quarta-feira, 12 de maio de 2010



A ALMA DO SOLDADO





todos os dias são como uma marcha rigorosa

me apresento de prontidão, bato continência

o grito de guerra arranha para sair, mas sai

marchando com os pés firmes

surgem os obstáculos

afogo

tropeço

caio com a cara na terra

aprende-se a ser humano nessas marchas

aprende-se que o erro é inevitável

aprende-se que temos alma.



temos alma, mas não somos soldados

somos humanos camuflados

e sempre que me levanto da cadeira olho para trás

como se certificasse de não ter esquecido um pedacinho de mim





Por Pedro Paulo
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OS FELIZES DIAS





o dia hoje fracassou

não cumpriu com seu papel

o dia hoje trouxe desafetos, atritos

lágrimas, incompreensões.



inventaram felizes dias

conjunto de dias dos quais hoje faz parte

feliz dia disso, daquilo



venderam uma ideia:

dias felizes têm que ser necessariamente felizes

eu comprei

mas exijo devolução!





Por Pedro Paulo
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domingo, 9 de maio de 2010



OS PASSOS


(Lisette Model. Times Square. 1940)






Nada se sabe dos passos em redor



ocupam espaços que defendem

os silêncios desta cidade.





Por António Amaral Tavares
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quinta-feira, 6 de maio de 2010



NÉVOAS





Cinzas

passado

Suor

e lágrimas



Nada é domável

durmo em sonhos não vividos



Esqueci meus luares imaginários



O último trem levou o lenço

e ainda aceno pelo teu beijo.





Por Carmen Silvia Presotto
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Imagem de AAT

segunda-feira, 3 de maio de 2010



FADO





Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.

Estou assustada à espera que regresses: as ondas já

engoliram a praia mais pequena e entornaram algas

nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que

as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas

que perseguiram os pombos e os morderam.



A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno

à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes

para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda

que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo

de ervas com canela; e há compota de ameixas

e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu



estou assustada. A lua está apenas por metade,

a terra treme. E eu tremo com medo que não voltes.





Por Maria do Rosário Pedreira

domingo, 2 de maio de 2010



AS PONTES DE NOVA IORQUE


(Berenice Abbott. Pike and Henry Streets, Lower East Side. 1936)





O olhar encontra de uma vez só

uma porção ínfima da cidade que se escolheu



o rosto rígido dos edifícios sobre a rua



na continuidade da vista e da rua

uma ponte surge envolta na neblina do dia

em que se chegou



e como uma sombra branca

lembra a ideia vaga de uma partida



é um cavalo sem dono a partida

não se morre duas vezes na mesma cidade.





Por António Amaral Tavares
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sábado, 1 de maio de 2010



Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos

Porque tinha uma mulher no pensamento

Sei que os lavava como se os contasse



Sei que os enxugava com a luz da mulher

Com os seus olhos muito claros voltados para o centro

Do amor, na operação poderosa

Do amor



Sei que cortava os cabelos para procurá-la

Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados



Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava

O cabelo no seu sangue



Na água corrente



Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir

E a mulher cantava para o homem respirar





Por Daniel Faria
Quadro de Marc Chagall


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos – digo,

As mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados

Ao peso dos pássaros que se abrigam.



É à janela dos filhos que as mulheres respiram

Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas

Transformam-se em escadas



Muitas mulheres transformam-se em paisagens

Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram

Nos ramos – no pescoço das mães – ainda que as árvores irradiem

Cheias de rebentos



As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente. Transformam-se em pomares.

Elas arrumam a casa

Elas põem a mesa

Ao redor do coração.





Por Daniel Faria
Quadro de Marc Chagall

terça-feira, 27 de abril de 2010

Cara Carmen: cometi a indelicadeza de te roubar este vídeo imperdível.

segunda-feira, 26 de abril de 2010



SECO NO MOLHADO





Sabe o que faz

recolhe-se no obscuro, desconhecido

não se deixa escapar

resigna-se

sabe o que faz

execra, insulta

ergue uma parede

suja, marcada

pintura fresca

cimentada, bloqueada

não sabe o que faz

ambiciona, procura, deseja, espera

não encontra

não sabe o que faz

mas vive a dizer que sabe.





Por Pedro Paulo
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Fotografia de Robert Parkeharrison



domingo, 25 de abril de 2010



AS ESCADAS DE INCÊNDIO

(Autor não identificado. Escadas de incêndio em ferro. Data desconhecida)




Há algo de indiscreto nesta fotografia



no brando sentar da tarde

um esgar de medo se descobre



é a interrupção de um muro



assim tão intestinal e exposto

neste rosto irremediável da cidade

encontrou-se ao que parece

a sua dimensão interior



aquela que mais fala aos seus habitantes

o belo que guarda em si



acontece muito nesta cidade de todos



começou no rosto a palavra

mas não foi morrer aí.





Por António Amaral Tavares
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sábado, 24 de abril de 2010



A COMPAIXÃO





Algum tempo depois alguns amigos

abeiraram-se de mim abeirado

do poço de onde só o eco vinha

aos meus apelos: disseram-me é em

vão pousando ternamente as mãos nos

meus ombros nos meus braços ternamente

as mãos nas minhas mãos que era melhor

desistir: rareavam os retornos

das quedas àquela profundidade.



Já em casa tive ao telefone outros

amigos amigos que vivem no

outro lado do mundo perguntando

como te sentes? dizendo que a viram

quase hesitante – alguns juraram mesmo

que ela hesitou – abeirada do poço

mas o poço varava o mundo e não

havia perto possuidor de

corda bastante para o meu resgate.



Afectei acreditar e também

que sabendo de todas estas coisas

era deveras menos infeliz.





Por António Gregório
Quadro de Edvard Munch

quarta-feira, 21 de abril de 2010



FUGIDIO





Vem em favos,

de suspense verde dura um átimo.

Num cicio silencioso

- solta-

se do ca-

cho –



Desliza maduro em meu rosto

o seu afago.





Por Fernanda Marra
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terça-feira, 20 de abril de 2010

APOCALIPSE, AGORA





Eis o arame do teu nome vibrando no nevoeiro. As palavras aladas de Homero enchem também os ouvidos das ruas, chamando por ti. É de manhã dir-se-ia o olhar ensonado dos pássaros, um lampejo de esperança, o cheiro primitivo do pão.
Abrem-se persianas. O piano de Schubert invade o corpo da música. Estremecem os gonzos da imaginação. Desaparecem assim abracadabra os noventa e sete apartamentos do Mário Bruno, as noventa e sete prisões dos coelhos mansos.
Contam que é uma festa no cais das colunas, com a chegada do primeiro remador.
Somos, finalmente, descobertos.
Já podes vir, meu amigo, vestido de pombo branco, comer o arroz integral da minha mão.
Se soubesses como é boa agora esta vida rústica, sem automóveis, sem helicópteros fiscalizando as pontes, os desesperos, os suicidas, sem neo-realistas e peixes de pântano congelado.
Já podes enroscar-te no meu tronco flectido, num acto solene de libertação do vento do amor. Acariciar a nuca dos jardins. Ternamente, como um pintor ingénuo




Por Manuela Parreira da Silva
Excerto vídeo de Apocalypse Now, de Francis F. Coppola

domingo, 18 de abril de 2010



O HOMICÍDIO


( Weegee. Assassinato em Hell’s Kitchen. 1944)





É a reportagem de uma morte



um homem jaz no passeio que outrora

o viu caminhar



na construção vã do seu orgulho

a cidade reclama vítimas



é mais funda a solidão nesta morte pública



o rosto no chão esmaga-se

por não poder cair mais



a pistola caída é um ponto final no abandono.






Por António Amaral Tavares
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