sábado, 16 de julho de 2011















AUTO-RETRATO NUM AVIÃO

em classe económica







Dobrado como um embrião,

esmagado num assento estreito,

tento recordar

o aroma do feno recém-cortado

quando em Agosto as carroças de madeira

descem dos prados de montanha,

baloiçando pelas estradas de terra

e o condutor grita

como os homens sempre gritam quando entram em pânico

- gritaram dessa forma na Ilíada

e nunca mais se silenciaram desde então,

nem durante as Cruzadas,

nem mais tarde, muito mais tarde, próximo de nós,

quando ninguém os escutou.




Estou cansado, penso naquilo o que

não pode ser pensado - no silêncio que reina

nas florestas quando as aves dormem,

sobre o final próximo do verão.

Mantenho a cabeça entre as mãos

como se a protegesse da aniquilação.

Visto de fora, sem dúvida que

pareço imóvel, quase morto,

resignado, merecendo simpatia.

Mas não é assim - sou livre,

talvez mesmo feliz.

Sim, seguro a pesada cabeça

em minhas mãos,

mas dentro nasce um poema.








Por Adam Zagajewski

terça-feira, 12 de julho de 2011





















TU, LEITOR










Pergunto-me como te vais sentir

quando descobrires

que fui eu que escrevi isto em vez de ti,




que fui eu que me levantei cedo

para me sentar na cozinha

e mencionar com uma caneta




as janelas ensopadas pela chuva,

o papel de parede com heras,

o peixe-dourado circulando no aquário.




Vá lá, dá a volta,

morde o lábio e arranca a página,

mas, escuta - era só uma questão de tempo




até que um de nós casualmente

reparasse nas velas apagadas

no relógio murmurando na parede.




Para além disso, nada ocorreu nessa manhã –

uma canção na rádio,

um carro assobiando na estrada lá fora –




e eu simplesmente pensando

no saleiro e no pimenteiro

colocados lado a lado num mantel individual.




Perguntei-me se se haviam feito amigos

depois de todos estes anos

ou se ainda eram estranhos um para o outro




como tu e eu

que conseguimos ser conhecidos e desconhecidos

um para o outro ao mesmo tempo –




eu a esta mesa com uma fruteira de pêras,

tu encostado algures na entrada de uma casa

junto a umas hortênsias azuis lendo isto.










Por Billy Collins

domingo, 3 de julho de 2011
















POEMA








Quando pela primeira vez olhei uma pintura verdadeira

dei alguns passos atrás instintivamente

sobre os calcanhares

procurando o local exacto de

onde pudesse explorar sua profundidade.




Foi diferente com as pessoas:

Construi-as,

amei-as, mas não cheguei a amá-las plenamente.

Nenhuma chegou tão alto quanto o tecto azul.

Como numa casa inacabada, parecia haver uma folha de plástico por cima delas,

por vez do telhado

no princípio do outono chuvoso da minha compreensão.







Por Luljeta Lleshanaku















PASSOS DE VELUDO (título póstumo)


Do not go gently into that good night
Dylan Thomas







Não permitas que a noite se desabe,

habituada e negra. Antes confunde

as regras e as sombras que lhe obedecem,

cegas. Não descanses olhar sobre

o vazio, nem no silêncio seduzindo

em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,

ou tampas de barulho avesso à almofada.

Grita, blasfema, geme em timbre agudo,

mas não deixes a lua, com passos de veludo

entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.

Nem lhe ofereças um lar de cabeceira

e penumbra doente. Argumenta-a de frente

e à seda roçagante dos seus passos;

numa filosofia de algibeira,

resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga

a sua máscara ausente de suor. Não entres

docemente nessa noite. Não entres

tão depressa.







Por Ana Luísa Amaral

sábado, 25 de junho de 2011











PRAÇA DAS FLORES N.º 5




Tarde chuvosa de Verão a redimir
o luminoso e opressivo cansaço de Lisboa.
Abrigo-me numa taberna agora sombria
devido ao cinzento súbito do céu.

Aqui o tempo é uma ferida menor, vejo-o
pelas tardes sempre iguais destes homens
a jogar dominó, a zaragatear por vezes
acerca de importantes questões,
metafísicas inerentes a este jogo.

Que calma, esta do vencido
pagando cervejas aos vencedores,
o vinho tépido servido por alguém
que sem pressas nem angústias
envelhece por detrás do balcão.

É uma calma suave e perturbante, talvez
como a chuva lá fora, e encanta-me
esta singeleza profunda, a sedução de
exauridos olhares que a vinho sobrevivem.

Dir-se-ia ter nos meus ombros
toda a tristeza do mundo, ainda que
o mundo pouco valha ao pé desta taberna
na tarde molhada da cidade. E contudo
sinto-me estranho como em qualquer lugar,
espião não da casa do amor mas na da
morte quotidianamente vivida.

A melancolia pode às vezes ser isto,
um modo de sobreviver ao vazio, o comovido
jeito de pôr a mão sobre o mármore da mesa
e pedir outro martini, fresco
se faz favor.



Por Manuel de Freitas
Arte de Carlos Botelho

sábado, 18 de junho de 2011

















A PROPÓSITO DE ESTRELAS









Não sei se me interessei pelo rapaz

por ele se interessar por estrelas

se me interessei por estrelas por me interessar

pelo rapaz hoje quando penso no rapaz

penso em estrelas e quando penso em estrelas

penso no rapaz como me parece

que me vou ocupar com as estrelas

até ao fim dos meus dias parece-me que

não vou deixar de me interessar pelo rapaz

até ao fim dos meus dias

nunca saberei se me interesso por estrelas

se me interesso por um rapaz que se interessa

por estrelas já não me lembro

se vi primeiro as estrelas

se vi primeiro o rapaz

se quando vi o rapaz vi as estrelas







Por Adília Lopes















NA MORTE DE MARILYN




 



Morreu a mais bela mulher do mundo

tão bela que não só era assim bela

como mais que chamar-lhe marilyn

devíamos mas era reservar apenas para ela

o seco sóbrio simples nome de mulher

em vez de marilyn dizer mulher

Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher

mas ingeriu demasiados barbitúricos

uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha

ou suspeitou que tinha errado a vida

ela de quem a vida a bem dizer não era digna

e que exibia vida mesmo quando a suprimia

Não havia no mundo uma mulher mais bela mas

essa mulher um dia dispõs do direito

ao uso e ao abuso de ser bela

e decidiu de vez não mais o ser

nem doravante ser sequer mulher

O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor

um rosto sem regresso mais que rosto mar

e toda a confusão e convulsão que nele possa caber

e toda a violência e voz que num restrito rosto

possa o máximo mar intensamente condensar

Tomou todos os tubos que tinha e não tinha

e disse à governanta não me acorde amanhã

estou cansada e necessito de dormir

estou cansada e é preciso eu descansar

Nunca ninguém foi tão amado como ela

nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão

Era mulher era a mulher mais bela

mas não há coisa alguma que fazer se certo dia

a mão da solidão é pedra em nosso peito

Perto de marilyn havia aqueles comprimidos

seriam solução sentiu na mão a mãe

estava tão sozinha que pensou que a não amavam

que todos afinal a utilizavam

que viam por trás dela a mais comum imagem dela

a cara o corpo de mulher que urge adjectivar

mesmo que seja bela o adjectivo a empregar

que em vez de ver um todo se decida dissecar

analisar partir multiplicar em partes

Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha

julgou que a não amavam todo o tempo como que parou

quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva

um segundo bastou foi só estender a mão

e então o tempo sim foi coisa que passou



 



Por Ruy Belo





















BEM NO FUNDO









No fundo, no fundo,

bem lá no fundo,

a gente gostaria

de ver nossos problemas

resolvidos por decreto



a partir desta data,

aquela mágoa sem remédio

é considerada nula

e sobre ela — silêncio perpétuo



extinto por lei todo o remorso,

maldito seja quem olhar pra trás,

lá pra trás não há nada,

e nada mais



mas problemas não se resolvem,

problemas têm família grande,

e aos domingos saem todos a passear

o problema, sua senhora

e outros pequenos probleminhas.


 


Por Paulo Leminski

sexta-feira, 10 de junho de 2011
















COM UNHAS E DENTES










Estar vivo

é abrir uma gaveta

na cozinha,

tirar uma faca de cabo preto,

descascar uma laranja.

Viver é outra coisa:

deixas a gaveta fechada

e arrancas tudo

com unhas e dentes,

o sabor amargo da casca,

de tão doce,

não o esqueces.









Por Luís Filipe Parrado


TRABALHO









Debaixo das suas unhas a sujidade era azul escura,

Sujidade vinda dos campos e dos prados,

Azul como as linhas no globo,

Como as cordas de um violino.

No banho não se pôde lavar

Com água e sabão.

Sujidade que penetrou nos sulcos dessas mãos silenciosamente

Como um arado rasgando a terra.

Eu conheço estes dedos tépidos,

Estes dedos bons.

As unhas do meu pai estavam azuis desta sujidade

Mesmo quando ele repousava no seu caixão.

Parecia não estar verdadeiramente morto,

Mas simplesmente a dormitar antes de ir para os campos

Por onde andaria até amanhecer,

Deitando-se de costas com a cabeça entre as palmas das suas mãos.







Por Dritëro Agolli
Tradução de Lp, Do trapézio, sem rede

quinta-feira, 5 de maio de 2011



DIVERSOS 1






Eu sou daqui
desta raiz de nogueira
que fende
o mar
deste musgo
orientado ao inverno


desta névoa


sou daqui


sombra
dos dias
que andei
tão


daqui


lento veneno
na garganta
e mortal


os meus restos são esta casa
de espelhos
mudos
que me criam


os baús
guardam
a memória
da casa


anos
enterrados
no fundo


ruínas
que me tocam


os meus dedos
abrem os baús


para dentro




Por rafa villar
Tradução de egito gonçalves 

segunda-feira, 25 de abril de 2011


CONFISSÃO





à espera da morte
como um gato
que saltará sobre a
cama

sinto terrivelmente por
minha esposa


ela verá este
corpo
duro e
branco


vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:


"Hank!"


Hank não
responderá.


não é minha morte o que
me preocupa, é minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.


quero
no entando
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado


que mesmo as discussões
inúteis
sempre foram
esplêndidas


e que as palavras
difíceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:


eu te
amo.





Por Charles Bukowski

domingo, 27 de março de 2011


POEMA







Incrédulo do meu ser

como um nómada preso ao seu caminho

desloco-me em espiral

pelas farpas do tempo

“torrente repleta de vida”

de onde parto esquecido

e regresso desenganado e invisível…

…a porta da memória profunda

com a sua escadaria imponente,

parasitada por imagens gravadas na pedra gelada,

impedem-me de tocá-la…

e no vácuo formas geométricas aberrantes

observam-me sem pudor até as entranhas

tentando compreender

o sentido flagelado

do fogo que lá não arde.







Por Pedro Simões Eira

CONFISSÃO






Sintonizado em barulhos

reconheço o prego

ao ser pregado

o parafuso

ao ser enroscado

a água

ao ser fervida

o dia

ao ser mudado

para a tarde

noite

dos regressos




ser fechado

confesso o crime

de escutar a vida

por todos os lados.









Por Pedro Du Bois
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sábado, 5 de março de 2011



PRECES DE UM POETA EM FASE DE BERÇÁRIO






que onde houver fronteira,

eu tenha muita asa!

que carolina consiga encontrar

sua sombrinha cor-de-rosa

perdida pela casa!



pois, antes, em mim havia

um acúmulo de silêncios,

uma demora profunda

do punhal no peito,

uma dor-dor como a de um

caminhão de crianças

caindo na ribanceira,



mas hoje nada temo:

nem um trem de ferro dentro da insônia

nem um avião dentro da turbulência



embora eu não me veja como

um deus lembrado

das coisas ainda não-inventadas,



vou sendo um poeta impublicável:

à beira de ser tudo,

consigo ser só

quase



– embora, por vezes, feliz

como o primeiro cego

a ouvir gramofone






Por Wilson Nanini
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