a umas hortênsias azuis lendo isto.










Por Billy Collins

domingo, 3 de julho de 2011
















POEMA








Quando pela primeira vez olhei uma pintura verdadeira

dei alguns passos atrás instintivamente

sobre os calcanhares

procurando o local exacto de

onde pudesse explorar sua profundidade.




Foi diferente com as pessoas:

Construi-as,

amei-as, mas não cheguei a amá-las plenamente.

Nenhuma chegou tão alto quanto o tecto azul.

Como numa casa inacabada, parecia haver uma folha de plástico por cima delas,

por vez do telhado

no princípio do outono chuvoso da minha compreensão.







Por Luljeta Lleshanaku















PASSOS DE VELUDO (título póstumo)


Do not go gently into that good night
Dylan Thomas







Não permitas que a noite se desabe,

habituada e negra. Antes confunde

as regras e as sombras que lhe obedecem,

cegas. Não descanses olhar sobre

o vazio, nem no silêncio seduzindo

em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,

ou tampas de barulho avesso à almofada.

Grita, blasfema, geme em timbre agudo,

mas não deixes a lua, com passos de veludo

entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.

Nem lhe ofereças um lar de cabeceira

e penumbra doente. Argumenta-a de frente

e à seda roçagante dos seus passos;

numa filosofia de algibeira,

resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga

a sua máscara ausente de suor. Não entres

docemente nessa noite. Não entres

tão depressa.







Por Ana Luísa Amaral

sábado, 25 de junho de 2011











PRAÇA DAS FLORES N.º 5




Tarde chuvosa de Verão a redimir
o luminoso e opressivo cansaço de Lisboa.
Abrigo-me numa taberna agora sombria
devido ao cinzento súbito do céu.

Aqui o tempo é uma ferida menor, vejo-o
pelas tardes sempre iguais destes homens
a jogar dominó, a zaragatear por vezes
acerca de importantes questões,
metafísicas inerentes a este jogo.

Que calma, esta do vencido
pagando cervejas aos vencedores,
o vinho tépido servido por alguém
que sem pressas nem angústias
envelhece por detrás do balcão.

É uma calma suave e perturbante, talvez
como a chuva lá fora, e encanta-me
esta singeleza profunda, a sedução de
exauridos olhares que a vinho sobrevivem.

Dir-se-ia ter nos meus ombros
toda a tristeza do mundo, ainda que
o mundo pouco valha ao pé desta taberna
na tarde molhada da cidade. E contudo
sinto-me estranho como em qualquer lugar,
espião não da casa do amor mas na da
morte quotidianamente vivida.

A melancolia pode às vezes ser isto,
um modo de sobreviver ao vazio, o comovido
jeito de pôr a mão sobre o mármore da mesa
e pedir outro martini, fresco
se faz favor.



Por Manuel de Freitas
Arte de Carlos Botelho

sábado, 18 de junho de 2011

















A PROPÓSITO DE ESTRELAS









Não sei se me interessei pelo rapaz

por ele se interessar por estrelas

se me interessei por estrelas por me interessar

pelo rapaz hoje quando penso no rapaz

penso em estrelas e quando penso em estrelas

penso no rapaz como me parece

que me vou ocupar com as estrelas

até ao fim dos meus dias parece-me que

não vou deixar de me interessar pelo rapaz

até ao fim dos meus dias

nunca saberei se me interesso por estrelas

se me interesso por um rapaz que se interessa

por estrelas já não me lembro

se vi primeiro as estrelas

se vi primeiro o rapaz

se quando vi o rapaz vi as estrelas







Por Adília Lopes















NA MORTE DE MARILYN




 



Morreu a mais bela mulher do mundo

tão bela que não só era assim bela

como mais que chamar-lhe marilyn

devíamos mas era reservar apenas para ela

o seco sóbrio simples nome de mulher

em vez de marilyn dizer mulher

Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher

mas ingeriu demasiados barbitúricos

uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha

ou suspeitou que tinha errado a vida

ela de quem a vida a bem dizer não era digna

e que exibia vida mesmo quando a suprimia

Não havia no mundo uma mulher mais bela mas

essa mulher um dia dispõs do direito

ao uso e ao abuso de ser bela

e decidiu de vez não mais o ser

nem doravante ser sequer mulher

O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor

um rosto sem regresso mais que rosto mar

e toda a confusão e convulsão que nele possa caber

e toda a violência e voz que num restrito rosto

possa o máximo mar intensamente condensar

Tomou todos os tubos que tinha e não tinha

e disse à governanta não me acorde amanhã

estou cansada e necessito de dormir

estou cansada e é preciso eu descansar

Nunca ninguém foi tão amado como ela

nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão

Era mulher era a mulher mais bela

mas não há coisa alguma que fazer se certo dia

a mão da solidão é pedra em nosso peito

Perto de marilyn havia aqueles comprimidos

seriam solução sentiu na mão a mãe

estava tão sozinha que pensou que a não amavam

que todos afinal a utilizavam

que viam por trás dela a mais comum imagem dela

a cara o corpo de mulher que urge adjectivar

mesmo que seja bela o adjectivo a empregar

que em vez de ver um todo se decida dissecar

analisar partir multiplicar em partes

Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha

julgou que a não amavam todo o tempo como que parou

quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva

um segundo bastou foi só estender a mão

e então o tempo sim foi coisa que passou



 



Por Ruy Belo





















BEM NO FUNDO









No fundo, no fundo,

bem lá no fundo,

a gente gostaria

de ver nossos problemas

resolvidos por decreto



a partir desta data,

aquela mágoa sem remédio

é considerada nula

e sobre ela — silêncio perpétuo



extinto por lei todo o remorso,

maldito seja quem olhar pra trás,

lá pra trás não há nada,

e nada mais



mas problemas não se resolvem,

problemas têm família grande,

e aos domingos saem todos a passear

o problema, sua senhora

e outros pequenos probleminhas.


 


Por Paulo Leminski

sexta-feira, 10 de junho de 2011
















COM UNHAS E DENTES










Estar vivo

é abrir uma gaveta

na cozinha,

tirar uma faca de cabo preto,

descascar uma laranja.

Viver é outra coisa:

deixas a gaveta fechada

e arrancas tudo

com unhas e dentes,

o sabor amargo da casca,

de tão doce,

não o esqueces.









Por Luís Filipe Parrado


TRABALHO









Debaixo das suas unhas a sujidade era azul escura,

Sujidade vinda dos campos e dos prados,

Azul como as linhas no globo,

Como as cordas de um violino.

No banho não se pôde lavar

Com água e sabão.

Sujidade que penetrou nos sulcos dessas mãos silenciosamente

Como um arado rasgando a terra.

Eu conheço estes dedos tépidos,

Estes dedos bons.

As unhas do meu pai estavam azuis desta sujidade

Mesmo quando ele repousava no seu caixão.

Parecia não estar verdadeiramente morto,

Mas simplesmente a dormitar antes de ir para os campos

Por onde andaria até amanhecer,

Deitando-se de costas com a cabeça entre as palmas das suas mãos.







Por Dritëro Agolli
Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede