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domingo, 12 de dezembro de 2010



LUARES






Ao longe,

com nossa teia,

tomaremos os remos

e feito postigos destes suspiros

desabitaremos pessoa do nada



fonte de gentes

sujeitos

pontes

e passagens



andarilhos Spartacus



Em letras,

das garrafas jogadas ao tempo,

seremos os cartões postais…






Por Carmen Sílvia Presotto
Ler mais poesia sua e de outros em http://vidraguas.com.br/wordpress/
Arte de Steve Hanks

sábado, 11 de dezembro de 2010

ver apresentação

BLADE RUNNER WALTZ






Em mil novecentos e oitenta e sempre,

ah, que tempos aqueles,

dançamos ao luar, ao som da valsa

A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,

nome, confesso, um pouco longo,

mas os tempos, aquele tempo,

ah, não se faz mais tempo

como antigamente

Aquilo sim é que eram horas,

dias enormes, semanas anos, minutos milênios,

e toda aquela fortuna em tempo

a gente gastava em bobagens,

amar, sonhar, dançar ao som da valsa,

aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento

que a gente dançava em algum setembro

daqueles mil novecentos e oitenta e sempre.






Por Paulo Leminski
Excerto de "Blade Runner" de Ridley Scott

domingo, 5 de dezembro de 2010



RETRATO






Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.



Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.



Eu não dei por esta mudança

tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida

a minha face?






Por Cecília Meireles
Arte por Apard Szènes

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010



A BOSTA É POP






Minha poesia não é pra ser recitada em

Saraus ou Academias de Letras.

É pra ser lida, sentida

No fundo do estômago

No útero, no saco escrotal.

Minha poesia vem das ruas

Avenidas encardidas

Lamacentas

Limo, excrementos

Vômitos esverdeados

De quem tem sede de vida.

Minha poesia não é de métrica

Nem rima rica

A pobreza define e alimenta os versos

Tão indigestos que

Dão azia, caganeira

Larica.

Minha poesia é kirsh

Sem cores de Almodóvar

Tudo em preto e branco

Cadelas e cachorros não enxergam colorido.

Minha poesia é pop.

A Bosta é pop!

Todo mundo faz e

Cada qual a sua maneira.

Mais dura ou mais mole

Depende do que se comeu na véspera.

Minha poesia pode ser diluída

Na cerveja, na cachaça

Na garapa vendida na feira e

Mais dois pastéis

bem grandes

que possam caber perplexidade

e espanto.

Minha poesia está sempre indignada

Aterrorizada

Por tanta genialidade óbvia

Que só vive de conceito

Na pia batismal

Sacramentando o egoísmo e a sordidez;

O olhar míngua ao dar nome

ao próprio umbigo.

Minha poesia está sempre de olhos arregalados

Sem dormir a canção de Drummond

Que Me fez acordar para sempre.

Só a criança em Mim dorme

Porque há mais de um século está morta.

Minha poesia é feita do lixo!

Faz desmoronar o planeta insustentável

Empobrecido pelo ser humano

E seu medo de amar.



Meu poema é o dejeto que não se recicla!






Por Lou Albergaria
Ler mais poesia sua em http://lobaderayban.blogspot.com/
e http://sementedeamora.blogspot.com/

domingo, 28 de novembro de 2010



Ontem, descobri um dos crimes mais assombrosos. Há um método rude para que o sabiá cante mais: furam-lhe os olhos. Aí, na triste e escura solidão de sua vida, o pássaro lapida e rumina sua partitura inata, a aditiva, e passa a cantar o tempo todo, mais e mais bonito.

Abaixo, eis o depoimento de uma avezinha pungida.





JAZZ LARANJEIRO






tudo belo aos olhos de

doce-de-flor-de-laranjeira



n` desjejum não m`alenta

geléia de borboletas



: me álacre era o céu-sol uma

distância de vôo percorrível



ora perambulo em passos-saltos

cúbicos: me tumula me berça

demolição de algazarra de

ciranda incinerada



me queimam me põem

estrepe arame nos olhos



ah há

quem me unte os olhos com bento cuspe?



por via escuríssima meu canto

sai labiríntico rude mas mais belo



: o céu-sol me

foi desaceso

– não me destila o sentir noite ou dia –



canto-peço-rezo

para alguém me devolvê-lo






Por Wilson Nanini
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010



A CIDADE E OS LIVROS


para D.Vanna Piraccini






O Rio parecia inesgotável

àquele adolescente que era eu.

Sozinho entrar no ônibus Castelo,

saltar no fim da linha, andar sem medo

no centro da cidade proibida,

em meio à multidão que nem notava

que eu não lhe pertencia - e de repente,

anônimo entre anônimos, notar

eufórico que sim, que pertencia

a ela, e ela a mim - , entrar em becos,

travessas, avenidas, galerias,

cinemas, livrarias: Leonardo

da Vinci Larga Rex Central Colombo

Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos

Alfândega Cruzeiro Carioca

Marrocos Passos Civilização

Cavé Saara São José Rosário

Passeio Público Ouvidor Padrão

Vitória Lavradio Cinelândia:

lugares que antes eu nem conhecia

abriam-se em esquinas infinitas

de ruas doravante prolongáveis.






Por Antonio Cícero
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http://antoniocicero.blogspot.com/

terça-feira, 16 de novembro de 2010



FOGO AZUL






Desanoitecendo…



De tua secreta busca

sou as páginas dobradas.

De tuas marés,

o rio que se curva.



Silêncio na mão da noite,

de tua boca, sob tambores,

acordo meus olhos.



Silêncio na mão da noite,

sonhas e me oceano

- Poesia Mulher -

fogo azul, sangro…






Por Carmen Silvia Presotto
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sábado, 13 de novembro de 2010



CANTIGA PARA NÃO MORRER






Quando você for se embora,

moça branca como a neve,

me leve.



Se acaso você não possa

me carregar pela mão,

menina branca de neve,

me leve no coração.



Se no coração não possa

por acaso me levar,

moça de sonho e de neve,

me leve no seu lembrar.



E se aí também não possa

por tanta coisa que leve

já viva em seu pensamento,

menina branca de neve,

me leve no esquecimento.






Por Ferreira Gullar
Fotografia de Mary Carson

quinta-feira, 4 de novembro de 2010



PLATÔNICO






Por que só agora

e não antes?

Há muito

seríamos amantes.

Felizes, talvez,

desde outrora.

E por que não o fez?

Por que só agora?



Que espécie de amor

é essa,

a viver desprovida

de pressa?

É amor que aguarda

retorno

ou que apenas se guarda,

como se morno?



Por que só agora

e não antes?

Temia

que nos fizesse distantes?

O que se perde de vida

a cada hora...

Pretendia dizer-me algum dia.

Pois me diga: por que só agora?






Por Renata de Aragão Lopes
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terça-feira, 12 de outubro de 2010



TÂNIA






Vens pela praia

descalça deusa

em pensamentos

absorta



posso ser teu guia

consolo

o riso fácil

no comentário alegre



teus pés n'água afastam

os passos rápidos

o olhar no horizonte

enfrenta as águas

por onde passas a areia

te faz leve traço



posso ser o barco ao longe

onde olhas o espaço

guardião da terra

em último compasso.






Por Pedro Du Bois
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http://pedrodubois.blogspot.com/
Imagem de AAT

domingo, 10 de outubro de 2010



O PAÍS DAS MARAVILHAS






Não se entra no país das maravilhas

pois ele fica do lado de fora,

não do lado de dentro. Se há saídas

que dão nele, estão certamente à orla

iridescente do meu pensamento,

jamais no centro vago do meu eu.

E se me entrego às imagens do espelho

ou da água, tendo no fundo o céu,

não pensem que me apaixonei por mim.

Não: bom é ver-se no espaço diáfano

do mundo, coisa entre coisas que há

no lume do espelho, fora de si:

peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,

um dia passo inteiro para lá.






Por Antonio Cicero
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Fotografia de Aguiadourada

sábado, 25 de setembro de 2010



PONTO DE VISTA III





saltei do precipício

e a queda se fez caminho





Por Eugênia Fraietta
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domingo, 5 de setembro de 2010



NOVA IORQUE





A cidade grande morre de frio

e a chuva não lava os rostos

de seus negros



A cidade brilha nas paredes molhadas

e à noite

homens passam correndo

nas esquinas

sem nome



Um gato se enrosca no jornal velho

e o asfalto treme

à passagem do subway



Nas ruas, muros

nos letreiros, luzes

nas vitrinas, cifras

nas calçadas, povo

mas tudo tão frio

na cidade



Belas moças que passais

por que não vos importais

com o frio que está fazendo?

Jovem loura distraída

por que é duro o vosso olhar?



Rostos, muitos

gente, pouca

nas ruas de Nova Iorque.





Por Mauro Salles

sábado, 4 de setembro de 2010



MOVIMENTO E NÃO





garças brancas

sobre o lago



impassível



- movimento

e não



tudo



na natureza

se equilibra





Por Nydia Bonetti
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010



CONTO






Existem minas

ao norte de uma grande cidade

onde os mineiros

não vêem a luz

há pelo menos 25 anos.

Dizem que têm

olhos fosforescentes

como peixes das regiões abissais.

Dizem que nascem da terra

e se proliferam por bipartição.

Dizem que têm pulmões modificados

e que nunca choram

porque dói muito.

Mas são homens,

ainda homens,

os mineiros do Norte.






Por Micheliny Verunschk

sexta-feira, 20 de agosto de 2010



MORTE DE CLARICE LISPECTOR






Enquanto te enterravam no cemitério judeu

do Caju

(e o clarão do teu olhar soterrado

resistindo ainda)

o táxi corria comigo à borda da lagoa

na direcção de Botafogo

as pedras e as nuvens e as árvores

no vento

mostravam alegremente

que não dependem de nós






Por Ferreira Gullar
Arte por Van Gogh

domingo, 15 de agosto de 2010



A (CIDEN) TAL FELICIDADE





poeira fina

talvez purpurina

que se tem à mão



de que só se apercebe

aquele que a vê

pender ao chão





Por Renata de Aragão Lopes
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AMAZONA





Jamais adia

sim ou não.

Repudia

a dúvida.

Prefere

precitpitação

a inércia.

Ainda que tropece.



Até quem a conhece

lhe diz insana.

Mas se a julga

infeliz

se engana.

A vida, curto intervalo.

Alguns vão a pé.

Ela segue a cavalo.





Por Renata de Aragão Lopes
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domingo, 8 de agosto de 2010



AMOR DE RENDIÇÃO





Se te sou motivo

de desagrado,

porque vivo

a te pedir

palavras

de apaixonado,

porque te manténs,

com tantos poréns,

enfim,

ao meu lado?



É assim

que amo

e bem conhecias

esses meus modos

de século antepassado:

o apego às poesias,

o apreço pelo fado,

o sossego das mãos

em repouso

no avesso do bordado.



Vazias,

mas sempre ao aguardo

de um afago

mais que querido,

tido por inesperado,

que te ponhas

a meus pés

rendido

e em minhas fronhas

enamorado…





Por Renata de Aragão Lopes
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Arte de Alfred Chantrey Corbould

terça-feira, 3 de agosto de 2010



AO RÉS





O quão rés ao chão estou

Se minha cabeça flutua no alto

Carregando pensamentos e ideias?



Alguns eclipsados,

Outros a fulgurar como estrelas.



O quão alto voo eu-mente,

Enquanto corpo grudado à terra,

Enquanto vida grudada ao corpo?



Eclipse da liberdade

Grade pintada de transparente.





Por Ivan Bueno
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Fotografia de Ivan Bueno