sexta-feira, 6 de julho de 2012








NO METRO, DEPOIS DA ESTAÇÃO DO OESTE





Próximo já do subúrbio os passageiros envelhecem,
sua face reflecte-se nas janelas sem paisagens.
São estranhos, ainda que de alguma maneira se conheçam,
como essa mulher que subiu na praça do mercado,
com os sacos de compras transbordantes de salsa
por pouco se escapa do abrigo o seu corpo magro,
é como se vestisse roupas alheias,
quiçá não me tenha visto, quiçá eu tampouco quisesse
que me cumprimentasse; assim nos recolhemos numa imaginária
indiferença, como um casal desavindo.

Estrangeiros, ainda que de alguma maneira conhecidos
são aqueles também; como se nada tivesse acontecido,
entraram desde cima — atravessando a terra —
no comboio em marcha, com calças
de linho branco e blusa estampada.
E nós, nessa meia-luz subterrânea
não compreendemos o seu resplandecente ser,
preferiríamos recolhermo-nos, se houvesse para onde,
apertando-nos, negro contra negro, esperando
o fulgor da chegada, enquanto
olhamos o nosso tempo em relógios de pulso alheios.

Já faz tempo que ultrapassaram os sessenta.
Então, esse túnel ainda não se tinha construído;
mas estes dois não se incomodam com tais bagatelas,
é como se ainda fossem a uma borga,
bebem, despem-se antecipando-se, abraçam-se
atravessando as capas das roupas e dos corpos,
e nós, que para sobreviver renunciamos
à nossa juventude, buscamos temerosos
nossa face de antigamente em seu rosto;
essa ligeira liberdade, que desperdiçamos
juntamente com o nosso charme.




Por István Ágh
Tradução a partir do castelhano de João Luís Barreto Guimarães
 e Juan Carlos Mellidez

segunda-feira, 2 de julho de 2012










UM HOMEM




de repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda



Por António José Forte

domingo, 1 de julho de 2012










ECONOMIA DE MEIOS (MELHOR: DE MEDOS)




Às vezes toca o telefone
e entra em casa o carteiro, disfarçado de fax.


Não lhe dou atenção, mas algo me diz
no íntimo que uma noite virá Deus
cobrar o débito na hipoteca da minha vida
simulando que me traz a cerveja e as pizzas
ou o recibo não pago da empresa do gás.


Então fará frio, será tarde
e não haverá em toda a cidade um maldito
Banco de Horas aberto que me afiance.









Por Alberto Vega

Tradução de Albino M.

sexta-feira, 22 de junho de 2012










Nem mais uma palavra sobre a beleza,
chega de palavras sobre a beleza, a visão nocturna
dos teus olhos não importa verdadeiramente
a ninguém. Melhor será observar a brusquidão
das aves (andorinhas, cartaxos, pardais vulgares...)
que, sem defesa, sobrevoam, ao entardecer,
os olivais que restam junto aos blocos 
de apartamentos que alcanço da tua janela.
Vou deixar de lado todas as imagens que conheço,
usar apenas palavras lentas e rasteiras.
Provavelmente, terei de descobrir uma língua
nova, mais humilde, para falar destas aves,
do modo como guinam na luz desguarnecida,
como pousam nos ramos das oliveiras,
ou nos telhados, à nossa frente
- com a traição do mundo em suspenso -
ou nos cabos eléctricos estendidos ao longo de ruas
por onde raramente passa alguém.
É sobre isto, sobre esta estranha veemência
que vou escrever, sobre o que verdadeiramente
importa. Só preciso de me defender de palavras turvas.





Por Luís Filipe Parrado

domingo, 17 de junho de 2012








A LA CARTE




I
Para seduzir a carne
Jesuína tomava ervas, folhas, azeites
e conversava com a chama como se fosse gente
Quando no inicio da tarde
todos à mesa respiravam a ponta dos dedos
ela salpicava amor pelos olhos
O tempero

II
Para se desfazer dos cortes
entre esperas e descaminhos,
Cecília jejuava relógios alimentando-se de certezas
Havia outro sabor depois da faca
A sobremesa



Por Anna  Ehre
Mais poesia sua em http://cantarocantar.tumblr.com/
Arte de Ticiano

sábado, 16 de junho de 2012










PLANO DE EVASÃO




Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.



Por Rui Pires Cabral

quinta-feira, 14 de junho de 2012













Ouvem-se azuis na noite. E, na hora sonâmbula, ela sente dedadas frias na pele e sabe que há-de cuspir a alma pelos olhos molhados até adormecer de cansaço. A loucura que os deuses ofertam como abrigo entre os nadas e as solidões.

Sempre que adormecer na brisa, haverá alguém que a carregue em braços para um lugar mais de dentro?

Pergunto-me se acaso sentes o que há de encanto no amor sem sangue, incondicional, gratuito. O que há de encanto em fazer de um estranho, à custa de tanto amor, a pele tua num abraço. O que há de encanto em habitar sonhos alheios, sabendo-te olhada como coisa preciosa.

Pergunto-me se sabes o quanto dói esta visão vicariante da vida. A coragem de ser fraco na fraqueza alheia,  que se quer força e cavaleiro e lança, mas que tantas vezes vacila. Pergunto-me se sabes que a dor que não sentes em ti é dor no outro, mas é dor também.

Sabes de uma coisa? Era ela a menina que lia romances de amor. 






Por Elisabete Albuquerque

segunda-feira, 11 de junho de 2012









UMA COISA A MENOS PARA ADORAR





Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis

entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto

arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa

há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo

hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome

  






Por José Tolentino Mendonça

Fotografia de weegee

domingo, 3 de junho de 2012







CARO CONSELHEIRO SENTIMENTAL





Recentemente matei o meu pai
E em breve casarei com a minha mãe;
A minha questão é:
Deve a parte da família dele ser convidada para a cerimónia?





Por Bill Knott
Tradução de Lp, Do trapézio sem rede

quarta-feira, 30 de maio de 2012








EQUIVOCARSE ES UN ARTE



equivocarse es un arte
si no supiste equivocarte
antes
¿cómo sabrías ahora
equivocarte?
equívoco se hace
no se nace
se aprende cometiendo
más y más perfectos
errores
insistiendo en las
imperfecciones 
equivocarse es un arte
si no supiste equivocarte
antes,
¿cómo sabrías ahora
equivocarte?



Por Pablo Ferro

terça-feira, 29 de maio de 2012









CARSON MCCULLERS




morreu de alcoolismo
embrulhada num cobertor
numa cadeira de convés
num navio
a vapor

todos os seus livros de
uma solidão aterrorizada

todos os seus livros sobre
a crueldade do amor sem amor

foram apenas o que dela
ficou

quando o veraneante que dava uma volta
descobriu o corpo

informou o capitão


foi rapidamente  expedida
no barco
para outro sítio

e tudo
continuou exactamente
como
ela escrevera



Por Charles Bukowsky
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

sábado, 19 de maio de 2012









RELATIVIDADE



Quando os canhões retumbam
lá em Rakke
muda-se a borboleta
para outra flor.

Ou visto a partir da perspectiva
da borboleta: Quando se muda
a borboleta para outra flor
retumbam os canhões em Rakke.


Por Ernst Orvil

domingo, 13 de maio de 2012










Fui aos perdidos e achados
minha senhora disse-me o polícia
sua o caraças senhora talvez
aqui não recolhemos objetos dessa natureza
tão pouco material
juraria ter ouvido comercial
vá antes à câmara municipal
serviço de saneamento básico
resíduos esgotos sarjetas
em suma escoamentos
coisa que como podereis ler
não fiz nem farei
se ele se perdeu, compreendi afinal, foi porque quis
nunca se deve contrariar um poema tão original




Por Bénédicte Houart

sábado, 28 de abril de 2012










QUANDO EU TIVER SETENTA ANOS






quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.





Por Paulo Leminski












TUDO O QUE O MEU PAI ME DISSE QUANDO, AOS 15 ANOS,
DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA COMEÇAR A ESCREVER POESIA




"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
essas mãos."





Luís Filipe Parrado