quinta-feira, 14 de junho de 2012













Ouvem-se azuis na noite. E, na hora sonâmbula, ela sente dedadas frias na pele e sabe que há-de cuspir a alma pelos olhos molhados até adormecer de cansaço. A loucura que os deuses ofertam como abrigo entre os nadas e as solidões.

Sempre que adormecer na brisa, haverá alguém que a carregue em braços para um lugar mais de dentro?

Pergunto-me se acaso sentes o que há de encanto no amor sem sangue, incondicional, gratuito. O que há de encanto em fazer de um estranho, à custa de tanto amor, a pele tua num abraço. O que há de encanto em habitar sonhos alheios, sabendo-te olhada como coisa preciosa.

Pergunto-me se sabes o quanto dói esta visão vicariante da vida. A coragem de ser fraco na fraqueza alheia,  que se quer força e cavaleiro e lança, mas que tantas vezes vacila. Pergunto-me se sabes que a dor que não sentes em ti é dor no outro, mas é dor também.

Sabes de uma coisa? Era ela a menina que lia romances de amor. 






Por Elisabete Albuquerque

segunda-feira, 11 de junho de 2012









UMA COISA A MENOS PARA ADORAR





Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis

entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto

arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa

há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo

hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome

  






Por José Tolentino Mendonça

Fotografia de weegee

domingo, 3 de junho de 2012







CARO CONSELHEIRO SENTIMENTAL





Recentemente matei o meu pai
E em breve casarei com a minha mãe;
A minha questão é:
Deve a parte da família dele ser convidada para a cerimónia?





Por Bill Knott
Tradução de Lp, Do trapézio sem rede

quarta-feira, 30 de maio de 2012








EQUIVOCARSE ES UN ARTE



equivocarse es un arte
si no supiste equivocarte
antes
¿cómo sabrías ahora
equivocarte?
equívoco se hace
no se nace
se aprende cometiendo
más y más perfectos
errores
insistiendo en las
imperfecciones 
equivocarse es un arte
si no supiste equivocarte
antes,
¿cómo sabrías ahora
equivocarte?



Por Pablo Ferro

terça-feira, 29 de maio de 2012









CARSON MCCULLERS




morreu de alcoolismo
embrulhada num cobertor
numa cadeira de convés
num navio
a vapor

todos os seus livros de
uma solidão aterrorizada

todos os seus livros sobre
a crueldade do amor sem amor

foram apenas o que dela
ficou

quando o veraneante que dava uma volta
descobriu o corpo

informou o capitão


foi rapidamente  expedida
no barco
para outro sítio

e tudo
continuou exactamente
como
ela escrevera



Por Charles Bukowsky
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

sábado, 19 de maio de 2012









RELATIVIDADE



Quando os canhões retumbam
lá em Rakke
muda-se a borboleta
para outra flor.

Ou visto a partir da perspectiva
da borboleta: Quando se muda
a borboleta para outra flor
retumbam os canhões em Rakke.


Por Ernst Orvil

domingo, 13 de maio de 2012










Fui aos perdidos e achados
minha senhora disse-me o polícia
sua o caraças senhora talvez
aqui não recolhemos objetos dessa natureza
tão pouco material
juraria ter ouvido comercial
vá antes à câmara municipal
serviço de saneamento básico
resíduos esgotos sarjetas
em suma escoamentos
coisa que como podereis ler
não fiz nem farei
se ele se perdeu, compreendi afinal, foi porque quis
nunca se deve contrariar um poema tão original




Por Bénédicte Houart

sábado, 28 de abril de 2012










QUANDO EU TIVER SETENTA ANOS






quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.





Por Paulo Leminski












TUDO O QUE O MEU PAI ME DISSE QUANDO, AOS 15 ANOS,
DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA COMEÇAR A ESCREVER POESIA




"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
essas mãos."





Luís Filipe Parrado







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Por Miguel-Manso


quarta-feira, 25 de abril de 2012












mijo
(um poema urgente)





1.

uma mulher não deve mijar
deve fazer xixi

2.

uma mulher faz xixi
não mija
mas em banheiros públicos
a mulher acaba que mija

3.

uma mulher faz xixi
porque é mais sexy
mas quando é incontinente
a questão se torna irrelevante

4.

conheço uma mulher
que mijava
mas dizia por aí
que fazia xixi

5.

mijei no balde
foi libertador
mijei no balde
dentro do elevador
mijei com vontade
sim senhor
hoje
sou outra mulher

6.

xixi, mijo, urina: como queira chamar
se tiver nojo e a água acabar
se quiser viver vai ter que tomar
mijo. se quiser pode dizer
xixi ou guaraná

mas continua sendo mijo

7.

nisso tudo eu pensava
a caminho do banheiro
após ter lido uma frase
do marcelo rubens paiva
será que ele mija, o marcelo?
com certeza deve mijar
mirando as estrelas, será?
fazendo desenhos no ar?

(quem se importa?
eu não me importo)


8.

outra questão a se especular
quando acontece dormindo
é xixi ou mijo?
dependerá do fluxo?
da quantidade?
qual o critério?
outra coisa que direi
como aviso ou comentário:
mija-se desperto ou dormindo
peidar só se pode acordado





Por Angélica Freitas

sexta-feira, 20 de abril de 2012









O elefante apodrece
no exterior do café portugal
ninguém lhe põe moedas
ninguém empoleirado
aos solavancos, ninguém

as moedas mudaram
as crianças cresceram
os adultos ganharam juízo e amealharam
para elefantes de verdade
com bosta e tudo

se não pelo teu próprio nome
por que nome responderás tu então?




 Por Bénédicte Houart 

sábado, 14 de abril de 2012








SEM CHAVES E ÀS ESCURAS





Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais.

Então saí para o patamar para deitar o lixo fora
e, atrás de mim, com uma corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes dos meus vizinhos
através das suas portas.
É passageiro, disse para mim;
no entanto também a morte poderia ser assim:
um patamar escuro,
uma porta fechada com a chave do lado de dentro,
o lixo na mão.





Por Fabián Casas
Tradução de Lp, Do trapézio sem rede

quinta-feira, 12 de abril de 2012








TÓQUIO



Danificado o leme
sabe o piloto
que nunca regressará
a Tóquio.

A morte é
uma parede móvel

à sua frente.
Os indicadores na carlinga
são astros abatidos*
cuja luz chega ainda.


*Gastão Cruz


Por Francisco José Craveiro de Carvalho

quarta-feira, 11 de abril de 2012








CRIME E CASTIGO




No cristal de vidro sobre a mesa da sala
havia, há muitas gerações, uma rosa amarela
e um lírio branco.
Quando a filha mais nova indagou à mãe por que era assim,
a ouviu dizer: “Sua avó me ensinou”
A menina então perguntou a avó que lhe disse:
“Mamãe me ensinou desse jeito”
Ao ouvi-la recorrer à mesma questão, a bisavó lhe respondeu
com um ar impertinente: ”O que nos ensinam, aprendemos”
Não foi necessário conhecer a tataravó.
A menina entendeu o motivo e pensou resoluta:
“Minha filha aprenderá
                    que o quintal tem outros tons e é bonito”       
Ela voltou à sala
           e pôs duas rosas vermelhas no cristal de vidro.
No canto do quarto, uma cadeira.
Há muitas gerações, uma menina calada.










Por Anna  Ehre