sábado, 1 de outubro de 2011












E o meu coração já não bate

na minha voz, de alegria e tristeza.

Acabou... E o meu canto galopa

para a noite vazia, onde tu já não estás.








Por Anna Akhmátova
Tradução de Manuel de Seabra





















Pertencera a um grupo de malta rebelde.

Desenvolveu alguns programas de rádio

e também, parece, algumas encenações teatrais.

Todavia o seu projecto principal era o de mudar o mundo.

Ao que eu lhe disse que o meu grande projecto

foi sempre o de que o mundo não me mudasse a mim.








Por Daniel Maia-Pinto Rodrigues

quarta-feira, 28 de setembro de 2011










DESOBEDIÊNCIA CIVIL







se a preguiça encantadora dos homens

deve acabar a sua obra e a sua língua de fogo

unir os dias e as noites do desejo

então saudemos as grandes afirmações:

«a poesia deve ser feita por todos» e

«a poesia é feita contra todos»




os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta

fiquem os amantes obscuros e o único os raros

todos os nus

porque a língua portuguesa não é a minha pátria

a minha pátria não se escreve com as letras da palavra pátria




Vêde

sobre a coroa de silêncio do vulcão adormecido

uma ave a sua plumagem de cores trémulas

e as asas que escrevem letra a letra o nome definitivo do homem

e no entanto multidões de gnomos

cada qual com o seu estandarte

esperam à entrada dos cemitérios

para saudar o fogo-fátuo




eu passo de bicicleta à velocidade do amor

atravesso a terra de ninguém com um dia de chuva na cabeça

para oferecer aos revoltados







Por António José Forte
arte por Aldina
















MOTET POUR LES TRÉPASSÉS









Este poema seria teu, Inês,

se não fosse de ninguém.

Ao chegarmos de Lisboa,

depois da paragem ritual

no Café Lisbela — onde tudo

se compra e tudo se perde —,

vimos uma cadeira de rodas

à venda, uma motorizada

ao lado, uma igreja vazia

da qual certamente gostariam

Andrei Tarkovsky, Tonino

Guerra ou Ana Teresa Pereira.




A poucos metros dali, o meu pai

morria, tentava penosamente resistir

a uma hemorragia cerebral. Mas

isso, claro, ninguém precisa de saber.

Apenas tu, poema, que vieste de comboio

confirmar dia após dia que o Tejo

está onde sempre esteve: triste, azul, parado.










Por Manuel de Freitas

domingo, 25 de setembro de 2011
















RECADO AOS CORVOS







Levai tudo:

o brilho fácil das pratas,

o acre toque das sedas.




Deixai só a incombustível

memória das labaredas.








Por A. M. Pires Cabral

sexta-feira, 23 de setembro de 2011


















SEPTEMBER SONG









Ouve, pelo começo de Setembro,

o clamor e a melancolia

deste mar atravessando a tua vida,

as páginas de um livro por abrir.




Ouve como se vê,

sobre as falésias deste mês abrupto,

alguém que te celebra

muito depois das palavras.




É tão difícil escrever um poema

que não fale da morte.








por Manuel de Freitas

imagem retirada do blog Cântaro Cantar de Anna Ehre

segunda-feira, 5 de setembro de 2011



















DESAGRAVO

para Andrei









Por que o sol e esse azul desesperado?

Por que os olhos acesos?

Por que a música amplificada?

Por que esse passo de dança em tom de carrossel?

Por que os fogos de artifício?

Por que o bolo e a festa?

Por que o braço aberto a um passo do vôo?

Por que os pássaros em cada esquina?

Por que as esquinas cheias de horizonte?

Por que essa alegria sem portas?

Por quê?

Não sabem?

Rosângela está morta.









Por Anna Ehre
imagem de AAT

quinta-feira, 1 de setembro de 2011


















A verdadeira mão que o poeta estende

não tem dedos:

é um gesto que se perde

no próprio acto de dar-se




O poeta desaparece

na verdade da sua ausência

dissolve-se no biombo da escrita




O poema é

a única

a verdadeira mão que o poeta estende




E quando o poema é bom

não te aperta a mão:

aperta-te a garganta










Por Ana Hatherly















ABERTURA










Eu abria o rádio

eu abria o aparelho

era uma flor branca que eu abria

de sopro

eu soprava e eu abria a flor

A flor tocava música com as várias mãos

das pétalas

A flor tocava uma simbolização dum tempo

caído podre de espera de cor branca

O tempo espera-se em pintar-se

de branco

para cegar uma cor

mas a minha flor abria-se de

pétalas

e as várias mãos escreviam um

piano por cima de teclas grãos vários

seguidos uns aos outros.

Era assim uma harmonia

entre flor

tempo a querer-se de cor branca em cegar

era assim umas teclas cantarem filhos de grãos

por dentro dos grãos mesmos

unidos que eram em dimensão de lado

era assim um cantar-me o tempo todo

não era assim um cantar-me o tempo todo

era assim um pairar-me

o tempo todo em Nijinsky

o tempo em um fazer-me ballet pelo quarto inteiro

quando eu tinha aberta a cabeça que imagino

da música

Abria a pétala favorita do harém

onde no centro um sultão da flor

no centro que era o amarelo da flor

abria a pétala favorita da flor

e então

e era então que me soava dentro da manhã

do quarto

uma música desfibrada de tempo serôdio

como se tudo me fosse em longe

como se a música levasse longe

o céu.











Por António Gancho
















HOMENS QUE TRABALHAM SOB A LÂMPADA…








Homens que trabalham sob a lâmpada

Da morte

Que escavam nessa luz para ver quem ilumina

A fonte dos seus dias




Homens muito dobrados pelo pensamento

Que vêm devagar como quem corre

As persianas

Para ver no escuro a primeira nascente




Homens que escavam dia após dia o pensamento

Que trabalham na sombra da copa cerebral

Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas

Homens todos brancos que abrem a cabeça

À procura dessa pedra definida




Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento

Livre. Que vêm devagar abrir

Um lugar onde amanheça.

Homens que se sentam para ver uma manhã

Que escavam um lugar

Para a saída.










Por Daniel Faria

segunda-feira, 29 de agosto de 2011


















APONTAMENTO SOBRE POESIA MODERNA











a poesia avança há muito tempo, embora devagar;

tu não és tão velho como Eu sou

e Eu consigo lembrar-me de ler

revistas onde no fim do poema

dizia:

Paris, 1928.

isso parecia fazer alguma

diferença, e assim, aqueles que podiam

(e alguns que não podiam)

foram para

PARIS

e escreveram.




Eu também sou suficientemente velho para lembrar

quando os poemas faziam referências aos deuses Gregos e

Romanos.

se tu não conhecesses os teus deuses não eras um

bom escritor.

e, se não conseguisses escrever um verso em

Espanhol, Francês ou

Italiano,

tu não eras definitivamente um bom

escritor.




há 5 ou 6 décadas atrás,

talvez 7,

alguns poetas começaram a usar

eu em vez de Eu

ou

& em vez de e.




muitos ainda usam eu

e muitos continuam a usar

&

pensando que é poeticamente efectivo e

actualizado.




e, a mais velha ideia ainda em voga é

que se não consegues entender um poema é

quase certo que é

um bom poema.




a poesia ainda avança devagar, penso eu,

e quando todos os mecânicos de automóveis

começarem a trazer livros de poesia para ler

durante o almoço

só aí saberemos de certeza que estamos a avançar

na direcção

certa.




&

disso

eu

tenho a certeza.










Por Charles Bukowski

domingo, 28 de agosto de 2011




















NÃO ENTRES DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA









Não entres docilmente nessa noite serena,

porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;

odeia, odeia a luz que começa a morrer.




No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,

porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles

não entram docilmente nessa noite serena.




Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia

o brilho das suas frágeis acções ter dançado na baia verde,

odiai, odiai a luz que começa a morrer.




E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol

e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,

não entram docilmente nessa noite serena.




Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega

quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,

odiai, odiai a luz que começa a morrer.




E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria

venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.

Não entres docilmente nessa noite serena.

Odeia, odeia luz que começa a morrer.










Por Dylan Thomas

Tradução de Fernando Guimarães














SALVE REGINA


para a Inês









«Isto já não tem melhoras» – acabou

por nos dizer Zulmira, referindo-se

à sua perna atropelada, à vida,

ao filho que há três anos lhe mataram,

embora se chamasse Epifânio.




E ficou assim, completamente sozinha,

deusa rude e resignada que veio

dos campos servir vinhos e cervejas

a uma «freguesia» que foi, em tempos,

tão imensa como é agora a sua solidão.




Uma quase mansa solidão, se virmos bem,

uma tristeza sem lágrimas, uma sabedoria

que se volta a confundir com o azul forte das paredes,

com o seu nome último e inquebrantável,

a «passar o tempo» entre os muros deste reino.




Tem agora a mesma idade que Maria,

abre só para ti uma garrafa de ginja

e assiste calmamente ao fim do mundo.







Por Manuel de Freitas

sábado, 27 de agosto de 2011















GROTTO









Não quero nada claro ou helénico.

Prefiro turbinas de aviões comerciais, a sua fuligem

doméstica

às velas de alabastro do veleiro de Ulisses

lá em mar alto.

Prefiro o eclipse a Calipso.

Não quero nada de verdadeiramente branco.

Dispenso a asa delta de garças,

o seu voo aerodinâmico,

troco-o pela arribação de ratos no esgoto,

a sua pressa chinesa,

o seu stress pós-traumático:

orgulham-me criaturas tão limpas.

Assim também recuso o papel branco:

trato de o desfigurar

com sangue negro, como se desfigura

um branco em Harlem.

Não quero começar a imaginar como se sentiriam

escravos nos campos de algodão.










Por Daniel Jonas

Arte por Lefevre Jules Joseph

domingo, 21 de agosto de 2011





















FORMIGA










"Pai, anda cá", diz a minha filha.

Pela parede branca sobe uma formiga,

minúscula, muito lenta, obstinada.

A minha filha encolhe o corpo

pequenino para olhar. Não sei se é

a primeira vez que vê uma formiga;

mas é, parece-me, a primeira vez

que se apercebe da enorme diferença

de escala que a separa do insecto.

A minha filha acompanha a subida

heróica da formiga pela parede

branca, vira-se para mim, sorri.

É nesse espaço subitamente tenso,

criado entre a alegria infantil da

descoberta e o esforço irracional

da formiga, que nasce o poema,

mesmo se eu já desisti dele para

limpar o ranho que a minha filha,

absorta, deixou chegar até à boca.










Por José Mário Silva