quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013








[PONHO PALAVRAS ONDE VOU MORRER]





ponho palavras onde vou morrer
e estremeço porque a vida se dissipa
como água derramada no soalho

entre muitas outras coisas escrever
é procurar nos confins

além tempo e sucessão de espaços
a demorada nomenclatura do efémero





Por Miguel-Manso

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013








PÃO




De que recantos da minha vida
surgiu na sala agora esta gente.

Falam para mim entre si não
e os mortos estão ausentes.

Esta preocupação de onde vem
de em casa não haver gota de pão.




Por Francisco José Craveiro de Carvalho







LATITUDES DO CAVALO 




Quando o mar tranquilo conspira armaduras
E as suas morosas e abortadas
correntes engendram monstrinhos,
A navegação tem certa a morte.
Horrífico instante
E o primeiro animal vai borda fora
Patas com toda a fúria devorando
O próprio galope obstinado e verde.
E erguem-se as cabeças
Equilíbrio
Delicado
Suspensão
Aceitação
Na ânsia das ventas mudas
Depuradas com cuidado
E seladas.




Por Jim Morrison
Tradução de Manuel João Gomes

domingo, 10 de fevereiro de 2013








CONSOANTES ÁTONAS





Emudecer o afe(c)to português?
amputar a consoante que anima
a vibração exa(c)ta 
do abraço, a urgência

Tá(c)til do beijo? Eu não nasci
nos Trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile(c)to norte.





Por Inês Lourenço

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013














À meia-noite, há uma menina que aprende a andar de bicicleta. E o som da campainha do guiador, riso fresco de criança, insinua-se através da janela, aberta, porque é uma noite de Verão e o calor.
No tempo em que os anos me cabiam nas mãos, também eu. O cesto da bicicleta branca que haveria de ter quando crescida estava repleto de flores que pedalavam rua abaixo numa liberdade feita de vento no rosto, loucura sem tino. Quando crescida, pensou ser devaneio de menina. Sonho aguardado, sonho relegado. Sonho que não cabe, afinal, em tempo algum.

Quem salvaria o mundo esta noite? Foste tu quem te escolheste, pois eu pensei que quisesse falar de amor.






Por Elisabete Albuquerque
arte de Aileen Leijten 

domingo, 27 de janeiro de 2013








TODAS AS PALAVRAS





As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.




Por Manuel António Pina

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013








 [Pela terceira vez...]




Pela terceira vez
saio à tua procura.

Procuro-te
nos sítios onde te encontrei até ontem:
nos bares do costume, nos terraços, dando um passeio de bicicleta.

Hoje é dia de festa,
chove pela primeira vez no verão.

Não encontro abrigo para a minha solidão.
Queria encontrar-te debaixo de todos os guarda-chuvas.
Queria abraçar-te debaixo das arcadas.

Tenho vertigens só de pensar que
estás em algum sítio onde não estou.







Por Jon Benito
Tradução de Lp, do trapézio sem rede

sábado, 5 de janeiro de 2013










VERMEER




Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração,
dia após dia, não verter o leite
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece
o fim do mundo.





Por Wisława Szymborska

Tradução de Teresa Swiatkiewicz
Arte de Vermeer







ENCONTRO





Ele não apareceu.
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele.
Talvez se tenha esquecido do relógio,
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo.
Talvez o carro não pegasse,
ou tenha ficado avariado a meio do caminho.
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral
ou que a mãe dele tinha morrido.
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido.
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
tenha sido despedido e esteja a esconder
a cabeça debaixo de uma almofada.
Talvez a ponte estivesse fechada e
a seguinte também.
Talvez o semáforo permanecesse vermelho.
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera
do porta-moedas.
Talvez tenha perdido os óculos,
não conseguisse deixar de ler,
houvesse um programa que ele queria acabar de ver,
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta,
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e
o cão dele de repente começasse a vomitar.
Talvez não houvesse um telefone por perto,
não encontrasse o restaurante
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
Talvez – a última possibilidade,
incompreensível e inesperada –
ele tenha deixado de me amar.





Por Hagar Peeters
Tradução de Maria Leonor Raven-Gomes
imagem de AAT

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013










CHAPEUZINHO VERMELHO





O lobo é o cheiro
(da noite)
O lobo é o passo
(do gato)
O lobo são os olhos
(do touro)
É a lua,
O uivo da faca.

O lobo é a dor
(do relógio)
O lobo é o caminho
(mais curto)
O lobo é a cesta de doces
O lobo é o talho
É o susto.

O lobo é o pelo
(do lobo)
O lobo é a pele
(macia)
O lobo é a língua
(pingando)
É o baile e a máscara:

O lobo é menina.




Por Micheliny Verunschk

sábado, 8 de dezembro de 2012







dylan thomas deu-me o pintassilgo para cantar
o meu pranto. o pintassilgo entrou pelo sol
da manhã e ficou ali parado uma eternidade.
quedo ao pé da minha alma. as asas moviam os esqueletos
do meu ser. e meu ser estava afogado. imundo. longe
como um desterrado. e o que pode um desterrado calar.
o que é que não pode reclamar. um desterrado é quem
mais sofre no mundo. um desterrado tem de ter o pintassilgo
de dylan para fazer justiça. para matar a ditadura.
para não deixar de chover. é só isso o que pode
fazer um desterrado. quer dizer o meu coração.






Por Rogelio Guedea









 [QUEM VIVE PARA O AMOR ESTÁ LIXADO]





Quem vive para o amor está lixado
não tarda, que o amor é um amplo espaço
vazio sem cor nem forma e um silêncio
tumular por dentro. Mau, muito mau
para se levar alguém. Mas tu vieste
e de imediato tudo fôra já decidido
como quando alguém nasce e olha em torno
– pouco importa se estranha ou não a paisagem.
Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos
a nós, um ao outro por natural companhia
era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer
disso. E tínhamos o tempo todo para ver.





Por Rui Caeiro

terça-feira, 20 de novembro de 2012








OS ESTRANGEIROS





podem não acreditar
mas há pessoas
que passam pela vida  quase
sem
conflitos ou
sofrimento.
vestem bem, comem
bem, dormem bem.
estão satisfeitos com
a  sua vida
familiar.
têm momentos de
tristeza
mas considerando tudo
não há perturbações
e muitas vezes sentem-se
muito bem.
e quando morrem
é uma morte
santa, enquanto dormem
em geral.

podem não acreditar
nisto
mas há pessoas
assim.

mas eu  não  sou uma
delas.
oh não, não sou uma
delas.
nem sequer estou
perto
de ser  uma
delas

mas elas estão
aqui

e eu
também.





Por Charles Bukowski
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho
fotografia de Annika Ruohonen

sábado, 17 de novembro de 2012










FALSO RETRATO DE ANDY WARHOL




não penso
transcrevo conversas telefónicas ou falo
com a noite de new york
ou não falo e gravo a voz dos outros filmo
obsessivamente a morte
ou não filmo e multiplico cadeiras eléctricas
excito-me
sou o centro do mundo dos outros e
não existo
ou é a vida que me atravessa o sexo
e finjo a morte ou cintilo
como o diamante









Por Al Berto
Arte Auto-retrato de Andy Warhol

quinta-feira, 15 de novembro de 2012