domingo, 19 de fevereiro de 2012















ILHÉU DAS CABRAS





O nome diz tudo·levava da ilha maior
as cabras, que no ilhéu ficavam a pastar.
Também queria uma ilha assim
deste modo pequena, sombreada pelo ombro
da outra. Que não tivesse fantasma humano
nem sequer qualquer presença de antiga raça. Que
restasse
a urze entre as rochas
a cinza nevoada do mar
o dia e a noite.
Não precisa do mundo
somente lhe resta a viagem da ave que pousa na
escarpa
quando vem o outono
e a flor amarela dos cubres pelo fim do inverno.





Por João Miguel Fernandes Jorge
Fotografia de Francisco Reis

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
















Em pequena, caminhava sobre um muro estreito e imaginava que o metro de distância ao solo era na verdade a medida negra de um poço sem fim. Bastava esse pensamento para que cada passo dado fosse mais cuidadoso, mas, caindo, nada de mal aconteceria, era só uma brincadeira que chegava ao fim. Às vezes brincava de funâmbulo no rebordo do lago e um dia caiu à água, mas também aí só o desconforto de uma roupa grossa de inverno, molhada e colada ao corpo, e o embaraço, em face do riso trocista de um menino que viu. Era fácil ter coragem e jogar os medos em jogos inconsequentes. 
Também é fácil a coragem quando lhe dizem que caminhe adiante e lhe seguem os passos de perto. E ela não olha para trás, conivente na intenção de se inventar uma coragem e uma força. 
Até que um dia, ela decide que quer ver o mundo. E o mundo está para lá da curva, num caminho de terra batida onde ninguém lhe guarda os passos. Quando olha o mapa sentado à sua frente, parece tão pouco o mundo e o comprimento exacto de um dedo há-de ser a distância da sua coragem. 
Pergunto-lha se acredita que ela vai ser capaz. À vontade de a proteger, contrapõe-se a necessidade de lhe ensinar a força e ele diz-lhe que sim, que tem que ser, como se a coragem fosse na verdade uma obrigação. Mas o que lhe lê no olhar é o receio que o mundo a devore, porque a menina que criou tem uma medusa de medos no lugar do coração.






Por Elisabete Albuquerque
Arte de Paula Rego

sábado, 4 de fevereiro de 2012






O MOVER DE UM LEOPARDO




O olhar é este. Escorre o mel
sobre a navalha do cansaço
e estão húmidas as acácias pela chuva breve.

Breve olhar quase sem sombras é este isto é de
como vem do lado das brisas frias da noite
de modo tão solitário como o nome do medo

e então tudo o que é gesto do seu existir cai
levemente sobre cada seu mover como se fosse
vontade única resgatar uma vida que sabe não voltará.

Só a morte tem tanto tempo pela frente.




Por António Amaral Tavares

domingo, 29 de janeiro de 2012















um poema de "o escaravelho do descalabro",
gentilmente cedido pela poetisa




os poetas não me lêem não quem me lê
são os passarinhos e as florzinhas nos campos
que me lêem sim e os peixinhos no riacho
ai sim e os peixinhos no riacho que contam
para os caramujos que boa poetisa eu sou
ai sim e os caramujos que entram
na tubulação e anunciam minha glória
na cloaca municipal
ai sim quem me lê são os bichinhos
são os paramécios são os e.coli
e os seus semelhantes




Por Angélica Freitas

sábado, 28 de janeiro de 2012

















VALVA









nasciam os pêlos


da perna e as partes


seletas daí nicotina


e a lanugem grudarem


nos beijos



cravaram o solo


na tarde cataram


uns frutos queriam


apenas sementes


calafetar junturas


- os dois inteiros










Por Lígia Dabul
Fotografia de António Cravo

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012











COISAS DE PARTIR




Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti:
olhos semi-cerrados, em precauções de tempo,
a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.

Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:
tudo coisas de ti, mas coisas de partir...
E o meu alarme nasce: e se morreste aí,
no meio de chão sem texto que é ausente de ti?

E se já não respiras? Se eu não te vejo mais
por te querer empurrar, lírica de emoção?
E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?
E se tu não estiveres onde o poema está?

Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoção e juras.
E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.




Por Ana Luísa Amaral
Arte de Edward Hopper 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012









Atenção a todos os interessados:
Vai acontecer em Coimbra, nas instalações do CES, um curso de escrita criativa, com a duração de dois dias, 17 e 18 de Fevereiro, onde vão estar presentes duas poetas de renome: Ana Luísa Amaral e Lígia Dabul, vinda do Brasil.
Para mais informações e inscrição deverão consultar a página do CES, na internet, em Formação Avançada, ou aqui.
Informa-se ainda que haverá um número limite de inscritos.

domingo, 22 de janeiro de 2012









EMPRÉSTIMO




      Empresto a face
      ao espelho: reflito
     
a tez
os olhos
o nariz
a barba mal feita.

                 Sou ausência consentida.




Por Pedro Du Bois







ELEGIAZINHA
[i. m. nikita (gata da Inês)]




Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.





Por Nelson Ascher

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012











DEPOIS ESVAZIOU-SE COM CUIDADO





Não dormia sem o escuro absoluto.
Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.
No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.





Por Filipa Leal

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012











(Antes de vir, por dias me rondei. Era medo. Do desencontro, talvez.)

Choveu, escutam-se as rodas nervosas no asfalto molhado e, nos entremeios, um silêncio gordo que é uma espécie de zumbido que se desenha em espirais.
Pergunto-me quem são e se acaso já olharam a noite de frente. Eu não. Espreito-a e temo e cobiço. E é a ela que vendo a minha intimidade.
E pressinto-a. A tristeza em mim não é sentida, é pressentida, entendes isso?
A noite. Tal como a música, entra-se em mim e entranha-se e quando o dia romper no alvoroço de uma luz muito branca, talvez persista ainda o desajuste.
O sono é o remedeio. Mas às vezes, até aí a lucidez se vence. E então abro os olhos e há um corpo deitado a meu lado. E então os olhos ardentes fixam as órbitas vazias de um olhar assombrado. É o medo.




Por Elisabete Albuquerque

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012











À PESCA NO SUSQUEHANNA EM JULHO





Eu nunca andei à pesca no Susquehanna
ou em qualquer rio do mesmo género
para ser completamente honesto.

Nem em Julho, nem noutro mês
tive o prazer - se for um prazer -
de pescar no Susquehanna.

Sou mais do tipo de ser encontrado
numa sala sossegada como esta -
uma pintura de uma mulher na parede,

uma cesta de tangerinas sobre a mesa -
tentando compor a sensação
de pescar no Susquehanna.

Não restam muitas dúvidas
de que outros tenham pescado
no Susquehanna,

remando contra a corrente num bote de madeira,
mergulhando os remos na água
e levantando-os depois para gotejarem na luz.

No entanto, o mais próximo que estive
de pescar no Susquehanna
foi uma tarde num museu em Filadélfia

enquanto segurava um pequeno ovo do tempo
em frente a uma pintura
na qual esse rio se enrolava em volta de uma curva

debaixo de um céu azul e franzido com nuvens,
árvores densas ao longo das margens,
e um homem com um lenço vermelho

sentado num pequeno bote verde
de fundo raso
segurando a linha fina de uma cana.

Isto é algo que eu provavelmente
nunca farei, lembro-me de ter dito
a mim próprio e à pessoa que ali estava.

Depois pisquei os olhos e avancei
para outras paisagens americanas
de pilhas de feno, águas claras entre rochas,

até uma de uma lebre castanha
que parecia tão tensa e alerta
que eu imaginei que iria saltar da moldura.






Por Billy Collins
Tradução de Lp, Do trapézio sem rede

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012












31/12



Ano que vem teremos dores de cabeça,
enxaquecas intensas ao fim do dia.
O trânsito sujará nossas bocas
e uma gripe nos acompanhará por uma semana.
Uma topada encontrará nossos pés
e um grito irá disparar nossos lábios. Algumas vezes.
Ficaremos indignados com o congresso e as esquinas
que despejam bossais e um demente alto-falante.
Nossa equipe não será campeã,
nem viajaremos a ilha de Patmos.
No cinema haverá adolescentes que não lêem dicionários.
No banco, filas sem respeito à ordem e à gentileza.
Trovejará no feriado e acordaremos com sono.
Ano que vem nem tudo dará certo,
nem todos os afetos serão correspondidos.
A raiva tingirá nossos rostos por um momento e,
no outro, as decepções cairão sobre os pés.
Ano que vem nem tudo será novidade.
Exceto o antigo costume de no último dia
escrevermos a palavra feliz 
e desejarmos, felizmente, tudo (de) novo.





Por Anna Ehre
Fotografia de Dan Weiner

domingo, 8 de janeiro de 2012










NOSTALGHIA




Ouvia-te falar e sentia
as chamas retomarem
as paredes do teu coração
de igreja abandonada.
O céu, nessa tarde,
era um leque de lantejoulas
ao rés do teu sorriso
e dos meus olhos encadeados.
Doía-me esse excesso de luz
que te fazia toda sombra,
o crepitar morno da pele
antes do incêndio consumado.

Sempre que dizias o seu nome,
riscavas outro fósforo –
ele avançava dentro de ti,
nas mãos uma vela prestes a cair.
Amo demasiado o fogo
para a suster. Prefiro
redesenhar as nossas cicatrizes,
ser depois a memória da pedra
fria em pleno Verão.








Por Inês Dias
imagem do filme Nostalghia, de Andrei Tarkovsky

domingo, 1 de janeiro de 2012













Era o matraquear de saltos agudos contra o mármore da escadaria. Insolente, contra a ternura dos pianíssimos que se escapavam pela soleira do apartamento do primeiro direito posterior. E eu sei, porque me aproximei como um ladrão e senti os frémitos na ponta dos dedos. Ali, a música nascia, ali o útero.
Ou então a música soou dentro, pelas mãos fantasmas de um ser gentil que te seguraria a alma em momentos. Alma é uma palavra tão gasta, mas continua a sair-me dos dedos como um sonho cansado. São patranhas ridículas ou nasceste mesmo para desejar cinco quartos de lua e não menos?
Descalçou os sapatos de saltos agudos e despiu os pés em passos etéreos. E subiu-se à ponta dos dedos, justamente como fazia nas aulas de dança, e ficou mais perto, de uma altura de deuses.
Se viesses, eu venderia a lua a um estranho e um dia, chegaria muito perto e dir-te-ia ao ouvido que há uma menina que vive fugindo, porque roubou aos deuses um toque de midas. E quando morrer, ninguém saberá que caminhava no mundo com uma estrela de cinco pontas escondida nos cabelos. Mas tu haverias de saber.





Por Elisabete Albuquerque
Imagem de AAT