domingo, 23 de outubro de 2011









NIGHTHAWKS AT THE DINNER




Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa-me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase-silêncio desabrigado e informe.


Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo-nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual - um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.


Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Sò nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagess de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.


O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.
Daqui a algumas horas esperar-nos-á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há-de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer-lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
- do lado mais esquivo da morte.


Mas bastam-me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.




Por Manuel de Freitas

Arte de Edward Hopper











(POEMA 13)




Eu fui marcando com cruzes de fogo
o atlas branco do teu corpo.
A boca era uma aranha que corria a esconder-se.
Em ti, atrás de ti, temerosa, sedenta.


Histórias para contar-te à beira do crepúsculo
boneca triste e meiga, para que não estivesses triste.
Um cisne, uma árvore, algo longínquo e alegre.
O tempo da vindima, o tempo maduro e frutífero.


Eu que vivi num porto que era de onde te amava.
A solidão percorrida de sonho e de silêncio.
Encurralado entre o mar e a tristeza.
Calado, delirante, entre dois gondoleiros imóveis.


Entre os lábios e a voz, algo vai já morrendo.
Algo com asas de pássaro, algo de angústia e de olvido.
Da mesma forma que as redes não retêm a água.
Boneca minha, quase nem ficam gotas tremendo.
Mesmo assim algo canta entre estas palavras fugazes.
Algo canta, algo sobe até à minha ávida boca.
Oh poder celebrar-te com todas as palavras de alegria.
Cantar, arder, fugir, como um campanário nas mãos de um louco.
Triste ternura minha, mudas-te em quê de repente ?
Quando eu cheguei ao vértice mais atrevido e frio
fecha-se o meu coração como uma flor nocturna.





Por Pablo Neruda
Tradução de F. A. Pacheco








Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração. 
Tempo em que não se diz mais: meu amor. 
Porque o amor resultou inútil. 
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho. 
E o coração está seco. 

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. 
Ficaste sozinho, a luz apagou-se, 
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. 
És todo certeza, já não sabes sofrer. 
E nada esperas de teus amigos. 

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? 
Teus ombros suportam o mundo 
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios 
provam apenas que a vida prossegue 
e nem todos se libertaram ainda. 
Alguns, achando bárbaro o espetáculo 
prefeririam (os delicados) morrer. 
Chegou um tempo em que não adianta morrer. 
Chegou um tempo que a vida é uma ordem. 
A vida apenas, sem mistificação. 





Por Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 21 de outubro de 2011













NOTAS PARA UM RODAPÉ





Ao mencionar sonho,
todos responderam
usando caligrafia elevada e margens imensas.
Veio, então, o poeta
usando a altura dos pés e a letra dos lábios:
O poeta é uma espécie de louco
diferente de outros
que rezam e acordam cedo
para que os sonhos saiam do papel.
O poeta despede o tempo
e, no altar da mesa, acende palavras
para inscrever sonhos em eucaliptos.
O poeta é inteiro em seu desatino
a ponto de não dormir
para acordar um livro.






Por Anna Ehre
Arte por Robert & Shana ParkeHarrison

quarta-feira, 19 de outubro de 2011








FELINUS




A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não logramos enviar
para a nova morada.




Por Inês Lourenço
Arte de Aurora Pereira

sábado, 15 de outubro de 2011











Há na intimidade um limiar sagrado





Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.





Por Anna Akhmátova
tradução por Nina Guerra e Filipe Guerra













Retrato do artista em cão jovem




Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos

aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra




Por António José Forte
Arte de Francis Bacon

domingo, 9 de outubro de 2011








DESALINHO




Nenhum destes poemas
fará parte de um livro
adoptado nas escolas. Há
muito tempo que não escrevo
azul mar e barcos ou outras
palavras para alívio de almas
homéricas.

Prefiro – ou preferem-me
aquelas como: desalinho
alinhavo ou logro ou outra
qualquer. Nunca o arremedo
de uma palavra única esgota
o muito ou nenhum sentido
de um verso.




Por Inês Lourenço







Compêndio para desuso literário




É de costume da poesia -
Não aparar prédio nos ombros,
não dar consultoria publicitária,
não meter dinheiro nas algibeiras,
não arrumar direito à cargo público,
e não cumprir quarenta horas semanais.


É de costume do poeta -
Estudar para desconhecer com propriedade,
escurecer as palavras até que fiquem claras,
cometer a disfunção de agigantar o ínfimo,
dar transfiguração de poeira ao infinito,
e ser eternizado por suas inutilidades.




Por Marco Lourenço
Ler mais poesia sua em introspecções ( http://oisoumarco.blogspot.com/)

sábado, 8 de outubro de 2011








PEQUENOS CRIMES ENTRE AMIGOS





Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.

Podes até queimá-lo –
com cuidado, por favor –
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.




Por Inês Dias








As Prostitutas





Naquele tempo,
elas desciam à vila, as prostitutas –
a única saída,
exactíssima resposta para a nossa
angústia seminal acumulada.
Vinham de Vale da Porca, ou outra
terra assim pasmada.
Traziam na cabeça lenços garridos,
na carteira de mão a triste história:
a sedução primária, a miséria espessa,
mas jamais o vício mercenário.
Nas eiras recebiam as nossas águas,
de permeio plantados como reis.
Procuravam lisonjeiras acertar
seu êxtase fingido com o nosso.
Beijavam-nos, diziam: tão novinho!
Suportavam-nos insultos e arremessos.
Com a mão experiente (mas não habituada)
guiavam-nos na bela, impreterível,
urgente aprendizagem,
concediam-nos crédito e carinho –
as tão castas mulheres,
as prostitutas.




Por A.M. Pires Cabral

quarta-feira, 5 de outubro de 2011







percalços da poetisa




a poetisa chega à alfândega e o funcionário da polícia federal logo desconfia. pede-lhe que abra as palavras. "isso pode demorar", pensa a poetisa. as palavras estão carregadas de significado até o máximo grau possível. o funcionário pergunta-lhe se ela sabe quanto significado pode trazer nas palavras. a poetisa diz que sim. o funcionário da polícia federal balança a cabeça e diz que infelizmente vai ter de registrar a infração.



Por Angélica Freitas

sábado, 1 de outubro de 2011












E o meu coração já não bate

na minha voz, de alegria e tristeza.

Acabou... E o meu canto galopa

para a noite vazia, onde tu já não estás.








Por Anna Akhmátova
Tradução de Manuel de Seabra





















Pertencera a um grupo de malta rebelde.

Desenvolveu alguns programas de rádio

e também, parece, algumas encenações teatrais.

Todavia o seu projecto principal era o de mudar o mundo.

Ao que eu lhe disse que o meu grande projecto

foi sempre o de que o mundo não me mudasse a mim.








Por Daniel Maia-Pinto Rodrigues

quarta-feira, 28 de setembro de 2011










DESOBEDIÊNCIA CIVIL







se a preguiça encantadora dos homens

deve acabar a sua obra e a sua língua de fogo

unir os dias e as noites do desejo

então saudemos as grandes afirmações:

«a poesia deve ser feita por todos» e

«a poesia é feita contra todos»




os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta

fiquem os amantes obscuros e o único os raros

todos os nus

porque a língua portuguesa não é a minha pátria

a minha pátria não se escreve com as letras da palavra pátria




Vêde

sobre a coroa de silêncio do vulcão adormecido

uma ave a sua plumagem de cores trémulas

e as asas que escrevem letra a letra o nome definitivo do homem

e no entanto multidões de gnomos

cada qual com o seu estandarte

esperam à entrada dos cemitérios

para saudar o fogo-fátuo




eu passo de bicicleta à velocidade do amor

atravesso a terra de ninguém com um dia de chuva na cabeça

para oferecer aos revoltados







Por António José Forte
arte por Aldina