domingo, 5 de agosto de 2012









TRÓIA




 Toda saudade
repousa nas palavras,
tem cheiro de pinho
e ossos muito brancos.
Toda saudade:
velas arreadas
dos mastros dos batéis,
última visão da chama apagando,
canção de helenas nuas
perdida nos lábios de Ílion.
Em tudo,
o teu nome de pedra,
Saudade,
cadela morta.




Por Micheliny Verunschk

sábado, 4 de agosto de 2012















liga-me à sua maneira, diz do marido

uma mulher cheia de nódoas negras

ainda ontem me ofereceu

um ramo de margaridas

foi depois desta

e levanta a blusa e aponta

para uma negra na barriga

e antes desta, mostra outra

um ramo de violetas

bem cheirosas, ainda não murcharam

vai variando nas flores para

ver se me mantém entretida

que quer que quer é a vida...










Por Bénédicte Houart 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012











PARIS





nunca
mesmo em tempos mais calmo
alguma vez
sonhei
andar de bicicleta por aquela
cidade
usando uma boina

e
Camus
sempre
me chateou.




Por Charles Bukowsky
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

domingo, 29 de julho de 2012










ESPIRAL





A noite é um morcego manso
sobrevoando uma cidade quase adormecida,
tomando cada rua, cada casa,

como um cheiro adocicado de fruta
quase apodrecida que penetrasse uma casa,
ganhasse cada quarto, cada sala,

como cheiro morno de coisa morta
ainda há pouco se espalhando
por uma cidade quase entorpecida,

como uma noite que descesse sobre casas
mortas, como uma peste,
como se nunca houvesse havido dia.

A noite é um morcego morto.






Por Paulo Henriques Britto
Fotografia de Maria Avelino

terça-feira, 24 de julho de 2012










À MANEIRA DE SZYMBORSKA





Chegados a este ponto
talvez tudo devesse ser mais simples,
a palavra lua não deveria nomear nada mais
do que a lua,
e os rios deveriam seguir até ao seu destino
sem serem alterados
pelas metáforas.
Talvez a palavra solidão não devesse
significar outra coisa além da ausência
de acontecimentos
e a palavra silêncio pudesse servir só
para calar os ruídos.

Com a língua talvez tudo devesse ser
mais simples, sem voltas
nem requebros, deixando-nos
com duas ou três questões
para seguir em frente:
um porquê, algum não sei.
E, depois, fechar a porta
que, neste caso,
deveria significar unicamente
fechá-la.






Por Berta Piñan
Tradução Lp, Do trapézio sem rede (http://arspoetica-lp.blogspot.pt/)

sexta-feira, 20 de julho de 2012






SOLANGE F, 2011





Lupita está a morrer desde sempre,
como todos nós. Mas tivemos de o saber hoje,
pela tua voz, poucas horas depois de Amy Winehouse
ter sucumbido ao peso da última canção.

A amizade, por vezes, tem a nitidez de uma lâmina;
ajuda-nos a perceber a noite de que somos feitos,
inscreve na pele exausta um sorriso desarmado.




Por Manuel De Freitas

domingo, 15 de julho de 2012







CHET BAKER




Amarga coincidência essa de te fotografarem
sentado no peitoril de uma janela tocando
trompete e o modo como morreste. A toada

limpa e morna que se ouvisse se tocavas para alguém
para a cidade ou apenas para a noite são perguntas
com tanto de inútil como de impossível de responder.

Permanece o forte tempero de ironia de que
o jazz é composto esse sorriso à dor uma forma
de unir tudo o que na vida é fuga.
Agora só essa toada de bicho nocturno confirma isso

a ironia a fotografia a forma como morreste e quem sabe
um engano que levasse o tempo de uma queda
de um corpo da janela ao chão da rua.





Por António Amaral Tavares

quinta-feira, 12 de julho de 2012








UMA RAPARIGA




A árvore entrou nas minhas mãos,
A seiva subiu pelos meus braços,
A árvore cresceu dentro do meu peito -
Para baixo,
Os ramos cresceram para fora de mim, como braços.

Tu és árvore,
Tu és musgo,
Tu és violetas com vento sobre elas.
Tu és uma criança - tão alta -
E tudo isto, para o mundo, é disparate.




Por Ezra Pound
Tradução de Fernando Guedes

sexta-feira, 6 de julho de 2012








NO METRO, DEPOIS DA ESTAÇÃO DO OESTE





Próximo já do subúrbio os passageiros envelhecem,
sua face reflecte-se nas janelas sem paisagens.
São estranhos, ainda que de alguma maneira se conheçam,
como essa mulher que subiu na praça do mercado,
com os sacos de compras transbordantes de salsa
por pouco se escapa do abrigo o seu corpo magro,
é como se vestisse roupas alheias,
quiçá não me tenha visto, quiçá eu tampouco quisesse
que me cumprimentasse; assim nos recolhemos numa imaginária
indiferença, como um casal desavindo.

Estrangeiros, ainda que de alguma maneira conhecidos
são aqueles também; como se nada tivesse acontecido,
entraram desde cima — atravessando a terra —
no comboio em marcha, com calças
de linho branco e blusa estampada.
E nós, nessa meia-luz subterrânea
não compreendemos o seu resplandecente ser,
preferiríamos recolhermo-nos, se houvesse para onde,
apertando-nos, negro contra negro, esperando
o fulgor da chegada, enquanto
olhamos o nosso tempo em relógios de pulso alheios.

Já faz tempo que ultrapassaram os sessenta.
Então, esse túnel ainda não se tinha construído;
mas estes dois não se incomodam com tais bagatelas,
é como se ainda fossem a uma borga,
bebem, despem-se antecipando-se, abraçam-se
atravessando as capas das roupas e dos corpos,
e nós, que para sobreviver renunciamos
à nossa juventude, buscamos temerosos
nossa face de antigamente em seu rosto;
essa ligeira liberdade, que desperdiçamos
juntamente com o nosso charme.




Por István Ágh
Tradução a partir do castelhano de João Luís Barreto Guimarães
 e Juan Carlos Mellidez

segunda-feira, 2 de julho de 2012










UM HOMEM




de repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda



Por António José Forte

domingo, 1 de julho de 2012










ECONOMIA DE MEIOS (MELHOR: DE MEDOS)




Às vezes toca o telefone
e entra em casa o carteiro, disfarçado de fax.


Não lhe dou atenção, mas algo me diz
no íntimo que uma noite virá Deus
cobrar o débito na hipoteca da minha vida
simulando que me traz a cerveja e as pizzas
ou o recibo não pago da empresa do gás.


Então fará frio, será tarde
e não haverá em toda a cidade um maldito
Banco de Horas aberto que me afiance.









Por Alberto Vega

Tradução de Albino M.

sexta-feira, 22 de junho de 2012










Nem mais uma palavra sobre a beleza,
chega de palavras sobre a beleza, a visão nocturna
dos teus olhos não importa verdadeiramente
a ninguém. Melhor será observar a brusquidão
das aves (andorinhas, cartaxos, pardais vulgares...)
que, sem defesa, sobrevoam, ao entardecer,
os olivais que restam junto aos blocos 
de apartamentos que alcanço da tua janela.
Vou deixar de lado todas as imagens que conheço,
usar apenas palavras lentas e rasteiras.
Provavelmente, terei de descobrir uma língua
nova, mais humilde, para falar destas aves,
do modo como guinam na luz desguarnecida,
como pousam nos ramos das oliveiras,
ou nos telhados, à nossa frente
- com a traição do mundo em suspenso -
ou nos cabos eléctricos estendidos ao longo de ruas
por onde raramente passa alguém.
É sobre isto, sobre esta estranha veemência
que vou escrever, sobre o que verdadeiramente
importa. Só preciso de me defender de palavras turvas.





Por Luís Filipe Parrado

domingo, 17 de junho de 2012








A LA CARTE




I
Para seduzir a carne
Jesuína tomava ervas, folhas, azeites
e conversava com a chama como se fosse gente
Quando no inicio da tarde
todos à mesa respiravam a ponta dos dedos
ela salpicava amor pelos olhos
O tempero

II
Para se desfazer dos cortes
entre esperas e descaminhos,
Cecília jejuava relógios alimentando-se de certezas
Havia outro sabor depois da faca
A sobremesa



Por Anna  Ehre
Mais poesia sua em http://cantarocantar.tumblr.com/
Arte de Ticiano

sábado, 16 de junho de 2012










PLANO DE EVASÃO




Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.



Por Rui Pires Cabral

quinta-feira, 14 de junho de 2012













Ouvem-se azuis na noite. E, na hora sonâmbula, ela sente dedadas frias na pele e sabe que há-de cuspir a alma pelos olhos molhados até adormecer de cansaço. A loucura que os deuses ofertam como abrigo entre os nadas e as solidões.

Sempre que adormecer na brisa, haverá alguém que a carregue em braços para um lugar mais de dentro?

Pergunto-me se acaso sentes o que há de encanto no amor sem sangue, incondicional, gratuito. O que há de encanto em fazer de um estranho, à custa de tanto amor, a pele tua num abraço. O que há de encanto em habitar sonhos alheios, sabendo-te olhada como coisa preciosa.

Pergunto-me se sabes o quanto dói esta visão vicariante da vida. A coragem de ser fraco na fraqueza alheia,  que se quer força e cavaleiro e lança, mas que tantas vezes vacila. Pergunto-me se sabes que a dor que não sentes em ti é dor no outro, mas é dor também.

Sabes de uma coisa? Era ela a menina que lia romances de amor. 






Por Elisabete Albuquerque