quinta-feira, 22 de maio de 2014

ÁRVORE DA ESPERANÇA, MANTENHA-SE FIRME!




Este não é um poema sobre trigo

Este não é um poema sobre um útero transpassado
não é um poema sobre fraturas
nem sobre a dor que desenha cores impossíveis

Este não é um poema sobre Frida Kahlo
Este não é um poema até o enterrarmos
até cada um dos nãos, sementes mortas, germinar um pássaro

Este é um poema sobre pão




Por Anna Ehre

Arte por Edmundo Simas





Abriu no colchão as valas possíveis
e enterrou por ordem alfabética
cada parte do corpo: os pêlos
os pântanos as unhas encravadas
e as unhas que outros cravaram pelas coxas.
Estudou cuidadosamente as ondas as horas
para que não restassem dúvidas
sobre os caminhos marítimos
para a noite. Por fim
podou as janelas do quarto,
bebeu o vinho;
roeu a carne do quarto
até não sobrar nenhum coração.





Por Catarina Nunes de Almeida
Arte de Edward Hopper

segunda-feira, 28 de abril de 2014






ARTÉRIA, TU TENS RAZÃO




A única coisa que eu aprendi meu Deus
a sofrer a desilusão duma passagem de rua
ficar com o lado esquerdo a ajudar a falar
mas a única coisa que eu aprendi

Que um bocado de vidro inundasse de luz uma artéria
eu era um bocado de vidro que não inundasse de luz
artéria nenhuma
era uma desilusão a olhar para mim
e dizer movimento de rua
é assim movimento de rua
aí está nós cá estamos nós somos tal e qual
uma desilusão em passagem.

Tinha era ainda mais que tudo isso
um inchaço dum vidro em bocado
espetado em cima de pedra.

Havia um estendal de desilusão a devorar-me
todo com os olhos
eu era uma continuação do meu ser.
Onde um simulacro estava a vantagem
de uma desilusão.
Eu não
eu cá.
Que um cá estamos considerasse ou não
eu não tinha nada com isso

Eu fum, eu...
Ah,
Havia é que era eu cá estamos nada disso
eu cá não eu nada eu não tinha eu não tenho
tu quê
nós consideramos.
Onde punha fum
tudo por dentro era duma urania
tudo por dentro era duma constipação palpável
pelo sentido da pedra e do bocado de vidro.
Não eu cá não vou.

Quem olha descontenta.




Por António Gancho

Imagem de “A Mosca” de David Cronenberg

quinta-feira, 3 de abril de 2014








DISCRETA NATAÇÃO



Tudo sempre coincidiu
para lá de toda a coincidência

Dizias, eis as lágrimas
e havia chuva ou uma faca de
luz dentro dos olhos

Ficavas calado no jardim
para que usassem pássaros
o teu silêncio
Afinavam pela rouquidão terrestre
quando as folhas imitavam o ar
desenhando o vento inteiro

Entretanto, elaboravam as nuvens
castelos de que fugiam, esse modo
de apenas desaparecerem no mar

A mesma água oferecia o brilho dos peixes
e a discreta natação dos afogados




Por José Manuel Teixeira da Silva

quarta-feira, 2 de abril de 2014







[Morro do que há no mundo]





Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.


por Cecília Meireles

sábado, 15 de março de 2014







CIDADE DOS DESAPARECIDOS





Muitas vezes não amei Lisboa,
não soube amá-la ao anoitecer
dos dias úteis, quando era gasta,
parada e suja, e nos autocarros
quase vazios viajava de luz acesa
a entranhada tristeza do mundo
que foi a minha primeira e mais
precoce intuição. Grande cidade
dos desaparecidos, eu não tive
tantas vezes a saúde de gostar
dos teus pequenos jardins
abandonados. Quando nos cafés
já iam desligando as máquinas
e do outro lado da linha ninguém
voltava jamais a responder
como eu queria, quantas vezes
não pude achar o sítio e o sossego
para esquecer e dormir? Mesmo assim,
eu não te fiz justiça, Lisboa, quando
me deixei de ti: eu não era exemplo,
eu sempre estranhei um pouco a cama
da vida.





Por Rui Pires Cabral


quinta-feira, 6 de março de 2014






Ars Magna

para o Clemen, com um arrepio



O que é a magia, perguntas
num quarto escuro.
O que é o nada, perguntas,
ao saíres do quarto.
E o que é um homem a sair do nada
e a regressar sozinho ao quarto.











Por Leopoldo Maria panero

quarta-feira, 5 de março de 2014






O UIVO




Eu vi os expoentes da minha geração destruídos
pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de
madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo
antigo contacto celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e
olheiras fundas, viajaram fumando sentados na
sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos
sem água quente, flutuando sobre os tectos das
cidades contemplando jazz, que desnudaram os seus
Cérebros ao céu sob o Elevador e viram anjos maometanos
cambaleando iluminados nos telhados das casas dos
cómodos que passaram por universidades com olhos frios
e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de
William Blake entre os estudiosos da guerra, que
foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura
descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro
em cestas de papel, escutando o Terror
através da parede.

Que foram detidos nas suas barbas púbicas voltando por
Laredo com um cinturão de marijuana para Nova Iorque, que
comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam
terebentina em Paradise Alley, morreram
ou flagelaram seus os torsos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília,
álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trémula e
clarão na mente pulando nos postes dos
pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o
mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de
quintal com verdes árvores de cemitério, bebedeira
de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio
na luz cintilante de neon do tráfego na corrida
de cabeça feita de prazer, vibrações de sol e lua e
árvore no ronco de crepúsculo de inverno de
Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave
soberana luz da mente,


que se acorrentaram aos vagões do metro para o
infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx
de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças
os trouxesse de volta, trémulos, a boca
rebentada e o despovoado deserto do cérebro
esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do
zoológico, que afundaram a noite toda na luz
submarina de Bickford's, voltaram à tona e passaram
a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi's escutando
o matraquear da catástrofe na vitrola automática de
hidrogénio, que falaram setenta e duas horas sem parar
do parque ao bar ao Hospital Bellevue, do Museu
à Ponte de Brooklyn, batalhão perdido de debatedores
platónicos saltando dos gradis das escadas de emergência
dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando factos e
lembranças e anedotas e viagens visuais e
choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total
com os olhos brilhando por sete dias e noites,
carne para a sinagoga jogada na rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum
deixando um rasto de cartões postais
ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas
nos ossos e enxaquecas da China por causa da
falta da droga no quarto pobremente mobiliado de
Newark, que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio
da estação ferroviária perguntando-se onde ir e
foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de
carga, vagões de carga que rumavam
ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro
da noite do avô, que estudaram Plotino, Poe,
São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos
instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando
anjos índios e visionários que eram anjos
índios e visionários, que só acharam que estavam
loucos quando Baltimore apareceu em êxtase
sobrenatural, que pularam em limusines com o chinês
de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das
ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando
jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol
brilhante para conversar sobre a América e a Eternidade,
inútil tarefa, e assim embarcaram num navio
para a África, que desapareceram nos vulcões do México
nada deixando além da sombra das suas calças
rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas na
lareira Chicago, que reapareceram na Costa Oeste
investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos
pacifistas e sensuais nas suas peles morenas,
distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos nos seus braços
protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco
do Capitalismo,


que distribuíram panfletos supercomunistas em Union
Square, chorando e despindo-se enquanto as
sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto
que eles e gemiam pela Wall Street e
também gemia a balsa de Staten Island,
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos,
nus e trémulos diante da maquinaria de
outros esqueletos,
que morderam policias no pescoço e berraram de prazer
nos carros de presos por não terem
cometido outro crime a não ser a sua transacção
pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no Metro e foram arrancados do
telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas
santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins
humanos, os marinheiros, carícias de amor
atlântico e caribeano,
que fizeram amor pela manhã e ao cair da tarde em
roseirais, na relva de jardins públicos e
cemitérios, espalhando livremente o seu sémem para quem
quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas
acabaram choramingando atrás de um
tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio
atravessá-los com a sua espada,
que perderam as suas crianças amadas para as três megeras
do destino, a megera caolha do dólar
heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do
ventre e a megera caolha que só sabe ficar
plantada sobre o seu rabo retalhando os dourados fios
intelectuais do tear do artesão,
que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de
cerveja, uma namorada, um maço de
cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram
pelo assoalho e pelo corredor e terminaram
desmaiando contra a parede com uma visão da cona
final e acabaram sufocando um derradeiro
lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de raparigas
trémulas ao anoitecer, acordaram de olhos
vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para
adoçar trepadas na aurora, rabos luminosos
nos celeiros e nus no lago,
que foram foder em Colorado numa miriade de carros
roubados à noite, N.C. herói secreto destes
poemas, garanhão e Adonis de Denver — prazer ao
lembrar das suas incontáveis trepadas com
miúdas em terrenos baldios & pátios dos fundos de
restaurantes de beira de estrada, raquíticas
fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha,
cavernas ou com esquálidas garçonetes no
familiar levantar de saias solitário à beira da
estrada & especialmente secretos solipsismos de
mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram
transportados em sonho, acordaram num
Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma
impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror
dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam
até as agências de emprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de
sangue pelo cais coberto por montões de
neve, esperando que se abrisse uma porta no Bast River
dando num quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de
apartamentos do Hudson à luz de holofote
anti-aéreo da lua & as suas cabeças receberão coroas de
louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou
digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos
rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com os seus
carrinhos de mão cheios de cebola e péssima
música,


que ficaram sentados em caixotes respirando a
escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir
clavicêmbalos nos seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de
chamas sob um céu tuberculoso rodeados
pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre
invocações sublimes que ao amanhecer
amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem
sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé
rabo borsht & tortillas sonhando com o
puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que atiraram os seus relógios do telhado fazendo o seu lance
de aposta pela Eternidade fora do Tempo & os
despertadores caíram nas suas cabeças por todos os
dias da década seguinte,
que cortaram os seus pulsos sem resultado por três vezes
seguidas, desistiram e foram obrigados a
abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam
ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de
flanela em Madison Avenue no meio das
rajadas de versos de chumbo & o contido estrondo dos
batalhões de ferro da moda & os guinchos de
nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás
mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram
atropelados pelos táxis bêbedos da Realidade Absoluta,
que se lançaram da Ponte de Brooklyn, isto realmente
aconteceu e partiram esquecidos e
desconhecidos para dentro da espectral confusão das
ruelas de sopa & carros de bombeiros de
Chinatown, nem mesmo uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se pela
janela do metro, saltaram no imundo rio
Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela
rua afora, dançaram sobre garrafas
quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos
discos de jazz europeu dos anos 30 na
Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no
toalete sangrento, lamentações nos
ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando
pela solidão da vigília de cadeia do
Golgota de carro envenenado de cada um ou então a
encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas
horas para saber se eu tinha tido uma visão
ou se tu tinhas tido uma visão ou se ele tinha tido
uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que
retornaram a Denver & esperaram em
vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando
& solitários em Denver e finalmente
partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está
saudosa dos seus heróis,
que caíram de joelhos em catedrais sem esperança
rezando pela sua salvação e luz e peito até que a
alma iluminasse o seu cabelo por um segundo,

que se rebentaram nas suas mentes na prisão
aguardando impossíveis criminosos de cabeça
dourada e o encanto da realidade nos seus corações que
entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou
as Montanhas Rochosas para o suave Buda
ou Tanger para os miúdos ou Pacífico Sul para a
locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o
cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o
túmulo,

que exigiram exames de sanidade mental acusando o
rádio de hipnotismo & foram deixados com a
sua loucura & as suas mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da
Universidade de Nova Iorque sobre Dadaísmo e
em seguida se apresentaram nos degraus de granito do
manicómio com cabeças raspadas e fala de
arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da
insulina metrasol choque eléctrico hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue &
amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa
simbólica de pingue-pongue, mergulhando
logo a seguir na catatonia,
voltando anos depois, realmente calvos excepto uma
peruca de sangue e lágrimas e dedos para a
visível condenação de louco nas celas das
cidades-manicómio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores
fétidos, lutando com os ecos da alma,
agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão
à meia-noite dos domínios de mausoléu
druídico do amor, o sonho da vida um pesadelo, corpos
transformados em pedras tão pesadas
quanto a lua, com a mãe finalmente ****** e o último
livro fantástico atirado pela janela do cortiço e
a última porta fechada às 4 da madrugada e o último
telefone arremessado contra a parede em
resposta e o último quarto mobilado esvaziado até à
última peça de mobília mental, uma rosa de
papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário
e até mesmo isso imaginário, nada mais
que um bocadinho esperançoso de alucinação —
ah, Carl, enquanto tu não estiveres a salvo eu não
estarei a salvo e agora tu estás inteiramente
mergulhado no caldo animal total do tempo —
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados
por um súbito clarão da alquimia do uso da
elipse do catálogo do metro & do plano vibratório
que sonharam e abriram brechas encamadas no Tempo &
Espaço através de imagens justapostas e
capturaram o arranjo da alma entre 2 imagens visuais e
reuniram os verbos elementares e juntaram
o substantivo e o choque de consciência saltando numa
sensação de Pater Omnipotens Aeterni Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
humana e ficaram parados à sua frente, mudos e
inteligentes e trémulos de vergonha, rejeitados
todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo
do pensamento na sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo,
desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que
houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem
fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada
da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente
nua da América pelo amor num grito de
saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com
que as cidades tremessem até ao seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado para
fora dos seus corpos bom para comer por
mais mil anos.




Por Allen Ginsberg

tradução de Gomes Alves

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O MAPA




Sempre senti a matemática como uma presença
física, em relação a ela vejo-me
como alguém que não consegue
esquecer o pulso porque vestiu uma camisa demasiado
apertada nas mangas.
Perdoem-me a imagem: como
num bar de putas onde se vai beber uma cerveja
e provocar com a nossa indiferença o desejo
interesseiro das mulheres, a matemática é isto: um
mundo onde entro para me sentir excluído;
Para perceber, no fundo, que a linguagem, em relação
aos números e aos seus cálculos, é um sistema,
ao mesmo tempo, milionário e pedinte. Escrever
não é mais inteligente que resolver uma equação;
Porque optei por escrever? Não sei. Ou talvez saiba:
entre a possibilidade de acertar muito, existente
na matemática, e a possibilidade de errar muito,
que existe na escrita (errar de errância, de caminhar
mais ou menos sem meta) optei instintivamente
pela segunda. Escrevo porque perdi o mapa.





Por Gonçalo M. Tavares

Arte de Thomas Parker williams

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014









O VASO




Vi como retiraste do vaso a terra,
e da terra as raízes da planta desconhecida.
Depois, com a tesoura de ferro,
cortaste o caule no ponto
certo. Em seguida, renovaste
a terra no vaso.
enterraste nela de novo a planta
que ressurgiu, surdamente,
na manhã de primavera
que sempre finda.
Agora, desvia um pouco o olhar,
repara em mim agora: vês as raízes,
o caule dobrado, a flor, o nome?
Por que não me cortas os braços, as mãos,
os pés, o tronco, e espalhas tudo
aos bocados pela terra?
Só preciso de um pouco de água:
em todos os lugares crescerei para ti.





Por Luís Filipe Parrado

Arte de Matisse

domingo, 2 de fevereiro de 2014









MEU AMIGO




Depois de tudo, no vazio
da manhã inabitável,

ajuda-me a negar
este remorso:

eu só queria uma canção
que não morresse

e a hipótese de um poema
que não fosse

o lugar onde me encontro
uma vez mais,

sem desculpa, sem remédio,
diante de mim mesmo.





Por Rui Pires Cabral

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014








Uma mulher rasga loucuras em verso. Na noite. Que o dia frívolo, num asseio de menino bem, escarnece da morte e desdenha dos medos. E a beleza do que nasce não é gratuita, é sangue escuro e lágrimas quentes e torreões de medos e solidões. E a tenaz dos sonhos e os campos de flores silvestres. Também.
Que sabes da mulher que escreve na noite?
Dos vícios malditos da alma,
dos despertares que não dormem,
da razão que cria monstros banhada em loucura,
dos enredos e segredos que crescem avulsos,
das conjuras de um destino que nasceu antes, rei e senhor?
A pele é só a fronteira mate da violência que tem dentro, feita de demónios e mundos de sete luas pintadas. E grita em silêncio e quando chora ri e é o tudo e o seu contrário numa escada que serpenteia dos céus abonados aos infernos mais fundos.  E é bela a Flor, mas maldita.
Há versos que nascem paridos da insónia e, na noite, a princesa olha o espelho e toda a vaidade se esvai e ela é um cadáver que chora. 




Por Elisabete Albuquerque

Mais poesia sua em  http://a-didascalia.blogspot.pt/

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014














SELFIE



diariamente
pessoas sentam-se em uma bacia sanitária
(outras não têm mais do que o chão)
onde despejam dejetos de um corpo precário
resíduos do que foi no dia anterior a sálvia, a carne, a pimenta 

o que antes era aroma sobre uma mesa
agora desprende odores da acidez azeda e fétida
que serão levados pela água de colônia e hidratante
(enquanto outros não reconhecem sabão)

falta água
falta privada
mas sobram, em aparelhos móveis,
máquinas fotográficas
que registram os lábios vermelhos da garota
e os dentes brancos do presidente
testemunhando um ditado antigo:
a ausência nos olhos dos outros não arde

o que falta não fede, nem cheira
no rosto que se repete, repete, repete, repete,
como cada gota desperdiçada de uma torneira




Por Anna Ehre
Mais poesia sua em http://cantarocantar.tumblr.com/


sábado, 25 de janeiro de 2014








SIDARTA





Um cavalo
branco
pode ser
o silêncio
absoluto,
se assim quer o deus
que brinca
entre os cascos.

Toda estrela
que brilha e pulsa
nasce
de dentro de uma árvore.





Por Micheliny Verunschk

Fotografia de Amar Dev

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014







LAVOISIER



Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto
e caligráfico,
já sonha
outra forma.




Por Carlos De Oliveira

Imagem de “O Sacrifício” de Andrei Tarkovsky